terça-feira, 4 de agosto de 2009

Válvula de escape para os fatos (04/08)

O PMDB precisa oferecer uma saída para a crise. Mesmo o maior partido do país não tem como manter indefinidamente reféns o Legislativo e o presidente da República

Para um partido de profissionais, o PMDB vem se conduzindo de modo surpreendentemente amador nesta crise do Senado. Pressionado pelas revelações sobre os malfeitos na Casa, o partido reage com uma atitude defensiva, debitando tudo ao ambiente de luta política e ameaçando retaliar contra os adversários. Tem-se a impressão de que o profissionalismo do PMDB esgota-se no operar da pequena política, na interface entre esta e a máquina estatal. Já quando se trata de trabalhar com a opinião pública, aparece o amadorismo.

Talvez o estranho comportamento do PMDB se fundamente num mito: se a opinião pública foi neutralizada na crise de 2005, permitindo a reeleição do presidente da República no ano seguinte, e se a internet limita o poder dos grandes veículos de comunicação, basta agora formar uma maioria aritmética, denunciar os propósitos políticos dos adversários e acenar com retaliações violentas. Será?

Na crise de 2005, Luiz Inácio Lula da Silva sobreviveu, mas pagou um preço. Aceitou que fossem à bandeja quase todas as cabeças coroadas do Partido dos Trabalhadores, companheiros da longa marcha que levou a legenda ao poder. Para que na campanha da reeleição, quando confrontado com as muitas denúncias de corrupção no seu governo, pudesse responder que a diferença sobre os presidentes anteriores era uma só: agora a corrupção estava sendo combatida de verdade. Doesse a quem doesse.

Além do mais, não há como comparar os respectivos cacifes políticos, de Lula e do Senado. Acho que nem o mais fanático defensor de José Sarney discorda disso.

Outro equívoco é imaginar que a emergência da internet enfraquece a opinião pública. É o contrário. Ao dar voz a muito mais gente, a massificação da internet obriga os atores públicos a dialogar permanentemente com a opinião pública. Uma confusão frequente é imaginar que vence esse tipo de batalha na rede quem grita mais, quem coloca mais gente para gritar ou quem ataca mais. Não é assim. Sempre é preciso oferecer uma válvula de escape para os fatos.

Há alguns fatos no Senado. Há atos secretos, às centenas. Atos celebrados e não publicados ao longo de diversos mandatos de presidentes da Casa. A gravidade do assunto foi reconhecida pelo próprio Sarney, quando divulgou a anulação de tais atos. Se bem que a revogação efetiva esteja a tardar, certamente por dificuldades burocráticas e políticas. Atos secretos do poder são graves porque, como já dito antes, deixam o cidadão à mercê dos poderosos, sem possibilidade de defesa. São um atentado à democracia, uma sombra ditatorial a pairar sobre o estado de direito.

O PMDB talvez imagine que a opinião pública aceitará a tese de que os problemas do Senado são administrativos, e que a mesma cúpula que, na melhor das hipóteses, conviveu com os malfeitos por anos deve agora estar encarregada de corrigi-los. Aritmeticamente, isso pode até alcançar (ou manter) o apoio da maioria dos senadores. Mas não tem apoio social. É por isso que o custo de sustentar o status quo no Senado vem sendo lançado no cheque especial de Lula.

Para além de se mostrar coeso em torno do próprio poder, o PMDB precisa oferecer uma saída para a crise. Mesmo o maior partido do país não tem como manter indefinidamente reféns o Legislativo e o presidente da República.

É pouco

A sessão de ontem do Senado foi uma boa medida da temperatura da crise. Com acusações e ameaças. O núcleo duro do situacionismo abriu fogo em plenário contra o senador Pedro Simon (PMDB-RS), que pela enésima vez pedia a renúncia do comandante da Casa. A dúvida é até quando os demais segmentos da base governista estarão alinhados ao PMDB na guerra total, sem quartel. A maioria da bancada do PT não caminha mais com o aliado. No PSB e no PDT, a relação com o peemedebismo está em franca deterioração. Assim, restam o próprio PMDB e o PTB como forças ponderáveis a resistir. Parece pouco. No PMDB há certa consciência da situação. Mas há também a confiança de que o Palácio do Planalto não tem alternativa, a não ser continuar sustentando o grupo dominante no Senado. E segue o jogo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Blogger Leonardo Bernardes disse...

Você não acha que Lula está indo longe demais na defesa de sua base pra 2010? Todos os dias, é disparate atrás de disparate para defender Sarney. Até quando a corda aguenta a tensão?

Difícil escapar das críticas nessas horas.

terça-feira, 4 de agosto de 2009 02:06:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

PMDB disputarão votos conservadores com o PSDB e o DEM, em 2010. A disputa não é apenas governistas X oposição. Eleitoralmente, o PMDB não tinha escolha a não ser reagir, senão caminharia bovinamente para a derrota. E isso não tem nada de amadorismo.

Sarney estava no fundo do poço sozinho.

