quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Imperialista, mas com jeito (28/10)

A reorganização do espaço político regional sob os auspícios do grande capital brasileiro é um fato do processo histórico. O melhor é cuidar para que se dê com parâmetros defensáveis

O assunto da hora no Mercosul é a entrada da Venezuela. Ainda que o Senado brasileiro ratifique a adesão, ficará faltando a concordância do Paraguai, onde a pauta virou objeto de disputa política entre o presidente Fernando Lugo —que apoia a incorporação do país de Hugo Chávez— e os oposicionistas, removidos do poder nas últimas eleições. Considerado o peso específico de cada ator, é provável que a chancela do Brasil, se acontecer, acabe removendo os obstáculos políticos colocados pelos paraguaios.

Grandes empresas brasileiras, especialmente na área de infraestrutura, têm forte interesse em que a dança com Caracas vire casamento. É um mercado e tanto, pois ao longo dos anos a Venezuela desperdiçou a riqueza petrolífera, não usou o capital para industrializar-se. Nosso vizinho do norte talvez seja o melhor exemplo de como muito petróleo não significa necessariamente desenvolvimento. A tradição ali, de longa data, é as elites econômicas e políticas parasitarem a riqueza do óleo e deixarem em enésimo plano a justiça social e o interesse nacional. Eis uma explicação, talvez a principal, para a emergência do chavismo.

A incorporação da Venezuela é também defensável de outro ângulo: a segurança coletiva. O regime de Caracas ensaia ser o catalisador de uma “globalização” desagradável. Dados os laços crescentemente íntimos com o Irã, Chávez ameaça arrastar nossa região rumo um protagonismo indesejado: meter-nos na disputa global em torno do programa nuclear iraniano. A América do Sul é um continente 100% livre do terrorismo e das armas de destruição em massa. Será ótimo que continue assim. Infelizmente, como já dito e ressaltado aqui, a diplomacia brasileira tem tido uma posição frouxa diante da ameaça de escalada nuclear regional.

A completa integração da Venezuela abrirá caminho para maior influência política do Brasil nos assuntos do parceiro caribenho. O que interessa também, e muito, aos Estados Unidos. Na estratégia global de Washington, cabe a nós zelar para que as coisas não saiam dos eixos na América do Sul. O que coincide com nossas próprias aspirações nacionais estratégicas. Também daí o ótimo momento que vivem as relações com os americanos, independendo até da cor do governo de plantão — lá e cá. Luiz Inácio Lula da Silva foi adulado publicamente por Barack Obama, mas com George W. Bush ele já era, na prática, “o cara”.

Assimetria

Um problema grave do Mercosul é a assimetria dos integrantes. Convém a nós que os vizinhos se desenvolvam, até mais aceleradamente do que o Brasil. Não apenas pelas consequências no plano migratório, mas para garantir um melhor equilíbrio político. Há porém resistências internas a que o Estado brasileiro alavanque a expansão do capital nacional na região. Argumenta-se que cada emprego criado lá fora é um emprego a menos aqui.

Talvez não seja bem assim, dado que a transformação de empresas brasileiras em multinacionais traz necessariamente resultados também no Brasil, inclusive com o surgimento de oportunidades de trabalho, talvez até mais sofisticadas. De todo modo, essa expansão, a reorganização do espaço político regional sob os auspícios do grande capital brasileiro, é um fato do processo histórico, contra o qual as lamentações e os apelos por cautela costumam adiantar pouco. Melhor cuidar para que se dê com parâmetros defensáveis, histórica e moralmente. E até hoje nenhum país se deu mal por praticar o —com o perdão da má palavra— imperialismo.

A diferença é que os sabidos fazem isso com jeito.

Israel

Ainda no âmbito do Mercosul, avança no Congresso Brasileiro a aprovação dos acordos de livre comércio com Israel. Uma vez integrada ao bloco, a Venezuela deveria teoricamente normalizar suas relações com o Estado Judeu, esgarçadas desde as duas últimas guerras movidas pelos israelenses, contra o Hezbollah e o Hamas.

Veremos como Chávez se sai dessa. E como agirá o Brasil no caso.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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1 Comentários:

Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, por falta de tempo, e não de vontade, não deixei comentários em seus últimos posts sobre a diplomacia brasileira, mas como este último é o melhor deles, saio ganhando alguma coisa. “Na estratégia global de Washington, cabe a nós zelar para que as coisas não saiam dos eixos na América do Sul. O que coincide com nossas próprias aspirações nacionais estratégicas.” Esse é um ponto crucial que poucos querem reconhecer, eu alteraria algumas “ênfases”: na estratégia global de Washington a America Latina é secundária (não tem como não ser, independente do governo lá deles), assim é obvio que eles vão ficar satisfeitos se alguém cuidar de parte do encargo do império enquanto eles gastam energia com outras prioridades. Por outro lado esse papel é menos “nossas aspirações nacionais estratégicas” e mais uma inovação do governo Lula. Em um de seus posts anteriores você parece reconhecer isso, quando comenta a mudança da presença do país nos fóruns diplomáticos. Lula é de fato um negociador, ele é capaz de sentar-se à mesa sabendo o que o outro lado quer, e avançar termos de negociação vantajosos para ambas as partes, daí o entusiasmo dos americanos, independente do governo de plantão. A “parcialidade” da diplomacia brasileira com os governos da região vem também daí, enquanto os americanos defendem seus “amigos” nós defendemos os “nossos”, mas mantendo o diálogo franco sem deixar que se criem impasses (Honduras, para mim, foi uma derrapada americana, que se comprometeu com o lado “errado”, do ponto de vista deles). A grande vantagem é que evitando impor soluções você permite que as sociedades envolvidas dêem curso ao jogo político interno e tira força das bandeiras anti-imperialistas. O Brasil nunca (que eu saiba, né?) fez diplomacia de tamanha qualidade. Se der tempo, ocupo mais espaço em sua caixa de comentários... bye.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009 08:58:00 BRST  

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