segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A alucinação e a obsessão (12/10)

O que Lula deseja mesmo é uma marca histórica permanente no campo social. É a busca obcecada por um legado que não se desmanche fácil com a passagem do tempo

O governo encontrou um meio para tirar o corpo fora da confusão em torno da fraude no Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio. Pôs para circular uma teoria da conspiração, segundo a qual o vazamento e o escândalo teriam sido armados por gente interessada em prejudicar politicamente Luiz Inácio Lula da Silva e o PT. É uma teoria e tanto.

Esse meu lide pode ser criticado? Pode, e o governo tem os meios para mostrar que estou errado, que ele é vítima e não algoz no caso do Enem. Quando o presidente da República diz algo assim grave espera-se que as palavras sejam seguidas por atos. Então, de duas uma: ou o Palácio do Planalto prova que houve mesmo a tal conspiração, ou então concluiremos que alucinações pretenderam servir de biombo para a simples incompetência.

Incompetência movida a ambição, a que faltou a necessária prudência. Ambição sem prudência é um perigo. Qual a necessidade de fazer as coisas no atropelo? Só mesmo o desejo político dos personagens envolvidos, para quem 2010 poderia ser tarde demais para retirar da iniciativa o máximo de dividendos eleitorais. No fim, deu tudo errado. Como gosta de dizer o próprio Lula, mais uma vez a pressa acabou sendo inimiga da perfeição.

Mas, se a trapalhada do Enem foi um gol contra, o Planalto prepara na área social um passo importante à frente. Consolidar os programas sociais (todos, não apenas os de Lula) num código legal, a exemplo do que a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) fez com os direitos trabalhistas, no governo Getúlio Vargas. O presidente responde com isso a uma das principais críticas a ele: de que não teria se preocupado em institucionalizar avanços, especialmente nas políticas voltadas aos mais pobres.

Não que haja preocupação real com a eventual revogação das ações numa possível troca de guarda em Brasília. Essa é outra conversa que deve ser debitada unicamente na conta da eleição. O Estado repassar dinheiro aos pobres, direta ou indiretamente, pelos mais variados meios, virou dogma de administração pública no Brasil.

O que Lula deseja mesmo é uma marca histórica permanente no campo social. É a busca obcecada por um legado que não se desmanche fácil com a passagem do tempo, busca que é um traço estrutural nas atitudes do presidente da República nos últimos tempos.

Não tivesse o governo qualidades, não teria a aprovação medida em todas as pesquisas. Só que um dos principais ativos políticos de Lula é a figura dele próprio. Eis uma curiosidade: como o governo Lula será avaliado quando o presidente não mais tiver as câmeras e microfones à disposição para o autoelogio? Não estranha que ele esteja empenhado em adiar ao máximo a chegada do futuro. Mesmo quando faz isso indiretamente. Como na eleição que vem aí.

Ginástica

O Brasil está para receber o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad. A visita deveria ter acontecido no primeiro semestre, mas foi adiada. Oficialmente, por razões ligadas ao processo eleitoral iraniano. Extra-oficialmente, pela inconveniência de Lula ficar internacionalmente associado às posições do presidente persa.

De lá para cá, houve algumas mudanças. As discussões sobre a desnuclearização do Irã conheceram avanços, mas eles foram proporcionais aos retrocessos notados no cenário interno em Teerã. O capítulo mais recente é a pena de morte para participantes dos protestos contra o resultado das últimas eleições presidenciais.

Na teoria, o Brasil relaciona-se com o Irã sem se meter nos assuntos internos daquele país. Como já se repisou aqui à exaustão, é um princípio que a diplomacia brasileira aplica quando acredita que lhe convém. Em Honduras não convém, então o Itamaraty não aplica.

Se o cinismo em política externa é indicador de capacidade protagônica, não há dúvida de que Lula nos conduziu mesmo a um outro patamar.

Desconforto

No governo há quem deseje Henrique Meirelles como vice de Dilma Rousseff, mas há também quem tema o debate na eleição sobre os juros. Sempre se poderá dizer que no governo de Fernando Henrique Cardoso os juros eram maiores ainda, mas existe desconforto no situacionismo com a hipótese de a oposição encontrar uma maneira “popular” de entrar no tema

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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3 Comentários:

Anonymous RB de Mello disse...

