terça-feira, 6 de outubro de 2009

Novos tempos, novas mentalidades (06/10)

O obstáculo maior no caminho para 2016 não está no plano das coisas tangíveis. Está no nosso imenso e arraigado complexo de inferioridade. É bem mais fácil tirar um país da subalternidade do que arrancar a subalternidade da alma de um país

Há lógica na atitude dos críticos que veem problemas capazes de dificultar o sucesso das Olimpíadas no Rio em 2016. Temos graves deficiências na infraestrutura, na segurança e em outros pontos vitais de responsabilidade do poder público. No plano esportivo, não somos um país propriamente olímpico. Se nas modalidades coletivas vamos bem, nas individuais continuamos a patinar, ainda que se note um lento progresso.

Junto com a gestão impecável do dinheiro envolvido, são todos itens que deverão merecer o cuidado e a atenção do governo e do Brasil. Aqui entram os críticos. Quanto mais crítica — mesmo a injusta — e mais fiscalização, melhor. Pode soar como lugar comum, mas as Olimpíadas abrem uma bela oportunidade para que, premidos pelos compromissos firmados, promovamos um grande salto à frente. Especialmente no Rio de Janeiro. A capital fluminense deveria inspirar-se em Barcelona. Quem viu a transformação dela por causa dos Jogos de 1992 entende o que eu digo.

Os desafios materiais são grandes. Mas perfeitamente equacionáveis. Se outros conseguiram, por que nós não conseguiríamos? Aliás, o obstáculo maior no caminho para 2016 não está no plano das coisas tangíveis. Está no nosso imenso e arraigado complexo de inferioridade. É bem mais fácil tirar um país da subalternidade do que arrancar a subalternidade da alma de um país.

As mudanças materiais não transformam automaticamente o espírito. Leva um tempo. É um processo que tem “delay”. E que às vezes dura um bocado para se completar.

Nosso complexo de inferioridade nem sempre se manifesta como tal. É mais comum aparecer fantasiado de arrogância, que facilmente escorrega para a boçalidade, ainda quando marqueteada como “bom humor”. Algumas manifestações na esteira da escolha do Rio já nos garantiram medalha de ouro antecipada em boçalidade coletiva. A começar do “yes, we créu”. Alguém imagina Alexander Popov, Carl Lewis, César Cielo ou Michael Phelps reagindo com um “yes, we créu” depois de uma grande vitória?

O que o “yes, we créu” tem a vez com o belo filmete exibido pelos brasileiros em Copenhague, mostrando a cordialidade do carioca e fazendo do Rio o palco de uma grande confraternização? Nada. É só um retrato do rancor. E o rancor é um péssimo sentimento. O humor saudável é sempre autodepreciativo. Mas entre nós a autodepreciação não chega a ser valorizada. Nós preferimos a forra, a vingança, a humilhação do vencido. Impulsos toscos e primitivos. Que aparecem com nitidez na nossa política. E que agora trazem o risco de serem transplantados para um evento que nos fez foco da atenção mundial.

É algo de que deveríamos, acho eu, cuidar com prioridade. Todo mundo que organiza uma edição das Olimpíadas procura esconder ou maquiar certas coisas negativas. É como uma família que recebe visitas. Precisa saber comportar-se. No nosso caso, são necessárias providências para que durante os próximos anos disfarcemos do mundo nossa propensão à estupidez.

Honduras

Por falar em complexo de inferioridade, em pelo menos um aspecto o Brasil reagiu à crise hondurenha como país de segunda categoria. Foi quando retirou dali o seu embaixador. Potências não se retiram do palco, procuram fortalecer sua posição de arbitragem.

Pode ser também que a saída do embaixador brasileiro de Tegucigalpa tenha sido decidida com base em inteligência frágil, na avaliação de que Manuel Zelaya seria reinstalado no poder simplesmente pela ação combinada das massas populares e da assim chamada comunidade internacional. Sem necessidade de negociar com o governo nascido do golpe.

Se foi isso, pior ainda. O novo status internacional do Brasil exigirá mais profissionalismo nas nossas representações. E, naturalmente, mais e melhor inteligência.

As medidas mais dolorosas e que maior efeito têm tido para reverter o golpe de estado em Honduras vêm dos Estados Unidos. Em especial a suspensão dos vistos americanos para alguns empresários hondurenhos. Washington vai conduzindo a crise rumo a uma saída negociada. Beneficiando-se também de ter ali um embaixador.

Luiz Inácio Lula da Silva acabou, como acontece amiúde, ajudado pelos fatos. Quando Manuel Zelaya entrou na embaixada brasileira em Tegucigalpa reintroduziu junto Lula no palco.

Novos tempos pedem novas mentalidades.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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9 Comentários:

Anonymous Lúcifer disse...

Férias longas,prática de saudável alienação,produzem justificados comentários desfocados do "instantâneo" do momento atual.
O que é mais importante a conquista inédita de sediar Olímpiadas ou as comemorações expontâneas,nas ruas e nas mídias?
A web, produz , sabidamente,lixo em quantidade surpreendente,não menos do que os mortais produzem nas suas elocubraçõs rotineiras, solitárias ou em grupos.Aliás, desde que elejeram por gosto ou por política , o "funk" como manifestação cultural,nada mais deve soar estranho. A diplomacia brasileira,recebeu os parabéns da comunidade internacional pela firme posição em favor da democracia.Bem mais firme do que a dúbia atitude do governo americano,ainda sob efeitos de cacoetes históricos. As últimas notícias só vem confirmar o acerto da estratégia do nosso governo.Cada vez mais,embora não facilmente, vamos nos distanciando do complexo de "vira-latas",que tem presidido o incosciente coletivo ao longo da nossa história.

terça-feira, 6 de outubro de 2009 10:14:00 BRT  
OpenID muitopelocontrario disse...

Ferias longas ein?

terça-feira, 6 de outubro de 2009 19:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, dá gosto ler você. Nada tenho a acrescentar. suas análises são primorosas.

Celina

terça-feira, 6 de outubro de 2009 21:59:00 BRT  
Blogger maria sette disse...

Quando vc anunciou que estaria em férias a não atualizaria o blog decidi passa-lo para a categoria 2 (juntamente com os que leio raramente) meus blogs favoritos. Apenas para não me confundir com os blogs que leio diariamente.
Concordo com Lucifer. "Voce voltou muito desfocado do nosso momento atual." Deve ter comido algo estragado por aí... Melhor deixa-lo na 2ª categoria de blogs...apenas para não atrapalhar minha leitura diária...Uma pena, pois gostava muito de seus posts e de sua coerencia...abraço

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 18:20:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Qual é exatamente sua discordância, maria sette?

quarta-feira, 7 de outubro de 2009 22:30:00 BRT  
Anonymous Milton/Santos-Brasil disse...

Sr. Alon porque não publica o meu comentário ?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009 09:49:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Releia e o sr. mesmo saberá por quê, sr. Milton.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009 09:58:00 BRT  
Blogger JOEL disse...

Seja bem vindo, nosso ALON BRAZILIENSE...entenderam?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009 16:04:00 BRT  
Blogger JOEL disse...

Seja bem vindo, nosso ALON BRAZILIENSE...entenderam?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009 16:04:00 BRT  

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