sábado, 31 de outubro de 2009

Economia nos gestos e jogo duro (01/11)

Em Honduras, os Estados Unidos agiram como potência: economizaram nos gestos para a plateia e jogaram duro com quem interessava. Quem preferiu os aplausos da arquibancada acabou a partida no banco de reservas

Precipitou-se quem profetizou, diante das dificuldades iniciais, o inevitável fracasso da administração Barack Obama. Depois do Nobel da Paz, esta semana o presidente americano recolheu outros dois prêmios: 1) a solução do impasse hondurenho foi construída sob o tacão dos Estados Unidos -e debaixo dos aplausos de Luiz Inácio Lula da Silva e Hugo Chávez; e 2) a economia da maior potência mundial trouxe números que mostram luz no fim do túnel da crise.

Em Honduras, os Estados Unidos agiram sem dúvida como potência: economizaram nos gestos para a plateia e jogaram duro com quem interessava. Os que preferiram aplausos da arquibancada acabaram a partida sentados no banco de reservas. Paciência. É o que os americanos chamam de "learning curve". Nossa curva de aprendizado. Potência não se senta na mesa do carteado para marcar posição, ou assegurar discurso. Entra para ganhar e sair com as fichas.

Se queremos ser potência de verdade, e não apenas no gogó, ou em reportagens e editoriais babosos da imprensa internacional, vamos aprender com quem já é uma. Usando o método japonês: em vez de reinventar a roda, copiemos. O comportamento da Casa Branca na crise de Honduras combinou dois vetores clássicos em sua política externa: a Doutrina Monroe, do presidente James Monroe, e seu complemento, o Big Stick de Theodore Roosevelt.

A primeira define, ainda que disfarçadamente, as Américas como área de influência natural dos Estados Unidos. A segunda diz como garantir isso (e outras coisas mais): falando macio e carregando um grande porrete.

“América para os americanos” permite uma dupla e conveniente leitura. Se “americanos” são só eles mesmos, a frase retrata um pensamento imperialista. Mas se somos todos americanos, do Alasca à Patagônia, então a interpretação é outra, mais comunitária. Já a fala doce e o porrete providencial saíram de um ditado africano, a que Roosevelt (não confundir com o outro mais famoso, Franklin Delano) deu ampla divulgação e expressão histórica.

O resultado está aí. Depois de passar quatro meses alternando o discurso de não ingerência e medidas econômicas e diplomáticas dolorosas, os Estados Unidos foram convocados pelo hemisfério e pelos hondurenhos a bater o pênalti decisivo. E o equilíbrio da balança mudou. Vamos aguardar as consequências.

Na Nicarágua, os sandinistas, sem apoio congressual para a reforma da Constituição, operam na corte suprema para qu os juízes simplesmente anulem a cláusula que proíbe reeleger o presidente.

O embaixador americano em Manágua andou criticando a manobra.

Claro que recebeu em troca a reação feroz do sandinismo. Ora, se os Estados Unidos são árbitro das pendengas internas em Honduras, por que não podem ser também na Nicarágua? Ou em Cuba? Ou na Venezuela? Ou em qualquer outro lugar?

Isso é apenas um exercício retórico, claro. Lula, Chávez e o nicaraguense Daniel Ortega apoiam a ingerência americana em Honduras porque é para reinstalar um aliado dos três na presidência do país. E defenderão furiosamente a soberania nacional de qualquer nação quando uma eventual intervenção americana ameaçar ali posições de poder “"amigas"”. É a diplomacia "à la carte". Só que falta sofisticação ao menu.

Essa precariedade doutrinária atrapalha no processo de liderança. Daí que a OEA tenha saído do episódio ainda menor do que entrou. Não foi chamada nem para recolher os salgadinhos que sobraram do coquetel. E daí que a formalização esta semana do pacto bilateral para o reforço da presença militar dos Estados Unidos na Colômbia tenha passado quase batida, como algo normal, natural.

Trio vencedor

O outro dado positivo para Obama, o crescimento do PIB americano, reforça uma constatação. O mundo entrou junto na crise e vem saindo também junto. Agradecimentos devem ser enviados principalmente a Pequim, Londres e Washington.

Os chineses estão dando um jeito de crecer 8% este ano, o que garante aos países parceiros uma boa expansão, agora e no futuro próximo. Os ingleses levarão para a História o mérito de terem dito, na hora exata, que nenhum preço seria caro demais para salvar os bancos. E os americanos entraram com a gastança.

