sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Dando um jeito na porcaria (30/10)

Esta coluna foi fechada ontem antes do anúncio do acordo em Honduras. Parece ter sobrevivido.

*

Como o personagem “the cleaner” em Pulp Fiction, o filmaço de Quentin Tarantino, na política mundial que verdadeiramente conta os homens de ideias são chamados à cena para dar um jeito na porcaria deixada para trás pelos homens de ação

A regra nas relações internacionais é o cinismo. Especialmente quando países fortes buscam justificar moralmente seus interesses imediatos. Mas movimentos cínicos e dissimulados também são úteis às nações menores, no equilibrismo que praticam para sobreviver em um mundo dominado por outros.

A função dos ideólogos e doutrinários é acessória, subsidiária. Como o genial personagem (“the cleaner”, o limpador) vivido por Harvey Keitel em Pulp Fiction, a obra-prima de Quentin Tarantino. Na política mundial que conta, os homens de ideias são chamados à cena só para dar um jeito na porcaria deixada para trás pelos homens de ação.

O caso de Honduras é emblemático. Vamos recapitular. O presidente constitucional, Manuel Zelaya, ensaiou dar um golpe de estado. Como? Organizando uma consulta ilegal para angariar apoio à convocação de uma Assembleia Constituinte, que por sua vez revogaria a cláusula constitucional impeditiva da reeleição.

Zelaya diz que era só uma inocente “pesquisa de opinião”. Mas pesquisas se fazem por meio de empresas especializadas e gente com prancheta na mão. Não com urnas colocadas em quartéis. Elementar.

Só que o presidente de Honduras errou no cálculo e tomou o que classicamente é o golpe de estado preventivo. Foi capturado em casa pelos militares e posto de pijama para fora do país. Tempos depois voltou clandestinamente, para abrigar-se na embaixada brasileira em Tegucigalpa. Onde está até hoje.

Ao longo destes meses, os dois lados travam uma queda-de-braço. Zelaya tem, em teoria, amplo apoio internacional. Mas a “indivisível” frente mundial zelayista está na verdade dividida. Seus aliados bolivarianos lutam para reinstalá-lo com amplos poderes. Já os Estados Unidos querem recolocar Zelaya na cadeira mas de mentirinha, sem músculos ou hormônios suficientes para retomar o projeto original. O Brasil aceita a saída americana, mas gostaria de salvar as aparências diante de Hugo Chávez.

Se Zelaya tivesse em Honduras um décimo do apoio que vem de fora, já estaria de volta ao poder, dando as cartas e jogando de mão. Aí o primeiro erro brasileiro no caso. Quando houve o golpe, o Itamaraty superestimou a força do presidente hondurenho e subestimou os adversários dele. Na diplomacia, como na guerra, tomar decisões sem inteligência (informação) adequada é caminho certo para enrolar-se. E se você não tem informação, aja com cautela.

O Brasil enrolou-se em Honduras. Retirou de lá o embaixador, num gesto tão grandiloquente quanto inútil. E envolveu-se num bate-boca vazio com os golpistas. Como resultado prático, enquanto os Estados Unidos comandam o processo político local em busca de soluções, restou a nós oferecer hospedagem ao mandatário deposto. No que aliás fazemos bem. Melhor ser coadjuvante do que nada.

Feita a porcaria, agora aparecem os explicadores, “the cleaners”. Teoricamente, nossa posição “rígida” em Honduras decorre de firmes convicções democráticas, da repulsa a soluções autoritárias. Exigimos inclusive que os Estados Unidos promovam um bloqueio econômico àquele país. Ao mesmo tempo que pedimos o fim do bloqueio americano a Cuba, em nome da soberania que cada nação deve ter para conduzir sua política interna.

A posição brasileira sobre Cuba é plenamente defensável à luz da história diplomática do Brasil e dos nossos interesses nacionais. Já em Honduras, o resultado prático colhido até agora é o enfraquecimento da nossa posição relativa. Se Zelaya voltar com tudo, o vencedor terá sido Chávez. Se retornar desidratado ou se tiver que aceitar fora do poder o resultado da eleição marcada para este novembro, o troféu vai para Barack Obama e Hillary Clinton.

