terça-feira, 13 de outubro de 2009

As variáveis de Obama (13/10)

Eis um detalhe interessante da gestão do norte-americano: no governo, tenta fazer o que dizia na campanha que iria fazer se chegasse ao governo. É uma atitude pouco convencional entre políticos

As pesquisas divergem entre si, mas o fato é que Barack Obama enfrenta dificuldades políticas. Sua popularidade não anda mesmo uma brastemp. A lua de mel pós-eleitoral acabou faz tempo, e ele tem que encarar a realidade. A economia sai muito lentamente da crise, o Afeganistão parece cada vez mais um atoleiro e o viés liberal (palavra que os americanos usam para dizer “esquerdista”) do governo acendeu todos os fogos conservadores no grande país do norte. 



Em compensação, o capital político de Obama junto aos fiéis parece razoavelmente intocado. Nos Estados Unidos e fora dele. Com poucos meses na cadeira, o presidente americano já ganhou o Nobel da Paz. Por mais que haja reclamações na franja radical à esquerda, a figura política de Obama continua ligada aos elementos simbólicos que ele mobilizou na sua campanha liberal para chegar à Casa Branca. 



Eis um detalhe interessante: uma vez no governo, ele tenta fazer o que dizia que iria fazer se chegasse ao governo. Atitude pouco convencional entre políticos. Normal é o sujeito mobilizar sentimentos quentes antes da eleição e depois fazer uma administração morna, em nome do pragmatismo e da governabilidade. No poder, deslocar-se para o centro.

Barack Obama é um presidente eleito pelos urbanos, pelos instruídos, pelos negros, hispânicos e judeus, pelas mulheres, pelos gays, pelos pacifistas. Pelos ambientalistas. Nomeou uma mulher hispânica para a Suprema Corte, é simpático a medidas contra o aquecimento global e avança na igualdade de direitos para os homossexuais. Na política externa, procura aplicar o princípio da não intervenção. Surpresas? Nenhuma. 



Mas aonde esse comportamento levará o presidente americano? Ou, em outros termos, quanto tempo ele resistirá à pressão centrípeta do establishment? 



Vai depender dos resultados. No Afeganistão, seu abacaxi mais áspero, o presidente está espremido entre duas opções. Uma é apostar no isolamento da Al Qaeda e em algum compromisso com o Talibã. É a saída defendida pelo vice-presidente, Joe Biden. A cúpula militar é contra, prefere aumentar o esforço em homens e armas para derrotar o Talibã. Obama disse na campanha que faria tudo para ganhar a guerra. Seu poder terá grande dificuldade de conviver com uma possível percepção pública de derrota.

Já na economia a equação parece mais simples. Uma hora os Estados Unidos vão voltar a se expandir bem, e é provável que Obama enfrente a campanha reeleitoral em posição confortável no quesito. Os chineses fazem a parte deles, dando seu jeito de crescer 8% este ano e projetando um belo 2010. E o resto do mundo vai atrás. Uns mais rapidamente. Outros como o Brasil, constrangido pelos problemas estruturais no crédito, mais lentamente. Mas o pior parece mesmo já ter passado.

Com as coisas entrando nos eixos na economia, e se Obama conseguir salvar a face no Afeganistão, restará a reforma da Saúde. O governo democrata deseja avançar na universalização, enquanto os republicanos atacam o plano como “socializante”. Se fosse no Brasil, a acusação renderia votos, mas nos Estados Unidos tira. Pelo menos mais tira do que dá. Este ponto acabou virando uma disputa puramente política. Se não conseguir passar uma nova lei sobre o tema no Congresso, no qual tem ampla maioria, Obama terá transmitido uma imagem de fraqueza. 



Afeganistão, economia, reforma da saúde. Guerras que Obama precisa ganhar. Presidentes americanos fracos costumam ter muito prestígio fora dos Estados Unidos. Mas quem vota são os americanos. Se Obama chegar a 2012 politicamente enfraquecido, nem toda a simpatia mundial será suficiente para tirá-lo da zona de risco político. 



Discretos

A participação de Cuba na crise hondurenha vem sendo bem mais discreta do que, por exemplo, a do Brasil ou da Venezuela. O governo de Raul Castro está em outra. Aposta as fichas na normalização das relações com os Estados Unidos e, também por isso, não chega a ser fã de carteirinha do movimento bolivariano liderado por Hugo Chávez. 



O obstáculo maior é que Washington terá imensa dificuldade para vender internamente qualquer acordo que não implique a plenitude das liberdades democráticas em Cuba, com a possibilidade de alternância de poder na ilha. Coisa de que o Partido Comunista não quer nem ouvir falar.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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