quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Estratégia de supermercado (22/10)

A divisão interna deu lugar ao constrangimento externo. E como, um ano depois, a crise parece estar no fim, com a volta do crescimento virá também mais desmatamento, e haverá mais pressões

A política ambiental-agrícola do governo Luiz Inácio Lula da Silva é um frankenstein, um monstrengo. Não chega a resultar de algo calculado: antes, reflete as oscilações na posição da administração ao longo destes quase sete anos.

Desde que chegou ao Palácio do Planalto, o PT tem sido a favor dos organismos geneticamente modificados (transgênicos), mas também é contra. Apresentou o etanol de cana como a grande contribuição verde-amarela contra o aquecimento global, mas diz também que o futuro da nacionalidade repousa na exploração do petróleo do pré-sal, um combustível potencialmente recordista na emissão de CO2. E por aí vai. Essa “estratégia de supermercado” (a cada situação, você vai à gôndola e pega o produto, ou a explicação, que mais lhe convém) tem seus motivos.

O PT nasceu e cresceu dando gás a correntes políticas e sociais ideologicamente portadoras de uma visão que, na falta de algo melhor, chamamos de “ambientalista”. Uma turma que lhe trouxe belo capital político na oposição. Capital usado para alcançar o poder.

Uma vez lá, era necessário governar. E, como não havia condições políticas (nem vontade única) de implementar o projeto original, a administração transformou-se numa zona de conflito. Até o dia em que Marina Silva decidiu que era hora de sair do Ministério do Meio Ambiente.

A partir de então, nota-se certa homogeneidade, já que o substituto de Marina trafega mais na faixa do espetáculo do que da ação. Para sorte do governo (pelo menos neste aspecto), sobreveio uma crise global gravíssima, que fez a economia mundial andar para trás. A demanda pelos nossos produtos agrícolas caiu, e, com ela, o desmatamento. E as autoridades colheram números ambientalmente favoráveis para exibir.

Mas Lula deu azar em outro aspecto: a obtenção de um razoável consenso interno no governo a favor do que é chamado desenvolvimentismo coincide com a agudização quase insuportável das pressões externas para que o Brasil coloque limites draconianos à emissão de gases do efeito estufa.

A divisão interna deu lugar ao constrangimento externo. E como, um ano depois, a crise parece estar no fim, com a volta do crescimento virá também mais desmatamento, e haverá pressões. E sabe-se que o Brasil não chega a ser especialmente valente diante de certas pressões de fora.

Um resultado perverso da falta de unidade interna no governo e no PT é dificultar que se encontrem soluções equilibradas quando o Congresso Nacional tem que trabalhar questões polêmicas. Tome-se o atual debate do Código Florestal. A Câmara dos Deputados abriu a discussão, em meio a uma guerra entre as bancadas do meio ambiente e da agricultura. Os primeiros pressionam para manter regras draconianas de intocabilidade nas propriedades rurais. Os segundos, naturalmente, são contra.

O aspecto mais esdrúxulo dessas regras é que elas estimulam a concentração da propriedade, num governo que se diz propulsor da desconcentração. Se o sujeito só pode produzir em 20% de suas terras, o empreendimento fica viável economicamente a partir de uma área relativamente grande. Existem argumentos em defesa da possibilidade de explorar a terra sem afetar o ecossistema, mas isso, por enquanto, ou está na teoria ou mostra pouca viabilidade econômica.

Há também outras perversidades, decorrentes da justaposição irracional de normas. Que ameaçam jogar na ilegalidade populações inteiras de agricultores. E quem pode resolver esse imbróglio? O governo. Só ele. Entre um e outro jantar de articulação política, entre uma e outra reunião sobre 2010, talvez as autoridades possam encontrar um tempinho para ajudar a descascar o abacaxi.

Agora vale

Depois de Honduras, onde o presidente foi deposto por um golpe de Estado baseado em bizarra regra constitucional, agora é a Nicarágua que contribui para o nonsense político regional. A Constituição proíbe a reeleição do presidente, mas como o governo sandinista tem apoio na Corte Suprema um pedaço desta decidiu simplesmente que tal norma constitucional não vale. E ponto final.