Neocons

Como já repisado aqui, os movimentos brasileiros na crise hondurenha servem para cristalizar e legitimar a ideia de que a “comunidade internacional” (as grandes potências) tem o direito de imiscuir-se na economia interna de países que estejam em “déficit democrático”.

Apenas para registro, é o pilar doutrinário central do neoconservadorismo que regeu a orquestra ideológica no governo George W. Bush. Claro que ali a ideia era os Estados Unidos funcionarem como “polícia democrática” do mundo. Mas o conceito é o mesmo. Relativizar a autodeterminação nacional diante da necessidade de expandir a liberdade.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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16 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Bom, para início de conversa eu não acho que a "soberania nacional" esteja lá nos Dez Mandamentos para subsumirmos tudo a ela. Ela nasce em 1648 e acho que a humanidade já experimentou tragédias demais para horrorizar-se mais quando a soberania é atacada do que quando sob a capa da soberania povos são massacrados.
A seguir, sim, o artigo já está ficando velho. É preciso esperar uns meses para ver como a situação ficará em Honduras. Mas todo esse papo do erro brasileiro em Honduras parece, pelo desenrolar dos acontecimentos, que terá que ser matizado frente ao fato óbvio que sem Zelaya na embaixada uma solução negociada estava indo para as cucuías (Zelaya parecia uma barata tonta de tanto avião que pegava, e os golpistas não conseguiam ninguém para conversar) e que, afinal, foi com ele lá que o acerto negociado pelos EUA se tornou possível (até então Obama estava paradão, esperando que tudo se resolvesse por inércia). Todas as trombetas que anunciaram o Armaggedon diplomático do Brasil pelo ocorrido em Tegucigalpa viraram flautas de pã.
João Paulo Rodrigues

sexta-feira, 30 de outubro de 2009 12:20:00 BRST  
Blogger Adriano disse...

"Vamos recapitular. O presidente constitucional, Manoel Zelaya, ensaiou dar um golpe de estado. Como? Organizando uma consulta ilegal para angariar apoio à convocação de uma Assembleia Constituinte, que por sua vez revogaria a cláusula constitucional impeditiva da reeleição."

Como é que é? É ilegal fazer consulta plebiscitária em Honduras???
A consulta era pra saber se o povo de honduras queria uma nova constituição. Se aceitassem, haveria a eleição de uma assembléia constituinte que proporia mudanças na constituição. Isso não é democracia? Se haveria o perigo da reeleição passar nessa constituinte, o que não beneficiaria imediatamente Zelaya, qual o problema?
A meu ver Honduras precisa rever mesmo sua constituição. A reeleição é um detalhe. A paranóia de voces com o "poder" de Chavez está indo longe demais.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009 13:04:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

O Alon, tudo bem que você funcione como uma consciência crítica do PT que você mesmo frequentou bastante, mas, assim, com esse racioncío tortuoso, ficam indefensáveis seus argumentos, é só ver os comentários anteriores...
Ismar Curi

sexta-feira, 30 de outubro de 2009 21:55:00 BRST  
Blogger thiago meia disse...

@jota66: Alon, você realmente acredita que, ao aceitar Zelaya em sua embaixada, apoiar sanções contra um governo golpista, e "brigar" pela restituição do presidente eleito à sua cadeira, o Brasil (ou Celso Amorim e Lula, como preferir) "relativizou a autodeterminação nacional" hondurenha?

Pensando na ditadura militar que se instaurou tempos atrás nas terras tupiniquins, juro que não reclamaria se alguma embaixada recebesse o Jango (permitindo que ele se manifestasse politicamente), muito menos acreditaria que a autonomia política do meu país estaria sendo agredida,muito pelo contrário. O que significava alinhar-se naquela época senão submeter-se?

sexta-feira, 30 de outubro de 2009 22:09:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Você é definitivamente o que existe de melhor na blogosfera!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009 22:11:00 BRST  
Anonymous RB de Mello disse...

