terça-feira, 1 de setembro de 2009

Trazendo o futuro a valor presente (01/09)

Trata-se de um método. Desenhar o futuro com cores vivas e belas, e depois trazê-lo a valor presente. Criando assim a ideia (ou ilusão) de que ele, o futuro, já existe

Os bons empresários sabem como é importante, em certas situações, escapar à tentação de fazer um pouco de tudo. Sabem quando é melhor colocar o foco de suas empresas no que, em inglês, é o core business, a atividade principal. Os líderes inteligentes também agem assim, exibindo a face mais eficiente de seus governos, minimizando o que expõe fragilidade. Conforme a máxima daquele célebre ministro da Fazenda, caído em desgraça quando, sem saber que estava sendo captado pelas parabólicas, gabou-se de só mostrar o bom, escondendo sistematicamente o ruim.

O ministro caiu, mas o hábito continua. Quais os dois maiores méritos deste presidente da República? Um é ter enfiado a tacape na cabeça do país que o governo dar dinheiro para o pobre é coisa boa. A vitória definitiva de Luiz Inácio Lula da Silva no quesito está retratada nos jornais do fim de semana. Eles revelam a mudança radical de estratégia da oposição: finalmente, ela diz que vai parar de falar na “necessidade de portas de saída” para os programas sociais. Demorou. Mas antes tarde do que nunca. Êta curva de aprendizado comprida! Quantas qualis foram necessárias, pessoal?

A segunda grande realização de Lula é ter transformado o brasileiro num otimista. O assunto já foi tema da coluna em fevereiro do ano passado: “O otimismo é o grande eleitor”. Em parte por ele próprio, Lula, ser um exemplo admirável de superação e mobilidade social. E em parte por seu governo trazer dia sim outro também um desfile de projetos destinados, mais adiante, a mudar a face do país.

Trata-se de um método. Desenhar o futuro com cores vivas e belas, e depois trazê-lo a valor presente. Criando assim a ideia (ou ilusão) de que ele, o futuro, já existe. Tem um mérito, por não deixar que o porvir flutue só ao sabor da correnteza. E cria também um problema: quando os projetos apresentados por Lula são confrontados com as realizações efetivas, pode haver alguma decepção. Só que aí não será mais um problema do presidente, pois o mandato está no fim e ele sempre poderá se gabar de ter lançado os fundamentos do que virá, de ter sido o arquiteto do Brasil novo. Mas, e a construção? Ora, os engenheiros que se virem.

Ontem foi o pré-sal. Como antes tinha sido o biodiesel. E depois o etanol. A diferença é que o pré-sal de fato tem boas chances de ser um dia o que dele se espera. Se deixarem a Petrobras trabalhar. Até agora, por exemplo, ninguém conseguiu explicar direito a serventia da estatal que o Planalto propõe criar para cuidar dos novos depósitos. Aliás, Lula é mesmo um gênio da prestidigitação. Ataca, com a voz, os adversários políticos, por supostamente estarem contra a Petrobras. Enquanto com as mãos assina o projeto que ajuda na prática a debilitar o monopólio da empresa sobre o petróleo brasileiro.

Não deve haver esperança de que o Congresso Nacional faça um debate decente sobre o tema. PT e PMDB parecem estar de acordo na repartição dos dividendos, inclusive políticos, o que reduz a chance de uma contribuição substancial do mais democrático dos poderes a essa discussão tão importante. Infelizmente. Mais provável é que o governismo tente emplacar suas teses na base do rolo compressor, classificando como “inimigos do Brasil” os que tenham alguma restrição ao produto saído das conversas palacianas, comandadas pela ministra Dilma Rousseff e pelo ministro Edison Lobão.

O que vai restar para o Legislativo? Engalfinhar-se em torno de quanto da receita do novo petróleo irá para os estados e municípios produtores. Estes, especialmente o Rio de Janeiro, terão que atravessar o deserto na Câmara dos Deputados e no Senado, guerreando para evitar que os recursos se diluam por todo o país. Sobrou para o governador Sérgio Cabral.