O resto do mundo, de dedos cruzados e rezando, seguiu atrás do trio.

Pena que na ilha de Sua Majestade os ventos eleitorais sejam de ingratidão ao premiê trabalhista, Gordon Brown, que ordenou o toque de avançar a cavalaria na hora mais necessária, quando qualquer vacilação teria sido fatal.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada na edição de amanhã do Correio Braziliense.

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14 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

"Pena que na ilha de Sua Majestade os ventos eleitorais sejam de ingratidão ao premiê trabalhista, Gordon Brown, que ordenou o toque de avançar a cavalaria na hora mais necessária, quando qualquer vacilação teria sido fatal."

Alon, veja os números da economia inglesa antes de lamentar a derrota do escocês.

sábado, 31 de outubro de 2009 23:36:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

No caso de Honduras, a diplomacia brasileira não teve nada a fazer a não ser aceitar Zelaya na embaixada e aplaudir a atuação dos EUA. Mostra que a influência na América Central está longe de ser significativa. Na América do Sul, um recente acordo entre Argentina e Chile parece contrapor-se à alegada liderança brasileira. Na Colômbia, nem Uribe e muito menos Obama explicaram-se ao Brasil e o acordo sobre as bases foi firmado. Mais uma vez, nada a poder fazer, como era óbvio, a não ser tentar, como o foi na reunião da Unasul sobre o tema. Resta a tarefa, não pouca, de tentar atenuar que arroubos belicistas levem às vias de fato. Na economia, a cantada marolinha deixa um nó cambial e pressões do lado fiscal. Enquanto dentro do G20, o G2 começa a nadar de braçada, azeitando as respectivas máquinas exportadoras. Nada mal para o almejado protagonismo emergente.

Swamoro Songhay

domingo, 1 de novembro de 2009 10:27:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, uma diferença de fundo entre liberais e socialistas é o posicionamento frente aos fatos. Se como você disse no post anterior “a regra nas relações internacionais é o cinismo”, não cabe depois pôr-se a deblaterar sobre as conseqüências: a diplomacia sempre será à la carte porque trata-se do jogo entre entes soberanos, e esses não precisam ficar justificando seus passos. Outro fato que não deveria ser esquecido é que os EUA são uma potência em função de seu poderio econômico e bélico, não é algo que possamos “aprender” à curto prazo. O elogio que fiz à diplomacia brasileira em comentário a uns dois “posts” atrás decorria desse ponto, encontrar uma convivência com os americanos que de um lado aceitasse a supremacia deles e, por outro, buscasse formas de permitir a que o jogo das forças internas a cada país tivesse tempo de amadurecer. Assim, quando os americanos intervêm diretamente eles resolvem. No caso de Honduras é tudo muito simples já que se trata de um país pequeno e inteiramente dependente dos americanos. Agora, por que a superpotência esperou tanto para liquidar a fatura? Ainda acredito que os americanos vacilaram no início da pendenga: o inusitado da constituição hondurenha e a oportunidade de pousar do mesmo lado dos desafetos (demonstrando coerência de princípios para constranger os anti-imperialistas). Para consertar o equivoco bastou ficar parado (numa pose de indignação, claro) e esperar as vésperas das eleições... até Cuba exigiu a intervenção do império, assim são as coisas, cuba também é soberana, o que não impede que a situação se mostre hilária. Com o acordo, salva-se a cara de todos, mas Zelaya que deverá presidir as eleições sem promover a consulta que queria, perdeu de fato. Cumpriram-se os desígnios dos “golpistas” ou “contra-golpistas”, usem-se as palavras que mais agradarem o freguês.

domingo, 1 de novembro de 2009 11:00:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro Alberto

O encaminhamento jurídico e político da deposição de Zelaya atinha-se perfeitamente à institucionalidade hondurenha. Tudo seguia dentro dos marcos institucionais e era certo que Zelaya seria levado a julgamento pelas reiteradas tentativas de golpear a Constituição.

Ele já havia perdido a maioria no Congresso, o seu vice já havia abandonado o governo e renunciado para concorrer às eleições de novembro, o General chefe das Forças Armadas já havia sido restituído pelo Judicário e, principalmente, ele não contava com o fundamental apoio político da população. Tudo indicava que Zelaya seria preso e levado a julgamento na Corte competente, na qual, como qualquer cidadão, teria o direito de defender-se. Embora lá não exista a figura constitucional do impeachment, há sim outros instrumentos jurídicos que, se acionados, podem conduzir a deposição de um presidente golpista.