A ação da (antes tão decantada) diplomacia brasileira tem sido descobrir uma casca de banana na outra calçada, atravessar a rua para nela escorregar e estatelar-se fragorosamente no chão.
Honduras foi só mais uma.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009 23:00:00 BRST  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Bons comentários. O debate continuará.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009 23:35:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Análise irretocável Alon. Muitos de seus leitores que defendem a política externa do Brasil cometem um erro básico que é forçar a barra na comparação entre o que ocorreu em Honduras e o golpe militar de 1964 no Brasil. Não há comparação, são dois momentos políticos totalmente diferentes. Em 1964, o mundo estava em plena Guerra Fria, hoje o mundo mudou. Em Honduras não houve junta militar assumindo o poder, nenhum poder foi fechado e as eleições foram mantidas. A Constituição de Honduras pode ser uma droga, mas tem que ser respeitada. O governo brasileiro continua com a mania de comer na mão do Hugo Chavez e Fidel Castro devido a afinidades ideológicas por parte de alguns membros do governo, por isso passa por esses vexames diplomáticos esporádicos, sendo flagrado em incoerências escabrosas. Ah Alon, se todos os nossos esquerdistas tivessem o seu nível...
Abs!
Fernando José - SP

sábado, 31 de outubro de 2009 10:18:00 BRST  
Anonymous Radical Livre disse...

Eu tenho a impressão que este acordo celebrado agora por você (e pelo O Globo) como 'vitória da diplomacia americana que veio limpar a cagada do itamaraty' não sairia se o Brasil não houvesse abrigado o Zelaya na embaixada.

No mês passado, por esta data, os americanos continuavam divididos internamente entre os que apoiavam o golpe (à direita do pentágono e do departamento do Estado herdada do Bush mais Hillary Clinton) e os que o condenavam - com Obama omitindo-se de uma forma escorregadia sempre que um novo fato acontecia.

De lá para cá, os americanos começaram a se mexer, o campo democrático ganhou força internamente e finalmente o acordo saiu.

Realmente, grande cagada do Itamaraty...

sábado, 31 de outubro de 2009 11:47:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

De todo modo, o que importa, realmente, é que não houve banho de sangue, ao menos até agora. Foi a velha e boa diplomacia que deu um chega para lá em quem torcia por guerra civil e cadáveres. Perderam. E feio. Tomara que tenham aprendido e apreendido que carrancas e discursos furibundos não resolvem nada. Servem apenas para inflar egos. A respeito da Constituição Hondurenha, ela proibe o que Zelaya tentou fazer. Se devem ou não alterá-la depende dos hondurenhos. Ninguém gostaria que alguém viesse a propor o que devemos ou não fazer com a nossa.

Swamoro Songhay

sábado, 31 de outubro de 2009 12:32:00 BRST  
Anonymous Antonio disse...

Alon,

Discordo de você, acho que a diplomacia brasileira se saiu bem de uma situação que poderia ter evoluído de maneira muito pior. É bom lembrar que Zelaya contava com unânime apoio internacional e de boa parte dos hondurenhos. Agora, ninguém nega que o cara é um mala. Ficará mais alguns meses e sairá. Menos mal.

Uma pequena correção: o Itamaraty não tirou o Embaixador de lá não. Ele estava de férias no Brasil e não caberia retorná-lo com um governo que não reconhecemos.

Abraço

sábado, 31 de outubro de 2009 16:01:00 BRST  
Blogger *Amanda* disse...

bom,bom...

sábado, 31 de outubro de 2009 21:31:00 BRST  
Anonymous Too Loose Lautrec disse...

A independência de um país se dá no exercício soberano de sua legislação por suas instituições e cidadãos em seu espaço territorial.
Suponho que esse conceito seja inquestionável.
O desrespeito a legislação local, as instituições e ao território, constitui agressão à soberania e independência de um país, equivalendo assim a ato de guerra.
A mera justificativa de discordância com o regime ou governante eventualmente em exercício em um país, não concede a outro quaisquer direitos intervencionistas, ainda mais quando as instituições do agredido funcionem regularmente, como no caso de Honduras.
Ademais, inexiste registro histórico de invasões, guerras, desrespeitos que não sustentados por entendimento prévio a tornar “justo” o ato a ser cometido. O tour europeu de Hitler, por exemplo, foi sustentado por “sólidas e justas convicções”.
A razão, ao final, pouco tem a ver com o bem ou a ética. Pertence aos militarmente vitoriosos ou assim capazes de vir a ser, se necessário.
Honduras foi violentada pelo Brasil. O Itamaraty inventou uma regra que se espera nunca se volte contra nós.
Ainda bem que nenhum governo americano tenha pensado em fazer o mesmo em Cuba ou em outros lugares. Imaginou a embaixada americana como sede da oposição? O Arthur Virgilio garantido por mísseis não ameaçaria, teria mesmo batido o brim do Lula.
O que fica da experiência é que os americanos mandam no pedaço. Só entraram a valer no assunto quando incomodou sua política interna. E o fizeram deixando claro o fracasso bolivariano e brasileiro, que incapaz de provocar verdadeiro apoio popular, transformou nossa embaixada em prisão para o Zelaya e esse em figura apagada no processo.
Os americanos fizeram a hora e a forma da solução. Tanto fazia onde estivesse Zelaya. Teria sido mais fácil sem a desastrada invasão.

