quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Turbulências na relação (27/08)

A conversa recente entre Lula e as cúpulas do PT e do PMDB ficou longe de ser uma Brastemp. Nesse tipo de encontro, tão importante quanto os fatos é como são divulgados pelos interlocutores

Não vai tão bem quanto se imagina a relação do governo com o PMDB. O principal ocupante do Palácio do Planalto anda desconfortável com a reiteração do modo peemedebista de ser. Há mesmo alguma angústia, alguma ansiedade diante da inércia do aliado. Ansiedade e angústia que devem ter piorado depois das manifestações de dois governadores peemedebistas, do Rio de Janeiro e do Espírito Santo, infelizes com as regras que o governo federal imagina para o pré-sal.

A conversa recente entre Lula e as cúpulas do PT e do PMDB ficou longe de ser uma Brastemp. Nesse tipo de encontro, tão importante quanto os fatos é como são divulgados pelos interlocutores. Segundo o PT, a reunião foi ótima, porque avançou na necessidade da aliança para 2010. O PMDB também acha que foi ótima, mas por não ter decidido nada. E segue o baile.

Um ano antes de definir candidaturas e alianças, o quadro está bem menos amarrado do que gostaria Luiz Inácio Lula da Silva. Em entrevista ontem com o senador Wellington Salgado (PMDB-MG) para um canal de televisão, perguntei qual é a probabilidade de o PMDB não fechar formalmente com nenhum candidato a presidente. “95%”, foi a resposta.

Ainda que esteja exagerando, é um sintoma. Verdade que o partido hoje é comandado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer (SP), ele próprio um forte pré-candidato a ocupar a vice na chapa do PT, que deverá ter a ministra Dilma Rousseff na cabeça. Mas os problemas regionais continuam pendentes. Em particular o de Minas Gerais, o que talvez explique parte do que motivou Salgado a dar sua resposta.

Sem acordo no Rio Grande do Sul, em São Paulo, em Minas Gerais, na Bahia e em Pernambuco o cenário começa a ficar nebuloso. Ainda mais se entrar areia nas relações entre Lula e o governador peemedebista do Rio, Sérgio Cabral. Se houver conflito nesses estados entre os dois partidos, como Temer vai chegar à convenção nacional e propor que a legenda engate seu vagão na composição dilmista?

Outra dor de cabeça para o PT, esta inesperada, vem da candidatura Marina Silva, pelo PV. Quando ela apareceu, procuraram reduzi-la a uma postulação “temática”, fechada no cercadinho do ambientalismo. Mas bastaram alguns dias para o discurso mudar. Difunde-se agora a tese de que “o PV não é um partido confiável”, e também que “Marina não tem como defender a passagem dela pelo Ministério do Meio Ambiente”. Se a campanha negativa vai ou não colar, o tempo esclarecerá. Mas não deixa de ser outro sintoma de nervosismo.

Humanistas quando convém

O tema da Anistia tem sido abordado neste espaço, a propósito dos movimentos, dentro e fora do governo, para rever a lei de 1979, ampliada na década seguinte. O pedaço da administração que adota o revisionismo histórico veste-se de roupas humanistas, mas sua posição só pode ser entendida politicamente.

É hediondo e inaceitável submeter alguém a tortura. Também é inaceitável e hediondo o que acontece na Colômbia, onde a guerrilha das Farc mantém inocentes seqüestrados por anos, sem que suas famílias saibam onde e como estão, ou se vão revê-los um dia. É uma forma de tortura, sem dúvida.

Nossos governantes têm manifestado repetidamente apoio a uma solução pacífica e acordada para o conflito naquele país, que incluiria uma anistia ampla à guerrilha.

Não me lembro de ter visto gente do governo Lula defender que a única proposta razoável a fazer às Farc é a rendição incondicional, rumo ao banco dos réus e à cadeia. É isto: o pedaço revisionista do governo deveria vir a público defender a posição de Álvaro Uribe, para quem qualquer anistia aos guerrilheiros atentaria contra os direitos humanos e contra as leis internacionais.