Ironias da política. Foi o suplente de Cabral no Senado, Paulo Duque (PMDB-RJ), quem comandou o arquivamento das ações contra o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). O que interessava a Lula. Agora, de mãos dadas, Lula e Sarney (por meio de seu aliado Lobão) oferecem as costas às dificuldades políticas de Cabral, cujo patrimônio no Rio assenta-se na parceria com Brasília. Mas Lula sempre pode, se quiser, dar um jeito de ajudar a salvar a face de Cabral, nem que só para aumentar a dívida deste com o príncipe.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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8 Comentários:

Anonymous Alexandre Porto disse...

"Enquanto com as mãos assina o projeto que ajuda na prática a debilitar o monopólio da empresa sobre o petróleo brasileiro."

Alon, leia melhor o projeto, leia o que o presidente da Petrobras tem dito e escrito sobre a Petrosal. Acho sinceramente que por debaixo de uma venda ideológica vc não está entendendo nada.

terça-feira, 1 de setembro de 2009 01:40:00 BRT  
Anonymous Alexandre Porto disse...

Pra vc ter uma idéia:

"Ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo (ANP), criada em 1997, durante o governo Fernando Henrique Cardoso, na esteira da flexibilização do monopólio estatal na exploração do petróleo, o engenheiro John Forman vê na proposta de novo modelo do pré-sal, apresentada ontem pelo governo federal, uma volta exatamente aos tempos do monopólio estatal."

terça-feira, 1 de setembro de 2009 05:27:00 BRT  
Blogger Briguilino disse...

O que Lula está fazendo é garantir monopolio à união. E quanto a " ter enfiado a tacape na cabeça do país que o governo dar dinheiro para o pobre é coisa boa", basta dizer que numa enquete perguntando qual deve ser slogan da campanha da Dilma ano que? Distribuição de Renda é desenvolvimento ta vencendo com mais de 90% dos votos. O outro é: Brasil 5ª potência.
O slogan vencedor no mmento é criação minha, o outro lí que é criação de Lula e/ou marqueteiros profissionais.

terça-feira, 1 de setembro de 2009 07:42:00 BRT  
Anonymous Furtado disse...

Não concordo que o monopólio da Petrobrás tenha sido debilitado. Muito pelo contrário, a empresa será a única operadora dos campos do pré-sal, com participação mínima de 30% em todos eles. Ao que parece, a chamada Petrosal fará a fiscalização e gestão dos contratos de partilha e comercialização do petróleo que será repassado à União. O monopólio da Petrobrás foi ainda mais fortalecido nessa proposta do governo.

terça-feira, 1 de setembro de 2009 08:25:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

A questão fundamental é mesmo o core business. Isto é, por que não deixar a Petrobras na gestão do pré-sal? A Petrobras é a empresa brasileira mais capacitada para tocar o empreendimento, em que pese as interferências políticas do Executivo na sua gestão.

Por que o governo deve enfiar os tais bilhões no pré-sal e em uma nova estatal ou mesmo na Petrobras? Por acaso a Petrobras já não provou que é soberana e grande o suficiente para atuar por conta própria, e no interesse do país e dos acionistas (incluído o Estado), na captação de recursos no mercado internacional? Não seria melhor enfiar esses bilhões em educação, saúde, saneamento básico, pesquisa de C&T? Não é esse o core business (foco) por excelência do Estado? Por que, enfim, desacreditar e, desse modo, frear a autonomia e capacidade da Petrobras em assumir riscos e gerir o negócio do petróleo?

Como sempre, interesses particulares (oligárquicos/patrimonialistas) estão se sobrepondo sobre os interesses gerais do país nessa tentativa de escantear a Petrobras do negócio do pré-sal, criando uma nova estatal.