sábado, 31 de outubro de 2009 21:37:00 BRST  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

“Se Zelaya voltar com tudo, o vencedor terá sido Chávez. Se retornar desidratado ou se tiver que aceitar fora do poder o resultado da eleição marcada para este novembro, o troféu vai para Barack Obama e Hillary Clinton.”

Vou na segunda hipótese. Acompanho a cobertura que o jornal La Nación da Costa Rica faz sobre Honduras por razões óbvias.

A volta de Zelaya depende de uma votação no Congresso. O jornal traz esta análise:

A lém da pressão do Shannon ter aumentado bastante, há o fato de Porfirio Lobo, candidato do Partido Nacional, ser atualmente o preferido nas pesquisas de opinião para as eleições de novembro. Ou seja, interessa muito ao PN que o Congresso aprove a restituição de Zelaya e que as eleições não sejam contestadas internacionalmente. Isso explicaria a brusca mudança de posição de Micheletti: ele perdeu a maioria e teve que negociar. Zelaya volta como uma espécie de rainha da Inglaterra.

Dos 128 deputados que compõem o Congresso honurenho, 62 são do Partido Liberal, que é o mesmo de Zelaya e Micheletti. Desses, 21 apóiam o golpista Zelaya. O Partido Nacional tem 55 deputados e o esquerdista Partido de Unificación Democrática tem 5. Os 6 que sobram na conta estariam em outros pequenos partidos.

Então, se somarmos os 55 do PN com os 21 do PL e os 5 PUD, é possível afirmar que o grupo parlamentar que apóia o acordo tem maioria no Congresso (81 deputados) e que a volta de Zelaya é somente questão de tempo.

Resta saber se o Judiciário vai aceitar ficar de fora. Não li até o momento nada sobre qualquer manifestação da magistratura hondurenha a respeito.

http://www.nacion.com/ln_ee/2009/octubre/31/mundo2142606.html

PS: Sobre a sua correta conclusão de que os antípodas na política coincidem na interessada relativização da autodeterminação nacional diante da necessidade de expandir a liberdade (deles, isto é, de cada lado do campo), há um oximoro que é comum às antagônicas ideologias que operam no mundo da política: obrigar a ser livre.

sábado, 31 de outubro de 2009 22:07:00 BRST  
Anonymous walter disse...

Os erros básicos do Alon foram, primeiro dizer que a alteração em uma possível constituinte por fim autorizaria uma reeleição, isto seria contar com os ovos muito antes da galinha nascer. Segundo que o madato de Zelaia terminaria antes da instalação da constituinte, assim mesmo que toda a trama da mudança da constituição desse certo (haja boa vontade), o Zelaia já não seria mais presidente a muito tempo, ou seja toda a construção do discurso que fundamentou o golpe tem premissas falsas. Gosto do Alon, mas nesta matemática ele comeu bola...

sábado, 31 de outubro de 2009 22:26:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Nunca pensei que pudesse ficar feliz ao saber que meu pais vai ou está sendo preocessado em Haia por intromissão em assuntos internos de outro pais.
Lí a matéria e gostei de saber que nosso governo pode ser responsabilizado pelo Affair Zelaya.
A recíproca é verdadeira, eu não gostaria que outro pais se intrometesse em nossos assuntos.
Dai......

segunda-feira, 2 de novembro de 2009 18:31:00 BRST  

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