Se o PMDB efetivamente se coligar ao PT o vice de Dilma não será ninguém, no poder, capaz de dar uma banana às demais lideranças.
Os compromissos prévios de real partilha do caixa constituirão a maior obra de engenharia política a ser construída naquele Partido.
Para piorar as coisas fatos da vida, infelizmente, levam a considerar tal vice-presidência com chances não eventuais de vir a assumir a presidência.
Ou seja: em tal decisão, sendo para ganhar, nenhuma chance será dada ao pitaco do Lula e muito menos serão admitidos cristão-novos no elenco.
O destino de Meirelles será Goiás e olhe lá. A menos que seja para perder.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009 11:00:00 BRT  
Blogger Marcos Diniz Ribeiro disse...

Eu sugiro que você escreva um post, que será necessariamente longo, mostrando por que o governo Lula é melhor que o FHC.

Não se trata de provocação. Eu gostaria de ler um poste seu sobre o assunto a seguir. Tenho a opinião que o governo Lula atual só é possível porque antes houve um governo FHC. Lula herdou o mix macroeconômico (metas de inflação, superávit primário) e resolveu levá-lo adiante contra tudo o que tinha dito antes. Lula pôde aumentar as despesas em custeio porque as condições econômicas lhe eram muito mais favoráveis que durante o governo FHC, que passou os últimos quatro anos fazendo de tudo para criar controles ao gasto público. A contribuição dos servidores públicos para a seguridade social teve o mérito de criar uma equação pela qual só se conferem aumentos ao funcionalismo se já estiverem incluídos na conta os gastos previdenciários. Todos os motivos por que o Brasil saiu da crise rapidamente têm a digital ideológica que Lula combateu por anos a fio.

Ao lembrar do início do governo Lula, vêm à mente toda a trapalhada em torno do Fome Zero, uma quimera abandonada após cerca de um ano. Em seu lugar, apronfundou-se a transferência de recursos públicos diretamente aos que precisam por meio do Bolsa Família - que não é nada além da consolidação de uma política que se iniciou no governo anterior (que, sem dúvida, se apropriou de experiências do próprio PT).

Se não é por conta do governo FHC, trata-se de herança longa da atividade do Estado. Toda a discussão em torno do pré-sal só é possível pelo trabalho contínuo da Petrobrás, e não de um governo qualquer.

Indo além, para mim Lula é apenas uma raposa política.

A aprovação que a população tem a um governo tem de ser ponderada. Eu não tenho dúvida de que a população se vê representada em Lula. Seu índice de aprovação demonstra isso - para o bem ou para o mal. Sem limites, Lua pode falar o que quiser nos palanques, sejam ilações que não comprovará, como a do ENEM, preconceitos dos mais diversos, que, com a simpatia de boa parte da imprensa, não são cobrados como o seriam de um FHC.

Aliando-se a quadros do funcionalismo público com certa identificação com o PT, e com o apoio obtido na boca do caixa com o PMDB, Lula pôde prescindir de seus correligionários diretos no PT. Ele sairá maior que entrou há quase 8 anos, mas o PT sairá menor, bem menor. Não é preciso citar nomes.

E eu vejo a continuidade do, se é possível falar nisso, projeto político do pensamento (espírito) da esquerda na Marina Silva, de quem Lula não quis fazer herdeira porque, dentro vários outros motivos, lhe fazia sombra.

Concluindo: o que é bom no governo Lula o é pelo oportunismo. As condições que teve para governo foram muito favoráveis. Um governo Lula em tempos de crise econômica para valer no Brasil seria desastrosos. Por corolário, o futuro verá no governo Lula um aprofundamento do que foi o governo FHC. Só isso.

terça-feira, 13 de outubro de 2009 14:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Na teoria, o Brasil relaciona-se com o Irã sem se meter nos assuntos internos daquele país. Como já se repisou aqui à exaustão, é um princípio que a diplomacia brasileira aplica quando acredita que lhe convém. Em Honduras não convém, então o Itamaraty não aplica."

parece igualzinho ao que os EUA faz e todo mundo reclama. (com razão).

terça-feira, 13 de outubro de 2009 17:07:00 BRT  

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