Alguém poderá dizer que se trata de um golpe branco. E é. Mas não será condenado pelo governo brasileiro. O Itamaraty dirá que é assunto interno dos nicaraguenses. E é. Nossa chancelaria transformou-se nisto. Quando os amigos de Lula fazem estripulias, vale o justo princípio da autodeterminação dos povos. Quando são os adversários, ela não vale.

Não é novidade, mas não custa registrar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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8 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

O termo correto para tudo isso é realmente imbróglio. Ou para ir no mais popular, com permissão do blog: é uma verdadeira esculhambação. O bom é que muito disso tudo está desvelando-se. Pena que um pouco mais tarde do que o desejável.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 22 de outubro de 2009 09:05:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Este é um governo de transição , era sabido que teria pouca margem de manobra com um congresso fisiologico e consrvador,um empresariado idem e com uma maioria da midia agindo como um partido de oposição (o que veem corroendo sua credibilidade , numa eventual vitoria da Dilma e pelo que teem demonstrado sua personalidade ,ela não tão "paz e amor" quanto o Lula e como se vaticina uma parte substancial de "estrelas" da oposição não se reelegerão , o que falicitara a institucionalização de avanços de mecanismos sociais ,economicos ,ambientais e culturais ,desejos da esquerda democratica agora no poder.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009 09:23:00 BRST  
Blogger WAGNER disse...

O que você quer que o governo brasileiro faça. Condene a suprema corte da Nicaragua? Diga que está errado? A comparação com Honduras não é correta, pois o presidente constitucional foi tirado de pijama da cama e expulso do país.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009 10:44:00 BRST  
Anonymous Briguilino disse...

O termo correto para esta histeria ambiental é: Reserva de mercado, barreiras a entrada dos produtos dos países emergentes aos mercados dos ditos "países do 1º mundo". Para provar isso basta responder uma perguntinha apenas, qual a taxa de desmatamento dos paises ricos?...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009 13:09:00 BRST  
Anonymous sergio ferreira disse...

O retorno de suas postagens após as férias de setembro trouxe uma elevação do tom crítico ao governo, ou é impressão minha, apenas?

Aproveito a ocasião para uma sugestão, ou um pedido
Você tem se referido por algumas vezes ao fato de os governadores de oposição terem também bons trabalhos a apresentar em uma possível disputa presidencial.
Acredito que a referência seja a Serra e a Aécio.
O pedido/sugestão é: seria possível uma postagem com a exemplificação desses feitos positivos?

Abraço

Sérgio

quinta-feira, 22 de outubro de 2009 17:42:00 BRST  
Blogger Cadu Lessa disse...

Alon,
Concordo com o Anônimo, quando ele diz que esse governo é de transição. Depois da ditadura, do (des)governo Sarney e do neoliberalismo na veia do período FFHH, Lula não teria muito margem de manobra.
As mudanças são lentas, como são lentas as mudanças no Congresso Nacional.
Mas não posso deixar de concordar com você. A política agrícola-ambiental do governo não é boa.

Abraços e boa noite,
@cadulessa

quinta-feira, 22 de outubro de 2009 23:53:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

ao Sérgio Ferreira

Posso adiantar algo de São Paulo já que sou paulistano:
A propaganda do metrô ficou supimpa!
Tem também a importantíssima lei da banana por kilo.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009 09:08:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Não trata-se de transição considerando-se que nada está sendo alterado em termos institucionais que demonstre isso. Muito menos em termos de estrutura econômica, do modo de produção. Não há nada que possa ser tomado como mudanças estruturais de vulto. A única transição à vista é a poderá ocorrer com as eleições de 2010, com um novo presidente. E mesmo assim, poderá ocorrer apenas uma continuidade do que está hoje.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 23 de outubro de 2009 09:32:00 BRST  

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