domingo, 18 de outubro de 2009

A arrogância e o bumerangue (18/10)

As ameaças à democracia decorrem menos da índole dos atores políticos e mais do desequilíbrio das forças em disputa

A democracia é indispensável para haver alternância no poder. Ou pelo menos para torná-la possível. Ou pelo menos para que aconteça sem rupturas graves da institucionalidade. Mas a alternância é também uma condição preliminar para haver democracia real. Quem veio antes: o ovo ou a galinha? A pergunta não faz sentido. Há todo um sistema, produto da evolução, que faz a galinha nascer do ovo, antes de ela própria botar ovos. Um modelo circular.

A política é um ecossistema. Quando está em equilíbrio, nenhuma espécie adquire, "naturalmente”, protagonismo tal que possa destruir esse equilíbrio. Que é necessariamente dinâmico. E involuntário. Cada elo da cadeia alimenta-se de alguém e serve de comida a outro alguém. Se uma determinada população alcança protagonismo excessivo, o sistema se encarrega de colocar as coisas no lugar. Sem pedir licença.

A democracia está bem de saúde quando se nota algum equilíbrio entre o governo e a oposição. Esta bate e aquele apanha. O poder é um bicho muito forte. Uma fera insaciável. Os governos sempre buscam meios de matar a oposição. E isso depende pouco de que grupo está no manche, ou das intenções autodeclaradas. Em Brasília, o PSDB é um bichinho manso que acusa o PT de querer sufocar a oposição. Já nos estados o PSDB trata mesmo é de governar na paz dos cemitérios. E é bom nisso, reconheça-se.

Governos precisam apanhar. O poder não se autorregula, não faz parte da sua natureza. Ele precisa ser controlado. E é natural que resista a sofrer controles. Luiz Inácio Lula da Silva reclama dia sim outro também do Congresso Nacional, do Ministério Público, do Tribunal de Contas, do Judiciário. Mas quem inaugurou a moda de propor, por exemplo, amarras à ação do Ministério Público foi Fernando Henrique Cardoso.

O PT é acusado de querer perpetuar-se no poder. E leva jeito mesmo de desejar. São as ilusões da teoria torta de que um “líder certo” vale mais do que a própria democracia. Mas quem verbalizou primeiro a necessidade de um “projeto” de duas décadas foi o tucano Sérgio Motta, então ministro das Comunicações de FHC. Presidente que aliás implantou a reeleição de ocupantes de cargos no Executivo, a começar pela própria.

Nesta semana, Lula explicitou o desejo de transformar a eleição num plebiscito. FHC fez isso com sucesso duas vezes. A primeira em 1994, quando reorganizou a base política que servira a um Fernando Collor recém-deposto e se lançou como o candidato ideal para “evitar a vitória de Lula e do PT”. Nos bastidores, e nem tão discretamente, além de soprar as brasas do antipetismo, cuidou de convencer o então prefeito paulistano, Paulo Maluf, a desistir de qualquer pretensão presidencial. Maluf na época estava bem. Foi antes da ruína definitiva dele, com Celso Pitta.

Quatro anos depois, os operadores de FHC trataram de esmagar na convenção do PMDB a possível candidatura de Itamar Franco. Episódio protagonizado por personagens que hoje circunstancialmente navegam com Lula. Os arquivos da imprensa estão aí para exibir a qualidade política e simbólica daquele episódio. Não chegou a ser um exemplo de etiqueta, ou da “superioridade civilizatória" que os tucanos gostam de alardear quando lhes convém.

O PT não é mais nem menos moderado no exercício do poder federal do que foi o PSDB. A diferença é que, na oposição, o petismo se dispunha a resistir politicamente, a criar uma alternativa. Não chega a ser novidade que o PSDB tenha abdicado disso. Menos por generosidade, que como vimos não faz parte do seu DNA. Talvez pela aposta, lá atrás, de que o PT se afundaria sozinho. Aposta que como se sabe deu errado. Arrogância intelectual que acabou virando bumerangue.

Patriota

O ministro Flávio Flores da Cunha Bierrenbach, que este colunista conheceu como vereador do então MDB em São Paulo nos tempos complicados do autoritarismo, aposentou-se esta semana no Superior Tribunal Militar. Seu discurso de despedida deveria, acho, ser enviado a todas as escolas do país para servir de roteiro quando um professor precisasse explicar aos alunos na sala de aula o significado de "patriotismo”.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Blogger Cadu Lessa disse...

Perfeito seu texto, Alon. Parabéns pela lucidez.
No meio dessa nossa grande imprensa de hoje (manipuladora e tendenciosa), suas análises são um oásis no meio do deserto.

Abraços e boa noite,
@cadulessa

domingo, 18 de outubro de 2009 02:28:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

Não é apenas a grande impresa que distorce fatos, mas a imprensa de uma forma geral é mais chefe de torcida do que informante do leitor, voce Alon me parece que age como profional neste ramo, sendo portanto quase excessão.
bento

domingo, 18 de outubro de 2009 12:48:00 BRST  
Anonymous Anônimo disse...

A dinâmica da análise é boa por dissecar bem o que ocorre quando um grupo está na oposição ou na situação. Seja pelo que pode ser considerado bom ou pelo que nem sempre pode sê-lo. Contudo, deixa também claro estarmos longe do dia em que a máxima, um erro não justifica outros, seja realmente verdadeira.

Swamoro Songhay

domingo, 18 de outubro de 2009 12:52:00 BRST  
Blogger RICARDO SANTOS disse...

Sempre bravo Alon Feuerwerker!
Eu como cidadão desse Brasil ainda acho que as nossas instituições não são tão sólidas e que nossa democracia ainda não é tão firme.Recentemente li uma entrevista de um ex- presidente e ele disse justamente isso, e ainda, pondera que nos próximos anos, além de cuidar do crescimento e desenvolvimento econômico, teremos que amadurecer o nosso sistema democrático.

domingo, 18 de outubro de 2009 15:22:00 BRST  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, quisera ter comentado antes esse excelente texto. O poder precisa ser limitado de fora, perfeito, institucionalmente. É engraçado acusarem um político de querer se perpetuar no poder, é como querer proibir o político de fazer política. A questão, de fato, é que os políticos ameaçam sempre a conformar as instituições segundo seus interesses imediatos, mudar as regras do jogo em benefício próprio. Isso leva a politização de todas as questões, tudo se resolve no embate das forças em voga e, no limite, no embate das personalidades que lideram essas forças. Você diz bem sobre a falta de programa da oposição, de fato com o sucesso do governo Lula o PSDB foi jogado para a direita, mas não é direita. Avançou alguns pontos da agenda liberal quando esteve no poder, mas sem muito entusiasmo e por pouco tempo. A oposição deveria articular uma reação para recuperar as instituições, a começar pelo congresso (que parece confortável na ignomínia em que se encontra) fazendo a reforma política, e escapando à falsa alternativa entre direita e esquerda.

terça-feira, 20 de outubro de 2009 11:45:00 BRST  

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