sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Um bom teste para Dilma (14/08)

Resta rezar para que das disputas intestinas no Palácio do Planalto sobre o pré-sal nasça um projeto que não represente a rendição completa dos objetivos nacionais estratégicos aos interesses eleitorais imediatos

No aeroporto de Brasília, a caminho de São Paulo, topei outro dia com um ex-ministro do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Nossos voos estavam ambos atrasados, o que permitiu cerca de uma hora de boa conversa. Com ironia, ele observou: “Lá no começo do governo, o Lula não quis fazer a aliança com o PMDB que o Zé (Dirceu) costurou. Depois, o presidente teve que ceder. Agora, de recuo em recuo, chegamos a um ponto em que o governo e o PT têm grande dificuldade de dizer não quando o PMDB pede alguma coisa. Qualquer coisa”.

Síntese precisa. Vale para a crise no Senado, mas não só. Nos próximos dias deve aterrissar no Congresso Nacional a proposta de criar uma nova estatal apenas para cuidar do pré-sal. Sem que haja ainda uma explicação razoável sobre por que não deixar a coisa toda aos cuidados da Petrobras. O governo diz que faz isso em defesa do controle estatal, pois a Petrobras tem ações em bolsa. Mas diz também que a nova empresa não vai operar os campos, tarefa para a Petrobras. Ou seja, os acionistas privados da velha estatal vão se beneficiar indiretamente.

Então, para que exatamente uma nova estatal, num arcabouço institucional que já tem a empresa criada por Vargas e também a Agência Nacional do Petróleo? É uma dúvida razoável, ainda mais quando o governo se ocupa de difundir que a CPI da Petrobras está aí somente para enfraquecer a empresa. Mas essa contradição entre palavras e atos seria apenas bizarra, caso não trouxesse uma desconfiança sobre o eventual papel da nova estatal como moeda de troca política. Especialmente quando se observa o entusiasmo peemedebista com o projeto, desde o início da discussão.

Será prudente que o Congresso Nacional faça um debate detido sobre o tema. Mas eu não apostaria nisso. Mais provável é que PT e PMDB tentem aprovar o texto governamental a toque de caixa, numa celebração antecipada da coalizão para 2010. Dada a maioria acachapante da aliança governamental na Câmara dos Deputados, resta rezar para que das disputas intestinas no Palácio do Planalto saia um projeto que não represente a rendição completa dos objetivos nacionais estratégicos aos interesses eleitorais imediatos.

O governo tem insistido na necessidade de garantir uma destinação social para os recursos provenientes da extração de combustível do pré-sal. É o caso de ficar de olho e ver se esse “social” não será apenas um biombo, como já aconteceu no passado. Como foi o Fundo “Social” de Emergência, na criação do Plano Real.

Vai ser um bom teste para a ministra Dilma Rousseff. Para sabermos se um eventual governo dela será dela mesmo, ou se ali o PT vai ser só a cereja do bolo num governo do PMDB. Das diversas e felizes alas deste.

Paz precária

Maior reserva de raposas políticas de Brasília, o Senado enrolou-se na crise e agora tenta sair dela como se nada tivesse acontecido, com o PT buscando um jeito de mostrar que não está amarrado aos que dizia combater. Não se sabe quem são os culpados pelos atos secretos, que já batem na casa do milhar. E o mesmo grupo responsável pela administração da Casa na última década e meia promete agora corrigir tudo que há de errado. Da paz construída nessas bases, só se pode dizer uma coisa: ela vai ser precária. Mesmo com uma oposição intimidada.

Talento dos pampas

O desastre político no Rio Grande é um buraco e tanto na estratégia eleitoral do PSDB para 2010. Um rombo, daqueles, na meta de abrir uma bela vantagem sobre o PT no sul do país. A governadora tucana Yeda Crusius e o partido dela sustentam que tudo é uma grande armação, da Polícia Federal e, agora, do Ministério Público.

