domingo, 25 de outubro de 2009

Deu bom-dia ao cavalo e caiu dele (25/10)

Lula é o nadador que não pode parar de nadar, o ciclista que não pode parar de pedalar, o equilibrista que se desloca de uma vareta a outra para não deixar o prato cair. Ele não pode parar de falar

Diz o ditado que quem fala demais acaba dando bom-dia a cavalo. Mas como saber se a pessoa fala demais? É subjetivo. Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, fala dia sim outro também, às vezes mais de uma vez por dia. Trata-se de uma estratégia. Lula explora ao máximo sua aptidão para comunicar. Ronald Reagan fez assim nos oito anos na Casa Branca. Reelegeu-se e elegeu o sucessor. Foi o único presidente americano a conseguir a façanha no pós-guerra.

Lula fala muito também porque o governo é ele. O presidente é o principal ativo da administração. O governo é bem avaliado, e Lula é o mais prestigiado líder político-popular da História do Brasil. Mas em nenhuma área os resultados são excepcionais. Dois itens sempre centrais nas preocupações da população patinam: saúde e segurança. Depois da Copa e da Olimpíada, concorremos agora ao topo do ranking mundial nas mortes pela gripe suína (A H1N1). Já a violência urbana dispensa comentários. Os fatos recentes falam por si.

E a economia? Ela ia razoavelmente bem até o tsunami mundial das finanças e espera-se que vá bem em 2010. “Bem” pelo padrão brasileiro, pois habituamo-nos a pouco. E Lula perdeu na crise uma chance única de atacar o maior problema econômico nativo: o crédito. Mesmo num cenário de risco inflacionário zero. Depois de sete anos, continuamos na pole position do spread, e o capital financeiro reina soberano, recolhendo a parte do leão da renda nacional. A supervalorização do real tampouco foi atacada quando se devia (e se podia, sem ameça nenhuma de inflação). Como resultado, assistimos à perda de rentabilidade nas exportações. O governo tateia aqui e ali, mas os resultados são duvidosos.

Para o campo, Lula no Planalto não significou qualquer mudança no perfil da concentração da propriedade rural. Na cidade, não se ouve falar nem remotamente em reforma urbana. Tem o Minha Casa, Minha Vida, é verdade, mas ainda é uma operação de longo curso — e não se tem certeza de que vai romper com o padrão histórico de jogar os pobres cada vez mais para a periferia dos grandes centros. Na educação, alguém sabe se, depois de sete anos, as nossas crianças estão pelo menos saindo da escola pública sabendo ler e escrever? Ou a fazer contas? Você apostaria nisso?

Então, de onde Lula tira seu imenso capital? Da férrea vontade política de olhar para os pobres. Da capacidade de erguer a autoestima nacional. E da promessa de um futuro radioso, se, é claro, o país mantiver o rumo, concordar em deixar o manche nas mãos do grupo político do presidente da República. É pouco? Não, é muito. Outros tentaram acumular esse patrimônio e não conseguiram. Mas o cenário carrega um inconveniente. Lula precisa estar sempre no palco, atraindo a atenção, falando como o país encontrou, finalmente, o caminho que o transformará numa potência, como achou a estrada para acabar com a pobreza e a desigualdade, etc.

Lula é o nadador que não pode parar de nadar, o ciclista que não pode parar de pedalar, o equilibrista que corre de uma vareta a outra para não deixar o prato cair. Ele não pode se dar ao luxo de parar de falar. Daí que corra o risco permanente de dar bom-dia a cavalo. Um exemplo foi a frase confusa sobre Jesus Cristo e Judas. Eu entendo que o presidente disse o seguinte: no Brasil, não tem como o governante deixar de fazer aliança com adversários, para garantir apoio político. Mas Lula preferiu fazer uma graça. Deu um drible a mais. E caiu do cavalo.

Outro exemplo é o debate sobre as instituições que, segundo o presidente, atravancam os investimentos públicos e o desenvolvimento nacional. Lula diz que ele é superior aos antecessores porque, ao contrário deles, dá prioridade ao investimento público. Mas diz que não consegue investir o tanto que desejaria por causa dos órgãos de fiscalização. Ora, nenhum desses órgãos ou as regras que seguem foram criados no atual governo. Então, se eles atrapalham Lula, atrapalharam também quem veio antes de Lula. Então, talvez as dificuldades dos antecessores para investir não tenham decorrido de “falta de vontade política”, mas de condições objetivas que também afetam Lula.