As mudanças operadas no monopólio pelo governo FHC renderam o “Pudim Petrobras” da nossa quase auto-suficiência. Como dizem os sábios anglo-saxões, a prova do pudim é comer o pudim. A empresa Petrobras já deu os pudins à prova. Tais pudins da auto-suficiência não são bons para o gosto do país? Se sim, o que autoriza supor que os atuais cozinheiros farão pior pudim que os novos propostos pelo Executivo?

Especialistas de fora da empresa e também o pessoal técnico/qualificado da Petrobras parecem não discordar sobre a viabilidade atual do marco regulatório. Parece até que concordam sobre que alguns ajustes no marco regulatório devem ser feitos porque a realidade do pré-sal assim impõe. Ou seja, o debate é técnico.

Aí o Executivo entra mudando o foco e querendo nos convencer que uma nova estatal é necessidade urgente para o Estado. E faz isso com argumentos técnicos? Não. Faz com argumentos marcadamente ideológicos, ou seja, como se o destino do país se confundisse com as intermináveis pendengas entre os "adoradores do mercado" X "adoradores do estatismo/dirigismo do Executivo. Disse Lula em seu discurso, justificando a nova estatal:

“Estamos vivendo hoje um cenário totalmente diferente daquele que existia em 1997 [...]
Naquela época, o mundo vivia um contexto em que os adoradores do mercado estavam em alta...”.

O que a Petrobras e o pré-sal têm a ver com essa parolagem lulesca? A empresa continua estatal e a lei de 1997 não entregou o monopólio ao “deus mercado”. Os americanos têm para esse blá-blá-blá uma ótima expressão: Bullshit.

terça-feira, 1 de setembro de 2009 22:02:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Iria fazer um comentário, e vi que já tem vários. Acho que vale um post sobre: "Até agora... ninguém conseguiu explicar direito a serventia da estatal que o Planalto propõe criar... Ataca..., os adversários..., por ... estarem contra a Petrobras. Enquanto ... ajuda ... a debilitar o monopólio da empresa sobre o petróleo..."

Por que? Como?

Acho que vc colocou muito bem o contraditório sobre o biodiesel/etanol?

Está lançado o desafio sobre a nova estatal...
Abs
Rafael

terça-feira, 1 de setembro de 2009 23:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Quais os dois maiores méritos deste presidente da República? Um é ter enfiado a tacape na cabeça do país que o governo dar dinheiro para o pobre é coisa boa. A vitória definitiva de Luiz Inácio Lula da Silva no quesito está retratada nos jornais do fim de semana. Eles revelam a mudança radical de estratégia da oposição: finalmente, ela diz que vai parar de falar na “necessidade de portas de saída” para os programas sociais. Demorou. Mas antes tarde do que nunca. Êta curva de aprendizado comprida! Quantas qualis foram necessárias, pessoal?"

Bom, se a oposição falou isso, então ela provavelmente abandonou um bom argumento (porque me parece evidente que dar dinheiro e qualificação é melhor do que dar dinheiro, e só) em troca da esperança de dividendos eleitorais, comportamento conhecido pelo seu nome de guerra: demagogia. Que políticos façam isso, principalmente neste quarto mundo intelectual que é o Brasil, ainda se entende. Que analistas políticos aplaudam é que é estranho.

N

quarta-feira, 2 de setembro de 2009 19:58:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

A questão me parece simples:

A nova estatal é 100% brasileira, a Petrobrás não, tem mais de 30% de ações no exterior.

Qual a razão de entregar de mão beijada 30% da riqueza para os estrangeiros, se entregasse a posse do petróleo à Petrobras?

Além disso dando as funções da Petrosal à Petrobras, as ações desta última subiriam muito, como se a empresa tivesse ganho na loteria. O que dificultaria ao governo aumentar participação acionária estatal (o que será feito via aumento de capital).

Dilma nos saiu melhor do que encomenda. Sabe o que faz, enxerga longe, e faz sem sobressaltos (sem as ditas quebras de contrato).

quarta-feira, 2 de setembro de 2009 23:31:00 BRT  

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