Primeito ato:
Arrasta as companhias a quem de direito para o fundo do poço junto, enquanto apresenta sua versão da defesa (ainda que não seja boa, qualquer versão meia-boca é melhor do que o fundo do poço).

Segundo ato:
Capitaliza para si, as ações administrativas que a FGV vai propor no Senado (a saída para a crise que você reclama), saindo do fundo do poço.
Depois disso, deixando algum legado para sua prole política, pode negociar até uma renúncia, mas sem sair pela porta dos fundos.

Se Sarney renuncia agora, só tem a perder. E cederá as honrarias das medidas que já estão em curso no Senado para seus algozes.

É como político abdicar de inaugurar uma obra que ele construiu (ainda que não fosse seu plano), para entregar de bandeja ao adversário. Isso não existe.

Quanto à opinião pública, uma sugestão: faça uma leitura dos resultados eleitorais de Alagoas nas eleições municipais de 2008, após o massacre que sofreu Renan Calheiros em 2007, dia sim, outro também, nos Telejornais (que é o mais influente sobre o voto de massa). Aqui tem uma notícia do próprio Correio:

http://www.uai.com.br/UAI/html/sessao_20/2008/10/20/em_noticia_interna,id_sessao=20&id_noticia=84164/em_noticia_interna.shtml

Políticos que conquistam votos de opinião amargam muito com a opinião pública. Mas oligarcas, é bem menos. Veja quantos estão na ativa, mesmo após enfrentar uma sucessão de denúncias. Não é o que eu gosto, mas ainda é assim que funciona.

terça-feira, 4 de agosto de 2009 05:35:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Bela análise Alon, mas cabe ressaltar um detalhe: Pedro Simon também é PMDB. Como o partido liberal de Honduras que congrega golpeado e golpista, ou como o nosso PT que ocupa o governo e distribui o “fogo amigo”, tem o PMDB do bem e o PMDB do mal, que vereia dependendo de quem está a olhar. Depois você diz que a reforma político-partidária não ajudaria a por fim nessa bagunça.

terça-feira, 4 de agosto de 2009 06:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Senador Artur Virgílio.
Era um dos que + combatia , criticava de forma aparentemente indignado este governo corrupto e com este senado comprometido.
No entanto ontem não levantou uma só palavra em defesa de Pedro Simon.
Então era só Blá,Blá, Blá do Senador Artur Virgílio ?
Pergunto: Porque se acovardou Caro senador Artur Virgílio ?
Porque não saiu em defesa de seu colega que tem passado e presente Limpo e tem uma Biografia de verdade ?
Por uma acaso o senhor estar sendo vítima de ameaças por parte dos governistas?
A Oposição não pode se AGAXAR diante das ameaças dos defensores de Sarney.
Na verdade é Mole se for comparar a Biografia e passado entre os defensores de Sarney e os que o querem fora da Casa .
Que Moral tem os presidentes cassados Collor e Renan para desafiar Pedro Simon ?
Nikacio lemos
23 anos
Universitário

terça-feira, 4 de agosto de 2009 08:13:00 BRT  
Anonymous Too Loose Lautrec disse...

Suponho que ao assumir a plena defesa de um desgastado Sarney, dentre os riscos a que se expõe o PMDB “unido”, ao contrário do que pretende, possa existir conseqüente capitalização para si dos desgastes do Legislativo.
Seguido esse tranquito da afronta ao senso ético comum e do confronto armado de baldes com lama, capeado com as imagens de espadachins da estirpe de sarneys, renans, wellingtons e até do redivivo collorido, a “crise” estará todinha no colo do PMDB. Será ele ou dele. E o Partido nacionalmente reconhecido como sob o comando dessas controversas personagens.
Ou seja, nas eleições de 2010 o velho marketing peemedebista da independência dos caciques regionais terá de ser capaz de responder pela coesão partidária na defesa do indefensável. Cada candidato local carregará também o andor de figuras nacionais com os pés e mãos em meio ao barro.
O estrago poderá ser grande caso entenda o eleitorado em cobrar a conta. Assim como, se tiver razão, daqueles que se incorporem ou apóiem essa ação.
É, pois, possível que a estratégia de Lula de se apoiar no PMDB tenha de ser invertida, com conseqüências ainda por ser determinadas. Pode faltar algo essencial nessa forma de composição.

terça-feira, 4 de agosto de 2009 15:25:00 BRT  
Anonymous Vinícius Duarte disse...

O PMDB esta agindo como uma Ditadura dentro da democracia. Faz o que quiser aos olhos de todos e não da à mínima ao que o povo vai pensar. Controla a casa legislativa, impondo sua maioria, e o governo, senão o Estado. O que é mais irônico é que um dia essa legenda foi à maior frente contra o autoritarismo e hoje usa de meios, que sob alguns aspectos, me faz lembrar dele, nem que seja de longe. Assim, não é de se estranhar que um dia, quando lhe foi conveniente, o ilustre e "incomum" senador José Sarney engrossou as fileiras dos governos militares.

terça-feira, 4 de agosto de 2009 22:28:00 BRT  

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