sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Quem se candidata? (04/09)

Vamos encontrar energia para dar o salto, para consolidar nossa democracia, com o amplo grau de liberdade que ela nos permite, como a viga mestra do nosso orgulho pelo Brasil?

É impossível não notar o vento político da moda em Brasília: grupos e personagens que chegaram ao poder graças à democracia reclamam cada vez mais dos limites que a democracia coloca ao poder deles. O que antes era bom, agora virou problema. Coisas como a independência do Ministério Público, a existência de tribunais de contas, a liberdade de imprensa, as disputas no Congresso.

Até a internet entrou no rolo, com senadores e deputados quebrando a cabeça para descobrir como controlá-la durante as eleições.

E não pense que a pressão vem só do governo. Ela é pluripartidária. Ou suprapartidária. Tem petistas e tucanos, dos diversos matizes, e os vários satélites. Os políticos estão fartos de serem cobrados, acusados, constrangidos. Aí olham uns para os outros e perguntam: “Ora, mas se estamos todos de acordo quanto a isso, por que vamos continuar dando satisfações aos caras que só pertubam a nossa vida, que só atrapalham, que só nos criam problemas?”.

Circular por Brasília hoje em dia e conversar com alguns próceres, claro que em “off”, leva o sujeito a desconfiar que a consolidação da democracia entre nós não está uma Brastemp. Ao contrário, ela é vista quase como um estorvo, um transtorno com o qual se convive por necessidade. Talvez porque a Constituição assim estabeleça. Ou pela existência e atividade de um Supremo Tribunal Federal atuante e relativamente imune à onda.

Volto à internet, que é o exemplo mais gritante. Durante anos, atores políticos à margem do establishment saudaram a rede mundial como a ferramenta ideal para combater o oligopólio da informação. Agora que do ângulo técnico o objetivo está ao alcance, e agora que todos chegaram ao establishment, a pauta mudou: em vez de democratizar, a atenção se volta para como controlar. Ainda que esse controle possa convenientemente ser apresentado como “democratização”.

Outra moda recente em Brasília, esta boa, é o nacionalismo, objeto de colunas nos últimos dias. Aqui talvez seja o caso de olhar como os países cuidam cada um do seu. Eles dividem-se em dois grandes grupos: as nações em que a democracia é a base da defesa da soberania nacional e as demais, onde por vezes esta é usada como motivo para matar aquela.

Não há uma lei automática. Este mês marca o 70o. Aniversário do início da Segunda Guerra Mundial. Numa estatística, todas as democracias clássicas da Europa continental tiveram sua soberania suprimida pela Alemanha nazista naquela passagem histórica. Antes que a Alemanha fosse finalmente derrotada, com a contribuição decisiva da União Soviética. Tratou-se de uma situação extrema. Como regra, os países que deram certo foram os que fizeram da democracia sólida o alicerce principal de sua afirmação soberana.

Nem a China pode ser considerada exceção. O grande desafio posto ao gigante asiático neste século 21 é a abertura política.

Os que andam ultimamente por Brasília tentando sentir para onde sopram os ventos da moda ficam com esta dúvida, ou preocupação: será que vamos repetir os erros do passado -e de outros países- e subordinar nosso projeto nacional soberano a um único líder, a um único grupo? Ou vamos encontrar energia para dar o salto, para consolidar nossa democracia, e o amplo grau de liberdade que ela nos permite, como a viga mestra do nosso orgulho pelo Brasil?

Essa segunda opção implica concessões, especialmente do poder. Exige visão de longo prazo. Exige renunciar ao papel de salvador da pátria. Quem se candidata?

Conforto

A polêmica em torno do pré-sal fez passar batido o congelamento do juro básico pelo Comitê de Política Monetária. Segundo o Banco Central, não dá para baixar mais a Selic, por causa da poupança. Se é isso mesmo não se sabe. Mas o fato é que Luiz Inácio Lula da Silva não quer mexer na caderneta, e daí por que a turma do BC está confortável, politicamente, na sua opção.

Enquanto isso, os analistas estimam que poderemos crescer até 1% em 2009. Um espanto. Antes da crise, vínhamos a quase 6%. A China, que vinha a 10%, vai fechar 2009 com 8%. Ali não teve recessào.

Férias

Quem fica com vontade de escrever colunas reflexivas, como esta aqui, é porque está na hora de sair de férias. É o que vou fazer. Até outubro.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Marina marina, cara de menina, cara de mãe de muitas meninas...
Menina-mãe para ser mãe da nação precisa cativar as meninas
E também os meninos pequeninos...