E daí? Daí que quem fala demais acaba mesmo dando bom-dia a cavalo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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9 Comentários:

Anonymous Leider Lincoln disse...

Eis! Disse tudo...

domingo, 25 de outubro de 2009 09:27:00 BRST  
Anonymous Julio disse...

A má vontade do articulista com o governo Lula também é enorme. Se um jornalista como você não vê avanços na educação no governo Lula, ou você não fez o dever de casa pesquisando, ou é má fé mesmo. Bola fora, meu caro.
Se você preferir, eu listo os ENORMES avanços educacionais neste governo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009 00:06:00 BRST  
Blogger Sarah Mohn disse...

Por favor, Julio, gostaria de ver a lista.
E para mim, o Alon é um dos maiores defensores indiretos do governo Lula. Está sempre prestando assessoria ao presidente por meio dos textos publicados aqui e no Correio.
Acho que você não entendeu as entrelinhas do artigo.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009 15:54:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Julio,

concordo contigo em alguns aspectos. Fiz graduação numa universidade federal durante o governo FHC. Lembro-me que a nossa instituição juntava moedas para conseguir pagar a conta de energia. Tudo era muito difícil e complicado. Porém, logo quando o Lula entrou, as coisas melhoraram muito rapidamente. A verba recebida pela nossa federal triplicou em apenas dois anos. A orientação era nitidamente outra. Não há, acredito eu, como desconsiderar um exemplo como este. É, no mínimo, questionável a afirmação de que a educação está a mesma coisa.
No entanto, não acredito que seja má fé do Alon. Acho que o Alon se enquadra mais num tipo de jornalista esportivo, que demonstra, indiretamente, sua paixão pelo seu time do coração, pegando mais pesado nas críticas contra o mesmo.

Daniel Menezes
Natal/RN

segunda-feira, 26 de outubro de 2009 16:56:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Será que Lula, pessoa inteligente, se inclui naqueles que acreditam piamente nas coisas que ele fala?

Se acredita, é o novo Antonio Conselheiro...

terça-feira, 27 de outubro de 2009 08:24:00 BRST  
Anonymous Douglas O. Tôrres disse...

Mais de 500 anos de desmandos não se resolvem em 8 . "Os Judas" querem sua parte ou pelo menos que não se toque em seus privilegios , assim como a elite ,sem estas concessões ele (Lula) não passria do 1º mandato . Sempre que se criticar ( e deve-s fazelo , a boa critica nos ajudar a fiscalizar) teem-se que dar o devido desconto aos fatos mencionados , as mudanças que muitos querem sera resultado de um galgar de velocidade inferior ao que queremos , mas melhor muito melhor que nenhum.

terça-feira, 27 de outubro de 2009 13:51:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Bom o seu texto. Eu também era a favor de o país ter segurado o câmbio em 2,3. A crise, entretanto, foi mais séria do que eu pensei. Talvez se a opção fosse pelo câmbio em 2,3, o Brasil estivesse patinando. A opção pelo mercado interno não é do meu agrado, pois deixa o país subserviente ao capital externo, mas para a eleição de 2010, eu penso que foi a opção mais acertada.
Mantido o atual ritmo de crescimento o governo estará em boas condições em 2010. Não precisou expandir o crédito que poderia ainda explodir a inflação no ano que vem o que seria ruim para o governo.
Enfim, a reeleição e a possibilidade de fazer o sucessor é o que comanda a política brasileira. Assim não era quando o mandato era de 5 anos. O país saía ganhando.
Quanto a frase sobre Cristo e Judas é preciso informar para quem Lula caiu do cavalo: junto aos professores da USP, junto a elite financeira de São Paulo, junto ao povão religioso nordestino?
Clever Mendes de Oliveira
BH, 29/10/2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 08:40:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Esqueci de dizer no comentário anterior que não dá para manter o câmbio em 2,3 e expandir o crédito. É uma coisa ou outra, ou a expansão pelo mercado interno ou a expansão pelo mercado externo.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 29/10/2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 08:43:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Outro esquecimento: deveria incluir entre os que poderiam achar que Lula caiu do cavalo os políticos aliados de Lula que pensam que Lula se referiu a eles. Em relação a esses eu concordo que a frase foi infeliz. Sei que a relação não esgota nos que foram indicados, mas penso que em relação aos indicados não se sabe qual é a reação e não se pode dizer se a frase foi infeliz ou não.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 29/10/2009

quinta-feira, 29 de outubro de 2009 21:22:00 BRST  

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