No entanto, a nossa antiga tradição latina de "acelerar o processo via golpes" (e isso vale à direita e à esquerda) falou mais alto. Resolveram expatriar o bigodudo na calada da noite, seguindo o conhecido script latino-bananeiro. Chávez deve ter dado pulos de alegria, pois viu aí um replay da tentativa para depô-lo em 2002. Era o melhor que poderia acontecer para os planos de Chávez, dado o acachapante isolamento político de Zelaya em seu país.

O resto da história a gente já sabe, incluídas aí as presepadas e fanfarronices albanas, o papel ridículo da OEA e a atuação sofrível da diplomacia e governo brasileiros.

Desde que o presidente Arias entrou na parada, ficou evidente que os EUA haviam tomado as rédeas da resolução do imbroglio hondurenho. Afinal, a diplomacia americana é constituída por profissionais de primeira linha, como, aliás, não se cansa de alertar o Alon.

O fato novo, além do aumento da pressão americana, é que Micheletti, que é do PL, perdeu apoio político junto ao grupo que se uniu pela deposição de Zelaya. No post anterior a este, citei uma notícia interessante sobre a preferência do candidato do PN nas pesquisas de opinião. Está lá o link para a notícia. Dê uma olhada quando puder.

O fato é que ninguém até agora explicou cabalmente porque Micheletti mudou de posição e negociou a proposta de Arias de quatro meses atrás. Eu acho, seguindo as análises do jornal costa-riquenho, que os EUA ameaçaram de verdade não reconhecer as eleições de novembro. E como o PN e seu candidato se veem com chances reais de faturar as eleições...

domingo, 1 de novembro de 2009 15:09:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Reportagem do El Pais de hoje confirma a notícia de ontem do jornal costa-riquenho e dá detalhes sobre como foi o encontro de Porfirio Lobo com Shannon.

Porfirio perdeu as eleições para Zelaya por 7000 votos.

Do El Pais

Hace sólo unos días, Pepe Lobo y Thomas Shannon, el subsecretario de Estado enviado por Obama para solucionar de una vez el conflicto de Honduras, se reunieron a solas en Tegucigalpa. [...]

Vale a pena ler a íntegra da reportagem. Ao que parece, Lobo e Shannon fecharam um acordo, mas há incertezas sobre a o retorno de Zelaya.

Pero hay algo en lo que, pese a la presión ejercida por Shannon en nombre de Barack Obama [...] siguen sin estar de acuerdo: el regreso de Zelaya a la Casa Presidencial.

pepe Lobole pidió a Shannon que también él se comprometiera a algo:

- Me tienes que prometer que SEA QUAL SEA la resolución del Congreso, tu Gobierno en particular y la comunidad internacional en general se comprometerán a validar las elecciones del 29 de noviembre.

- Estoy de acuerdo. Nuestra postura será que la solución al conflicto es ya una cuestión exclusiva de los hondureños. [...]

Todas las declaraciones de Thomas Shannon fueron en ese sentido. [...]" Quiero garantizar que Estados Unidos acompañará a Honduras en sus elecciones del 29 de noviembre".

http://www.elpais.com/articulo/internacional/EE/UU/pacto/garantias/vuelta/Zelaya/poder/elpepuint/20091101elpepiint_7/Tes