Óbvio que não vai acontecer. Outro argumento dos revisionistas: uma coisa é anistiar quem, lutando contra a ditadura, cometeu crimes políticos hoje considerados hediondos; outra, diferente, é perdoar os funcionários e dirigentes do regime que transgrediram as leis da própria ditadura e cometeram atos que hoje a legislação diz serem hediondos.

Como exemplo de pensamento tortuoso, é sem dúvida singular.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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9 Comentários:

Blogger Briguilino disse...

O melhor para o Brasil é o PMDB não se coligar formalmente com o PT. Assim o vice da Dilma seria Ciro e a o PT se coligaria com PSB, PDT,PCdoB e mais outros partidos da base. Findo a eleição é certeza que a maioria do PMDB corre para se agasalhar debaixo do governo. O que está em jogo na verdade é o tempo de TV que o pmdb tem.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009 08:24:00 BRT  
Anonymous fscosta disse...

Vejo diferente, se há um ano das eleições vc nas negociaçoes com um partido como o PMDB tem problemas serios em 5 de 26 estados, eu diria que "está bem na fita".

Acho que em 2 ele ainda resolve (MS e PA).

Essa estoria do Rio é piada né? Se o Sergio Cabral acha ruim negociar o Pré-Sal com o Lula imagine com um tucano e pior PAULISTA !!! Vc viajou legal nessa. Acho que o Sergio tá fazendo o papel para o qual foi eleito.

O Wellington Salgado está esticando a corda, pq MG (e BA) é o pior dos pesadelos do Lula.

E vc devia levar isso em consideraçao.

Acho que a melhor forma de medir isso é analisar como seu adversario vê a situação. E o PSDB já sentiu o cheiro de queimado, não por acaso o aumento exponencial da agressividade contra o PMDB.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009 10:16:00 BRT  
Anonymous fscosta disse...

@ Briliguinho.

Eu tb acho, mas ai quem diz que ganha a eleição?

Acho que esse é o Plano B do Lula. Levar o PMDB até as vesperas da eleição na sua cola. Se eles, como sempre historicamente fazem, colocarem os pes nas duas canoas.

Ele traz o Ciro (vitaminado por continuar tentando se viabilizar como candidato à presidencia) pra vice e o PMDB pelo menos longe dos tucanos nos estados problematicos e perto do PT no resto.

Depois chamam o Lula de apedeuta.

É pra Sun Tzu nenhum botar defeito.

Fala serio...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009 10:19:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, três pitacos. 1) Com partidos como o PMDB nunca há acordos fechados, a barganha fisiológica está sempre sendo renegociada. Quando vamos superar essa “estilo” de fazer política? 2) Quanto à anistia, cabe reconhecer que aqueles que hoje querem revê-la não participaram de sua negociação. De um lado estavam os militares e de outro a oposição democrática, e tratava-se de encontrar os termos em que os militares aceitariam devolver o poder aos civis. A esquerda armada, que naquele momento já fora completamente derrotada, recebeu a anistia como uma dádiva. Hoje, aboletada no poder, essa esquerda quer reabrir a questão como se a história de lá para cá não tivesse existido, como se esse não tivesse sido um passo importante para reconquistarmos a liberdade política. A propósito, o presidente me parece querer testar a disposição do eleitor de dar de ombros à revisão da anistia. Não apenas concedemos (o executivo) asilo a um terrorista italiano, como o presidente indica uma ex-integrante da esquerda armada para sucedê-lo. Corremos o risco, não saberia dizer com que probabilidade, de paralisarmos nosso progresso político em função de querermos alterar o passado. E 3), permita-me um off topic, a crise da receita que você se referiu à alguns dias atrás: ela mostra um pouco como se conforma a luta pelo poder dentro da máquina pública: ela não precisa estar vinculada à política partidária. Ambos os lados acusam o outro lado de politização e se dizem isentos e republicanos. Enquanto isso a oposição aproveita para fustigar o governo enaltecendo a secretária demissionária sem se dar conta de que fez o mesmo quando essa última desalojou o secretário anterior a ela, o qual, por sua vez tem ligação com o que agora entra. Precisamos parar com essa mania de enxergar no burocrata o especialista isento e abnegado que enfrenta o político malvado. A propósito, o Globo online dá a noticia de um projeto de lei que garantiria ao quadro da Receita a tão desejada autonomia, e que o jornal evidentemente apóia. Em seu post que trata do assunto você vai no ponto, está faltando é chefe e acrescento, disciplina.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009 11:13:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Caro Alberto