Uma lágrima da menina Marina
Pode tornar-se caudal repentino
E conquistar o coração da nação menina

Uma verde flor na mão de uma menina
E a mãe-menina envolta por outras meninas
Em edênico campo verdejante
É a imagem para se queimar na retina

De tantos meninos pequeninos e não pequeninos...

sexta-feira, 4 de setembro de 2009 00:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pena que ao votar, o eleitor não escolha sobre o regime político que gostaria de ter. Não vota por mais ou menos concentração de poder, por mais democracia, por parlamentarismo ou presidencialismo. Muito menos vota para querer que haja ou não a capacidade ilimitada dos govenantes indicarem ocupantes para cargos de confiança. Talvez, ao optar por algum candidato, ao menos imagine que está colocando no voto as suas reais preocupações e querendo-as concretizadas. Efetivamente o voto dele não é impositivo, mas sim, indicativo, sugestivo. Por isso, todos os candidatos falam praticamente a mesma coisa, talvez para atingir a todos, difusamente. Agora no final de um governo e às vésperas de uma nova eleição, não se vislumbra o que foi realmente cumprido em relação ao tanto prometido e muito menos qual projeto para o futuro.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 4 de setembro de 2009 09:29:00 BRT  
Anonymous fscosta disse...

Alon,

Só um parenteses, muita gente boa questiona as estatisticas chinesas, e é fato, que lá não é politicamente sustentavel crescimento abaixo desse nivel.

Mas nao questiono que tudo indica que a China se saiu melhor q os outros paises, mas nunca remova da analise, que lá é uma ditadura.

Isso faz muita diferença.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009 11:06:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, não creio que se possa depositar esperança em um cenário que depende de concessões por parte do poder. O Estado é por natureza despótico, o grande lance do ocidente foi subordiná-lo à sociedade civil, mas essa subordinação depende de um desenvolvimento institucional que não é trivial. A América Latina entrou na história do ocidente por uma porta lateral, e nossos países cresceram a partir de um Estado montado para servir a uma minoria muito reduzida, minoria à qual se encontrava misturada a cúpula da maquina estatal aqui montada. Crescemos, abolimos a escravidão, industrializamos e nosso Estado mantém esse viés oligárquico de origem. O outro lado dessa moeda é um espaço público hostil aos indivíduos, tipo cada um por si e Deus contra todos, daí o homem cordial, daí a necessidade vital de identificar quem são os amigos, daí a incapacidade de interagir com impessoalidade, e o apego fácil ao líder carismático. Hoje somos uma democracia porque, em tempos em que esse sistema está em voga no ocidente (e como você registra em seu post, não é sempre assim) pega mal uma ditadurazinha mais ao nosso feitio, mas a nossa é sempre uma democracia institucionalmente fraca, constantemente atropelada por projetos pessoais de poder. O Senado perdeu toda e qualquer dignidade para preservar no cargo seu presidente, que para isso se aliou ao caudilho de plantão no Planalto. Mas para não sermos confundidos com a oposição, não custa lembrar que a aprovação da reeleição foi outro atropelamento das instituições por projetos pessoais. Mesmo assim, é melhor sempre eleger alguém com ganas de exercer o poder do que alguém mais interessado em rapapés e homenagens, como um príncipe sociólogo que passou por aqui, cujo governo exemplifica bem o que quero dizer. Procure sempre comprar de quem deseja vender. Esse desenvolvimento institucional não virá como concessão do poder e precisaria mobilizar uma sociedade que, gato escaldado, não acredita em mudanças nessa área. Esse é o impasse em que estamos. Eu diria – como faço quase sempre – que a reforma político partidária (que pode ser a defendida pelo PT, cuja formulação é da época em que esse partido estava na oposição) é parte desse desenvolvimento institucional. A dificuldade de sua implementação pelo Congresso é tal que, mesmo José Dirceu, na entrevista que lhe concedeu, se dá ao luxo de defendê-la, ainda que hoje ela fosse prejudicial ao seu partido. A propósito, brilhante a exposição de José Dirceu quanto à artificialidade da fidelidade partidária criada e administrada pelo judiciário, também não cresceremos por imposição dos tribunais superiores. De qualquer maneira, nada se resolverá em sua ausência, combinado? Boas férias.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009 14:15:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

"Férias

Quem fica com vontade de escrever colunas reflexivas, como esta aqui, é porque está na hora de sair de férias. É o que vou fazer. Até outubro."

Tá. Mas o post tráz ótima reflexão sobre as nossas atuais possibilidades, para o bem e para o mal.

Boas férias.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009 21:50:00 BRT  
Blogger reginaldo gadelha disse...

Faça votos para que Deus não consiga aprovar a medida do pre-sal. Boas férias.

sábado, 5 de setembro de 2009 00:16:00 BRT  

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