domingo, 1 de novembro de 2009 17:28:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Paulo Araújo, não duvido da qualidade da diplomacia americana, o que não impede que ela coma uma bola de vez em quando, uma hipótese que poucos consideram. Existe a possibilidade que ela tenha feito um jogo duplo desde o início: enquanto pousava de indignada com os acontecimentos hondurenhos, costurava por traz, inclusive com o governo da Costa Rica, uma solução que representasse a derrota de fato do presidente deposto. Prefiro a hipótese de terem comido uma bola porque houve algumas declarações inconsistentes entre si, de diferentes personagens da diplomacia americana, e porque o estilo tortuoso do jogo duplo não me parece ser o americano. Mas estou mais concordando que discordando do Alon, apenas que acabo dando preferência às discordâncias, até para que haja diálogo. Concordo que nesse caso específico a atuação brasileira deixou a desejar, recusando-se ao diálogo com o governo de fato de Honduras. Tendo a concordar também com a crítica genérica de que a diplomacia brasileira tende a exagerar em seu papel de aliada dos governos “de esquerda”, mesmo que esse seja o seu papel na “parceria” com os americanos (como eu enxergo, claro, e venho esponto nos comentários) e, para tanto, ela precise assegurar-se da confiança de Chávez, Evo, Raul etc... Mas o julgamento do Alon do desempenho de nossa diplomacia me parece estar oscilando um pouco. Talvez em função dos resultados sempre parcos frente a busca de “protagonismo” por parte da nossa diplomacia. Mas creio que é nossa expectativa que deve ser moderada: se toda repartição pública é lenta, o ritmo da diplomacia pode ser exasperador, resultado de relações entre entes que se reconhecem soberanos (quem tem pressa deve usar “outros meios”, como a guerra), além disso o objetivo da ação diplomática pode ser dar tempo ao tempo, na expectativa que o jogo político interno de cada país (sob a pressão externa exigindo respeito aos procedimentos democráticos) conduza-os ao aprofundamento da democracia e à estabilidade política (o que me parece ser o objetivo que vejo na nossa “parceria” com os americanos). Por fim, precisamos aceitar a desproporcionalidade entre nossa “capacidade de convencimento” e a dos americanos. Por isso a questão é porque os americanos demoraram a cobrar a fatura, e não faz sentido (como já vi pela blogosfera) dizer que Obama esperava que “o cara” solucionasse a questão, né não?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009 10:12:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Erro crasso dos itamaratecas: agiram como bullies contra um menino fraco e impotente. Sequiosos de mostrar liderança e influência afastaram da postura de negociadores ou magistrados e perderam credibilidade. Essa não é uma postura que crie confiança e respeito. Se continuar assim, podemos até influenciar regionalmente, mas vamos atrair tanto ressentimento que podemos ver algumas torres do cerrado desabarem. Nossos punhos de renda ainda não pegaram o jeito da coisa.

terça-feira, 3 de novembro de 2009 18:11:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Amorim, é considerado por revista especializada editada no hemisfério norte,(dá credibilidade,não é?) como o melhor chanceler da atualidade. O Itamarati tem tradição superior as das canhestras tentativas proverbiais dos americanos.Especialistas em praticar a anacrônica "diplomacia das canhoeiras".Eficaz até a metade século passado.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009 21:27:00 BRST  
Anonymous Ribas disse...

Sinto muito Alon, mas esta história ainda não terminou, e parece que tua interpretação sobre o peso da atuação da diplomacia norte-americana estava totalmente equivocada. Veja as notícias de hoje sobre Honduras.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009 18:12:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

O que houve, Ribas? Zelaya voltou ao poder c força total? Instalou-se ali um governo hostil aos Estados Unidos?

sexta-feira, 6 de novembro de 2009 18:28:00 BRST  
Anonymous Ribas disse...

Alon eu nunca pensei que o desfecho pudesse ser este, o que estou tentando mostrar é que o jogo parece que ainda não terminou. A verdade é que costumo valorizar tuas análises políticas, e falo sério quando digo isto. Assim, não te parece que o trabalho da diplomacia americana pode parecer incompleto, já que o golpe continua caracterizado!?

sábado, 7 de novembro de 2009 18:50:00 BRST  
Anonymous Roberto Baginski disse...

Sinto muito, Alon, mas parece que você apitou o fim do jogo em Honduras já aos 30 minutos do segundo tempo. Isso é que é vontade de fazer a realidade se curvar à análise!

Como você deve ter notado, o impasse hondurenho continua lá, para quem quiser ver. Ou não?

Saudações,
Roberto Baginski

domingo, 15 de novembro de 2009 10:17:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Sim, Roberto, o impasse continua, mas a posição de Zelaya nunca esteve tão enfraquecida.

domingo, 15 de novembro de 2009 11:25:00 BRST  
Anonymous Roberto Baginski disse...

Concordo, Alon.

Vão acabar tendo de encontrar um jeito de fazer as eleições hondurenhas serem internacionalmente "aceitáveis" mesmo sem a volta de Zelaya à presidência. Por outro lado, fica difícil aceitar as eleições hondurenhas com o golpista Micheletti na presidência.

A solução poderia ser empossar, sob os auspícios da "comunidade internacional," um tertius que não fosse umbilicalmente ligado aos golpistas mas que fosse aceitável para a turma do Micheletti (Zelaya jamais o aceitaria; o resto do mundo o ignoraria em nome da "união nacional").

O tertius presidiria as eleições, anistiaria Zelaya e Micheletti e entregaria a presidência a quem quer que fosse eleito (Zelaya e Micheletti não poderiam concorrer, obviamente).

Saudações,
Roberto

segunda-feira, 16 de novembro de 2009 16:51:00 BRST  

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