quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Para fora do cercadinho (13/08)

É preciso saber o que deseja Marina. Ela quer usar a eleição para fazer propaganda de teses? Ou pretende construir uma alternativa de poder? Se for a segunda opção, a senadora do Acre precisará dar um jeito de achar seu caminho para sair do cercadinho

A eventual candidatura de Marina Silva à Presidência pelo PV vai enfrentar de cara uma dificuldade programática: como tirar o discurso e a militância ambientais do cercadinho, do microcosmo de fiéis falando a si mesmos, prevendo o apocalipse e condenando ao fogo eterno os céticos. A então ministra tentou fazer essa ampliação de horizontes no governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Os resultados foram limitados. O termo era “transversalidade”, a tentativa de introduzir a pauta verde no universo mais amplo das ações governamentais.

Não funcionou a contento, por razões várias. Uma delas, que talvez sintetize as demais: a agenda ambiental no Brasil construiu-se nos últimos tempos como uma federação de vetos. Para toda iniciativa de desenvolvimento, haverá pelo menos uma organização não governamental a afirmar, sem dúvida nenhuma, que aquilo constitui gravíssima ameaça ao meio ambiente. E que portanto não é o caso de fazer. Assim se passa com as hidrelétricas na Amazônia, com a termoeletricidade de origem nuclear, com as hidrovias, com as sementes geneticamente modificadas, etc.

Conversa difícil de emplacar num país cujos maiores desafios são acelerar o desenvolvimento e ocupar efetivamente o território. Dá para fazer isso respeitando 100% a sustentabilidade? É possível (provável) que sim. Só que até agora ninguém disse como. No debate sobre a energia, por exemplo, acena-se com as ditas alternativas, como as provenientes da luz solar e dos ventos. Mas será realista falar em desenvolver o Brasil no ritmo desejado (e necessário) renunciando às demais fontes energéticas?

Outro capítulo é o aquecimento global. Se o fenômeno for mesmo consequência do excesso de civilização, é razoável que a conta seja transferida principalmente a quem já alcançou o patamar superior no quesito. Uma tese bastante difundida diz que o planeta não suportará se o padrão de consumo (emissão de carbono) dos Estados Unidos e da Europa for estendido ao conjunto da humanidade. Tudo bem, mas o que fazer? Reduzir principalmente a emissão dos ricos ou distribuir o sacrifício também pelos pobres, já que em teoria estes serão os maiores prejudicados se nada for feito?

Junto com o Brasil, a China vem recebendo muitas críticas por resistir a metas de emissão de gases causadores do efeito estufa. A posição dos líderes políticos chineses deve ser analisada à luz de um fato. Nenhum governo ali fica na sela se não propiciar um crescimento econômico, sustentado, em torno de 10% ao ano. A necessidade política está também na base das posições dos governos na Europa e nos Estados Unidos, confrontados com uma opinião pública cada vez mais preocupada com a defesa dos ecossistemas.

Trata-se, assim, de uma disputa de poder. E há o risco de a agenda verde radical ser recebida como antinacional nos países do mundo subdesenvolvido. Mais ainda nos Brics, nações que finalmente ameaçam romper a hegemonia do Primeiro Mundo. Não é um xadrez fácil de jogar. É um jogo perigoso, que embute riscos a serem bem explorados em períodos eleitorais.

Se Marina Silva sair mesmo do PT e virar candidata a presidente (ou será presidenta?) pelo PV, e se ela mostrar viabilidade eleitoral, não terá como avançar sem enfrentar esse debate com algum grau de pragmatismo. É preciso saber o que deseja Marina. Ela quer usar a eleição para fazer propaganda de teses? Ou pretende construir uma alternativa de poder, ainda que estrategicamente?

Se for a segunda opção, a senadora do Acre precisará dar um jeito de achar seu caminho para sair do cercadinho.

Questão de lógica

Não havia mesmo como o senador Paulo Duque (PMDB-RJ) aceitar a abertura de processo contra o líder do PSDB depois de mandar arquivar as ações contra o presidente do Senado. Iria para o currículo de José Sarney como um ato de violência política. E Sarney, convenhamos, não está em situação de agregar mais dores de cabeça ao currículo. Resta saber se o arquivamento foi ou não peça de um acordo para empurrar sob o tapete os malfeitos que infernizam a vida do Senado nos últimos meses. A posição do PT no Conselho de Ética vai desfazer o mistério e revelar se a chantagem deu certo.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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4 Comentários:

Anonymous JOEL PALMA disse...

Quem dirige é dirigente, quem preside é presidente...não deriva...simples assim...ah, falar de política, depois da absolvição de Arthur Virgílio? parei por aqui...

quinta-feira, 13 de agosto de 2009 00:29:00 BRT  
Anonymous Joel Neto disse...

A quem interessa dá a Marina Silva a importancia que ela nem tem no que diz respeito a eleição do ano que vem? Responda isso a Alon e lembre o que fizeram com HH em 2006. A historia será repetida. Dilma ganha a eleição fácil, seja quem ou quais forem os adversários.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009 09:08:00 BRT  
Anonymous Too Loose Lautrec disse...

Ainda são parcos os elementos de convicção quanto às intenções da Marina, caso ocorra a saída do PT e a candidatura. É presumível, contudo, até em homenagem a sua inteligência e qualidades, que o viés ambientalista ganhe viabilidade ao incorporar o discurso reformista abandonado de fato pelo PT e desta vez despido da agressividade do PSOL e de sua ex(?)-candidata.
O espaço para a terceira via existe e poderá ser frutífero, se ocupado por alguém sem as características que assemelharam PT e PSDB, assim como Serra e Dilma. O PV, nesse caso, seria amplamente beneficiado e significado o investimento político da Senadora.
De outro lado, é de se perquirir a motivação para a saída da Senadora do PT. Se ocorrer. Não seria reflexo da asfixia decorrente das decisões de Lula, ao abortar e de quadros com história, competência e vida eleitoral conhecida, adotando candidatura sem diferencial a maior do que essas outras e ainda sujeitando o crescimento do Partido à estratégia de cunho político nitidamente pessonalista?
Pelo visto há quem pense diferente. E capaz de reagir. Esperemos.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009 11:09:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

A candidatura de Marina Silva só teria sentido se ela assumisse o controle do PV com poderes suficientes para enquadrar o partido com uma plataforma verdadeiramente de esquerda, e proibir coligações com o PSDB e com o DEM (se quisesse proibir com o PT, que o fizesse também, mas obviamente que o programa partidário e as teses do DEM e PSDB são muito mais distantes de Marina do que as teses do PT).
Teria que ter poderes de expulsar do partido as elites que praticam a ecologia de butique em frente às câmeras, como Zequinha Sarney e Gabeira, mas tem suas campanhas financiadas por latifundiários devastadores da Amazônia.
Do contrário, com o fisiologismo, leque de apoios e práticas que impera no PV, irá repetir um ex-presidente e dizer (nas entrelinhas) para esquecer tudo o que escreveu no passado.

sábado, 15 de agosto de 2009 14:45:00 BRT  

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