A negociação da anistia propriamente dita foi feita por quem estava em posse plena dos direitos. Presos e exilados não tinham como participar diretamente como agentes políticos nessa negociação. No entanto, isso não quer dizer que eles simplesmente foram ignorados. Houve consulta, embora informal. A maioria dos presos e exilados aceitou os termos da anistia. Os beneficiados pela anistia, e hoje muitos com polpudas pensões e indenizações, deveriam ter a coragem de vir a público e dizer em bom português que eles aceitaram sim os termos da anistia.

O recente movimento de revisão é completamente extemporâneo e somente interessa a grupos que acreditam poder de algum modo beneficiar-se politicamente com isso. Começando por um dos cabeças desse movimento, Tarso Genro, que é macaco velhíssimo na política e que só de uns tempos para cá abraçou essa causa.

O melhor a fazer é abrir os arquivos e deixar esse trabalho de revisão do passado aos cuidados dos historiadores.

Remexer judicilamente nesse passado como querem fazer agora não trará benefício nenhum ao país. Ao contrário, isso só trará à tona antigos ressentimentos nos dois lados envolvidos.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009 17:29:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Humanistas quando convém......o retrato da verdade.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009 17:40:00 BRT  
Anonymous JV disse...

...mas eu sou a favor da revisão, desde que os terroristas respondam por seus atos, creio que os torturadores tambem devem pagar. Primeiro uns, depois os outros.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009 23:54:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Paulo Araújo, creio que no atacado – que é o mais importante – estamos de acordo, a revisão da anistia é um retrocesso, certo? Quando disse que a esquerda armada não negociou a anistia concedi-lhes a coerência ao querer revê-la agora, mas quis negar-lhes a legitimidade para fazê-lo. Quem não foi parte no trato, não poderia rever o trato, certo? Claro que foram “favoráveis” à anistia, mas é irrelevante, já que não tinham opção, e quem não tem opção não pode negociar nada. Tiveram sorte (ao contrário das FARCs hoje), pois os militares também precisavam livrar a cara daqueles que atuavam nos “porões”. Serviam de moeda de troca, viabilizando aquele formula de fácil entendimento e implantação (o que não é pouco quando se trata de mediar um conflito aberto), que foi a “anistia ampla, geral e irrestrita”. Concordo que a revisão interessa hoje politicamente a um grupo limitado, o que me preocupa é a aproximação crescente do governo federal com esse grupo. De fato, o apoio dessa esquerda rende militância ao governo, enquanto o eventual apoio majoritário na sociedade (e tenho convicção que essa esquerda não conta com essa maioria) não se manifesta. Ok, abrir os documentos aos historiadores, a partir do momento em que esse assunto for exclusivo dos historiadores. Caro Paulo, não sei se a natureza humana é boa ou má, mas que ela adora se encostar numa teta, isso gosta, né não? Abraço.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009 10:45:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

Governo e legislativo não deveriam se envolver nessa questão. A anistia foi um tratado de paz, e aceito com as virtudes e defeitos conhecidos. Rasgar tratados de paz não é bom negócio para ninguém.

Já quanto a recorrer ao judiciário, vivemos em uma democracia, e qualquer família que se sentiu vítima, tem o direito de recorrer à justiça ao se sentir injustiçada. Cabe à justiça ler a letra da lei da anistia e julgar cada caso.

sábado, 29 de agosto de 2009 23:43:00 BRT  

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