terça-feira, 27 de outubro de 2009

Mais ativismo de Lula em Cuba (27/10)

O governo Lula fará bem se olhar para o tema de Cuba sem preconceitos, sem viés ideológico. Aliás, o presidente fez questão de reafirmar em sua entrevista mais recente que nenhum movimento dele em política externa é movido a ideologia

O diário madrilenho El País transcreveu um diálogo entre o presidente democrata dos Estados Unidos, Barack Obama, e o colega espanhol, o socialista José Luis Zapatero. O assunto era Cuba, que entrou na pauta porque o chanceler da Espanha, Miguel Ángel Moratinos, estava de viagem marcada para Havana.

Em resumo, o que o chefe da Casa Branca mandou Moratinos avisar aos dirigentes cubanos foi o seguinte: ou eles dão passos visíveis para abrir o regime, ou será complicado para Washington seguir no caminho da distensão.

O impasse é simples de explicar.

A cúpula em Havana quer relações econômicas normais com os Estados Unidos, para oferecer prosperidade à ilha e solidificar o poder do Partido Comunista. Já a Casa Branca topa avançar no caminho da abertura econômica, desde que acoplada a uma transição política que, lá na frente, conduza os cubanos a um sistema democrático, com a possibilidade real de alternância no poder.

Disso o PC não quer nem ouvir falar.

É óbvio que a Obama faltará em algum momento apoio político para uma distensão com os Castro se a estratégia atual não mostrar resultados. Daí que o presidente americano tenha sido claro na conversa com seu par espanhol.

E nós? Bem, na lista de assuntos a que a política externa brasileira assiste com passividade estupenda, Cuba ocupa uma das primeiras posições, junto com a ameaça de nuclearização regional (assunto já tratado aqui). A passividade vem embrulhada num ativismo de fachada, que diz buscar o fim puro e simples do bloqueio econômico. Sem contrapartidas. Pois, afinal, Cuba deve exercer plenamente sua soberania.

Mas o desenvolvimento da crise política em Honduras, desencadeada pelo golpe de estado, mandou ao arquivo os princípios da não ingerência e da autodeterminação. E Luiz Inácio Lula da Silva está agora, vejam só!, diante de uma bela oportunidade: usar o capital acumulado e o novo ambiente de cooperação regional para ajudar Barack Obama a obter uma transição política negociada em Cuba.

Será o caminho mais curto para Lula ganhar o seu próprio Nobel da Paz. Desde, é claro, que nosso presidente considere que o melhor para Cuba é um regime plenamente democrático, com ampla liberdade de organização e expressão, e com o fim do monopólio do poder do PC.

Os defensores do governo cubano argumentam que operar essa transição sem garantias seria colocar em risco a soberania da ilha caribenha. E que o primeiro passo é simplesmente os Estados Unidos levantarem o bloqueio.

Talvez não seja uma posição realista, de alguns. Ou talvez embuta a ilusão, de outros, de que com a economia indo bem haverá um caminho para manter intocado o sistema político cubano.

Na conversa com Zapatero relatada pelo El País, Obama opinou que a América Latina está ok, que vai saindo satisfatoriamente da crise e que as instituições democráticas se consolidam, com exceção naturalmente do caso hondurenho. Mas resta Cuba como um problema sem solução.

O governo Lula fará bem se olhar para o assunto sem preconceitos, deixando de lado o viés ideológico. Aliás, o presidente fez questão de reafirmar em sua entrevista mais recente que nenhum movimento dele em política externa é movido a ideologia.

Então vamos aproveitar. E agir. Interessa ao Brasil que o impasse cubano seja um tema superado, uma página virada.

A guerra acabou

A eleição uruguaia vai para o segundo turno, entre o candidato da esquerda e o liberal. A novidade foi o crescimento da direita, ainda que ela tenha ficado fora da decisão. A esquerda, que já governa o país, é favorita para continuar no poder.

Mas os uruguaios não votaram só para presidente. Houve também dois referendos. A maioria rejeitou implantar o voto dos emigrados e também recusou anular a anistia para agentes do estado que cometeram crimes na ditadura dos anos 70-80 do século passado.

É um assunto interno do Uruguai, mas com reflexos continentais. E a decisão dos eleitores uruguaios é um serviço prestado à consolidação democrática na América do Sul.

Lá, como aqui, não é justo nem razoável impedir que familiares da vítimas da violência no período ditatorial saibam exatamente o que aconteceu com seus entes queridos e recebam a justa reparação. Mas esses são direitos privados, que devem ser reclamados no âmbito da Justiça.

Outra coisa, bem diferente, é querer reabrir um processo político já encerrado. Uma guerra civil que, como todas as guerras, esteve longe de ser bonita. E que felizmente acabou.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

Leituras compartilhadas

twitter.com/AlonFeuerwerker

youtube.com/blogdoalon


Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

3 Comentários:

Blogger Miguel Fornari disse...

Ola,

Pois os dois lados poderiam pensar numa transição gradual, seguindo o exemplo EUA-CHINA. Afinal, depois de 40 anos, nenhum dos dois lados tem possibilidade política de trocar de posição numa única decisão.

Quem sabe liberar as viagens aéreas para cidadãos de ambos países, como primeiro passo?

Lula poderia propor, pelo menos, entre Brasil e Cuba.

[]s,
Miguel

terça-feira, 27 de outubro de 2009 11:28:00 BRST  
Blogger Paulo R Silva disse...

Não tem jeito, o Obama está preso na mesmo rede que atrapalhopu a política externa americana outras vezes: acreditar que uma política externa que não construa regimes democráticos no país dos outros é uma política fracassada.

terça-feira, 27 de outubro de 2009 12:05:00 BRST  
Anonymous Francisco Silva disse...

Quando Obama vai "exigir" dos chineses o mesmo?

terça-feira, 27 de outubro de 2009 17:07:00 BRST  

Postar um comentário

<< Home