terça-feira, 11 de agosto de 2009

Paz e amor aposentados (11/08)

É possível um governo dar-se bem atuando estrategicamente na ofensiva. Mas isso é menos provável quanto mais democrática é uma sociedade. Na democracia, como no basquete, eficaz mesmo é uma boa defesa

É perceptível a mudança de estilo no presidente da República e entorno. Lulinha paz e amor parece ter-se aposentado. Para garantir o controle do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT), Luiz Inácio Lula da Silva não hesitou em dar uma bicuda nas antes prestigiadas entidades empresariais. Deve ter calculado que o desgaste compensaria o risco político de ver o FAT presidido por um representante da Confederação Nacional da Agricultura, comandada pela senadora Katia Abreu (DEM-TO).

Não se trata de raio em céu azul. Qual foi a última vez em que se ouviu falar do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social? E aquela ideia de transformar o Palácio do Planalto na grande mesa de negociação entre contrários? Deve dormir em alguma gaveta. De tempos para cá, os fatos pendem para o bateu, levou. Coisa de outras eras. É o governo da luta política, que não leva desaforo para casa. E alguns ainda pedem mais belicosidade.

Sempre que possível, tenta resolver as coisas na base da força. E sem disfarçar. Talvez a guinada tenha começado na crise dos cartões corporativos, quando do Planalto vazou um dossiê, uma planilha com informações selecionadas de um banco de dados que o palácio montava com despesas pessoais de Fernando Henrique Cardoso e familiares. Gastos de quando o tucano era presidente da República. Funcionou. A oposição enfiou o rabo entre as pernas e deixou para lá. Depois desse sucesso, a coisa se transformou em regra. Pavlovianamente até.

O governo vem reagindo com a medula —e não com o cérebro— nesta confusão em torno do presidente do Senado. A consequência é que a crise só piora, sem que o situacionismo mostre força para resolvê-la no braço. Para isso, precisaria formar uma maioria sólida em torno de José Sarney (PMDB-AP). Para matar as investigações e administrar a vitória depois. Só que a tática de tratorar os líderes oposicionistas não tem dado o resultado que se esperava. Em termos práticos, vem induzindo à aproximação entre o PT e a oposição, sem que o Planalto mostre capacidade de intervir diretamente, por causa do elevado custo político.

Não chega a haver uma regra universal. É possível um governo dar-se bem atuando estrategicamente na ofensiva. Mas isso é menos provável quanto mais democrática é uma sociedade. Na democracia, como no basquete, eficaz mesmo é uma boa defesa. É eficaz por ser natural. Funciona como um freio, um contrapeso ao poder, produzindo na sociedade uma confortável sensação de equilíbrio. Lula se deu bem no primeiro mandato seguindo a regra. Reelegeu-se. A mudança agora será positiva? Só saberemos depois da eleição do ano que vem.

Me engana que eu gosto

Balança o projeto de Lula de transformar a sucessão num plebiscito. O problema menor são as fraturas regionais no PMDB, do qual o governismo quer somente o tempo de televisão. Transtornos maiores podem vir de outras eventuais candidaturas no campo da esquerda. Do PSB, com Ciro Gomes, e do PV, se Marina Silva completar o passo que ensaia.

Quem observa a alma de Lula desconfia que ele prefere passar o poder à oposição do que entregá-lo a um presidente que possa colocar em risco a hegemonia do PT na esquerda. Ainda mais quando se olha para os estados e se veem as reduzidas chances de o PT empunhar canetas estaduais mais robustas a partir de 2011.

Hipocrisia

Barack Obama notou ontem a hipocrisia da posição de quem sempre pediu aos Estados Unidos que respeitassem a autodeterminação das nações hemisféricas e agora exige que Washington reponha à força o presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya.

À parte a retórica, o cenário regional mostra-se favorável à estratégia americana de fortalecer as relações bilaterais. A ideia de unir a América do Sul enfraquece-se conforme se aprofunda a divisão entre os países que seguem a liderança da Venezuela e os demais. Uma pena.