É a desculpa costumeira de políticos em dificuldades com os fatos. Mas, se a governadora tiver razão e todas as acusações contra ela e companhia bela forem invencionices, talvez seja o caso de descobrir quem é o autor do enredo. Pois a riqueza de detalhes, a coerência da trama, o encadeamento lógico e a verossimilhança fazem crer que estamos diante de um gênio da dramaturgia. Um fenômeno da criação literária. Quem será esse talento oculto dos pampas?

Descubram-no, para glória da cultura nacional.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, um dos problemas do controle estatal de atividades produtivas está justamente em que a qualquer momento há sempre um governo particular a comandar o Estado. Você enxerga o interesse do PMDB em mais um cabide de emprego, mas há também o interesse da máquina pública envolvida. O eventual diretor indicado pelo PMDB é mais efêmero que o grupo que irá montar e se instalar na alta burocracia da Estatal. Eu seria favorável à privatização da Petrobrás, incumbindo-se a ANP, nesse caso agindo efetivamente como agência, a administração dos contratos (firmados pelo estado e não pela agência) de concessão da exploração do subsolo, arrecadando a parte do Leão. Seria um bom modelo para a Vale também. Afinal o governo precisa de dinheiro e não de óleo, né não? (E, a propósito, não custa lembrar, dinheiro não é carimbado, pago a política social com o dinheiro do pré-sal e sobra mais para fazer, por exemplo, agrados salariais na véspera da eleição). Mas uma mão lava a outra, não seria uma boa oportunidade para criar uma burocracia endinheirada “simpática” ao PT na máquina federal? Ou melhor, leal ao atual presidente? Onde você acredita que está sendo redigida a lei que irá criar a nova estatal? No gabinete do atual presidente da Petrobras talvez? O certo, ao final, é que nossa Máquina pública torna-se mais redundante e menos eficiente. O presidente Lula é um monstro? Creio que não, joga o jogo como qualquer outro “cacique” político, e busca criar lealdades na máquina. O coronel moderno não cria suas clientelas apenas em sua região, sintoma de uma democracia fraca, e muito pouco profissional.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009 12:02:00 BRT  
Blogger Adriano disse...

Caro Alon, compartilho de seu receio de que uma nova estatal significa novo aparelhamento e fisiologismo. Mas, no limite, onde vamos chegar com esse argumento? Se nossos mecanismos republicanos de controle do executivo (e do legislativo e judiciario) não estão funcionando, não é a criação de uma nova estatal o problema. Nós é que estamos mal resolvidos.
Agora, olhando pro lado do "business", a criação de uma nova empresa é muito mais interessante do que jogar tudo no colo da Petrobras. O governo poderia fazer IPO da nova empresa num momento oportuno.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009 16:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alberto, se você ainda não escreveu um livro tá hora. Se já dê o nome que eu vou ler. Adriano, IPO para uma nova estatal do petróleo? Quero ver um governo que consiga tal façanha.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009 20:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Um aspecto fica muito claro nessa questão da exploração do pré-sal: não há efetivamente projeto de país ou nação. Caso houvesse, não haveria a discussão sobre a criação de uma nova estrutura para gerenciar o que a Petrobras já faz. E isso tudo sem que ainda tenha começado a surgir o resultado da exploração. Sem resultados já há um fervor. Quando surgir ai é que a história vai começar.

Swamoro Songhay

sábado, 15 de agosto de 2009 12:19:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

Eu não entendo qual o sentido em um regime democrático usar o termo "oposição intimidada", usado nesta nota.

Existe oposição tímida em um regime democrático, mas nunca intimidada.

Oposição "intimidada", na verdade é submissa, não por adesismo, mas por "rabo-preso". Ou seja, não pode fazer a oposição que queria, por cálculo político, porque tem telhado de vidro.

Qualquer tentativa de intimidação de verdade, em regimes democráticos, é prato cheio para qualquer oposição de verdade gritar mais alto contra a própria intimidação, e para isso detem mandatos populares com prerrogativas, tem um poder judiciário para recorrer, tem um Ministério Público independente dos demais poderes.

Oposição que se diz "intimidada", não passa de eufemismo para o popular "rabo-preso".

sábado, 15 de agosto de 2009 14:32:00 BRT  

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