Coluna (Nas entrelinas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Anonymous Léo Villanova disse...

Caro Alon,

Nada mais me surpreende no governo Lula quando nos deparamos com posturas mais ortodoxas. É apenas a comprovação que âncoras para se segurar em um cargo como o de presidente da nossa República são demonstrações de força e, eventualmente, cinismo. Lula reconheceu que a luta de que tanto falava e para qual sempre nos convocava, também é um Vale-Tudo.

Abraço

Léo Villanova
@LVillanova no twitter.

terça-feira, 11 de agosto de 2009 01:05:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

E quem é que insinuou que "obama reponha a força" a Zelaya no lugar? E precisa de força, Alon, ou basta mudar o embaixador local,
tirar a ambiguidade de o depto de Estado mostrou ate agora.? Concordar que que o petroleo localizado em Honduras pode, sim, ser explorada por qualquer um que Zelaya ache melhor, inclusive a Petrocaribe?
Alon,diga logo que voce tb. acha que o verdadeiro motivo de washington é dissuadir no futuro, outros sul americanos de pender para Caracas(augusto)

terça-feira, 11 de agosto de 2009 09:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

ate certo ponto me admira o pendor evangelico do blogueiro e do comentarista. Evangelico no sentido de gostariam que o presidente - atacado, incompreendido ate o absurdo,vilipendiado diariamente por uma midia que perdeu o pudor, mostre, apresente a outra face...
E dizem ainDA assim opinar por simples razao de eficiencia tática
dessa opçao tão cristã.. né mesmo?
EW ainda, para efeito de argumentaçao, dividiu o comportamento lulista em dois periódos, ante e o pós-, isto é o segundo mandato.Ora, francamente, se o alon sofresse uma parcela disso na pele, seria tao cristao como o presidente tem de forma geral se mostrado?

terça-feira, 11 de agosto de 2009 10:19:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, creio que a intenção de “transformar o Palácio do Planalto na grande mesa de negociação” foi a utopia do Presidente, sua ingenuidade. Uma grande “concertação” promovida pelo Estado, uma utopia de esquerda, uma visão corporativista da sociedade. Não é assim que funciona uma economia de mercado e uma organização política democrático-liberal. A contradição é que a correta administração da economia tornou desnecessária a mesa de negociação. Não creio que o atual clima de beligerância política decorra de opções do governo, mesmo à oposição interessa apenas manter a temperatura alta para desgastar o governo, mas sem ir às ultimas conseqüências, daí pedir a cabeça apenas de Sarney. O jornalão que primeiro jogou lama (digamos assim) no ventilador não deu continuidade com uma campanha virulenta, antes soprou a ferida chamando alguns acadêmicos para lamentarem do baixo nível de nosso parlamento... assim é, fazer o que? Nossa sorte seria que essa crise tomasse ritmo próprio a desembocasse em um grande expurgo de senadores, governistas e de oposição. Serviria para devolver credibilidade ao Senado, seria positivo para o cidadão, não para o governo, nem para a oposição.

terça-feira, 11 de agosto de 2009 17:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Política como a guerra ,não é um pique-nique.Até porque, uma é continuidade da outra. A primeira é mais mortal.A rala memória nacional
mal distuingue quais os interesses que patrocinaram a ascenção de Collor.Os mesmos que elevaram Sarney a Brasilia.Ciro ,para-quedista previsivel nessa fermentação sucessória,tem uma companheira de salto:Marina Silva.
Passada as emoções da novidade,a figura
humana despojada e íntegra,de pregadora do evangelho ambiental,dá lugar ao pragmatismo político e suas incômodas indagações.Possivelmente,como em Alagoas, o Acre perderá uma simbólica e combativa senadora,por uma candidata derrotada à presidência. Pode ser inesperiência,talvez, auto-punição.A verdade é que político sem mandato, é o mesmo que enuco num harém.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009 12:14:00 BRT  

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