quarta-feira, 12 de agosto de 2009

O mapa do tesouro (12/08)

As mudanças no ânimo do eleitor amadurecem silenciosamente, imperceptivelmente. São catalisadas por fatos que, sozinhos, podem não ter maior significado, mas que vão formando uma cena. Eis uma arte do político: saber até onde o bom senso ajuda e quando ele começa a atrapalhar

Sempre que a reforma política entra em pauta, percebe-se uma convergência dos partidos grandes, com o objetivo de fechar a porta aos demais. O oligopólio partidário é vendido como "a" solução para os males da política em geral — e do Congresso Nacional em particular. O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) retomou ontem a ladainha. Pois a atual crise do Senado talvez seja um bom exemplo dos furos nessa teoria. Só comparecem ao noticiário PMDB, PSDB, PT e Democratas. Bingo.

Um risco grande na análise política é aferrar-se ao pensamento convencional, baseado principalmente no bom senso. Diz o bom senso que é melhor haver menos partidos do que mais. Por que exatamente? Ou então, mudando a pergunta, é melhor para quem? Ora bolas, para o consórcio que detém o poder numa certa circunstância. Daí que as propostas de reforma política mais costumeiras entre nós proponham, invariavelmente, reforçar o oligopólio.

Lista fechada, com financiamento exclusivamente público, mais cláusula de barreira e fidelidade partidária estrita. Pronto. O Executivo terá em mãos todos os instrumentos para garrotear ainda mais o Legislativo, bastando que se acerte com os donos das maiores legendas. O que, convenhamos, não é coisa difícil de conseguir com um gordo orçamento na mão.

Mas esta coluna não é sobre reforma política, é sobre o pensamento convencional. Segundo ele, estaríamos condenados, ano que vem, a uma polarização entre o PT e o PSDB. E de fato é grande a probabilidade de isso acontecer. Eis algo que costuma reforçar a tendência ao pensamento convencional: ele sempre permite aproximar o futuro mais provável. Qual é o problema, então? É quando o futuro prega peças.

Leitura obrigatória para quem se aventura pela política recente são os livros de Elio Gaspari sobre a ditadura. Uma passagem imperdível aborda as eleições de 1974 e a surpresa que as urnas pregaram no partido da situação, a Aliança Renovadora Nacional (Arena). A leitura vale especialmente pela descrição dos bastidores do regime no período pré-eleitoral. Mostra como aquele poder sofria do vício da cegueira, incapaz de prever o tsunami de votos que seria destinado ao partido da oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB).

Doença que também acometeu o PMDB (herdeiro do MDB) na reta final do governo Sarney. Quem poderia prever um ano antes que o segundo turno da eleição para presidente em 1989 seria disputado por Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva? Não conheço quem tenha apostado suas fichas nisso, a não ser os dois citados. E olhe lá.

Em geral, as mudanças no ânimo do eleitor amadurecem silenciosamente, imperceptivelmente. São catalisadas por fatos que, sozinhos, podem não ter maior significado, mas que vão formando uma cena. Eis uma arte do político: saber até onde o bom senso ajuda e quando ele começa a atrapalhar. Se Marina Silva e Ciro Gomes estiverem guiados apenas pelo bom senso, preferirão acomodar-se na longa composição armada para levar Dilma Rousseff ao Palácio do Planalto em 2011. Mas o excesso de bom senso poderá eventualmente levá-los a jogar fora a oportunidade de pegar a onda do cansaço com o status quo, já perceptível aqui e ali. Qual será o timing dessa onda? Quem souber a resposta estará com o mapa do tesouro na mão.

Dúvida cruel

O presidente da República diz, com razão, que a política brasileira está habituada a condenar antes de julgar, a trucidar o alvo da vez sem lhe dar o direito de defesa. Que é necessário primeiro investigar para só depois formar juízo.

Só que, infelizmente, a base do governo no Senado acena que pretende encerrar as ações contra o presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP), sem permitir qualquer investigação sobre os atos secretos. De duas uma: ou o governismo senatorial está na contramão do Palácio do Planalto, ou as palavras de Lula estão sob suspeição.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, essa foi na medida. Quando é que o eleitor abandona as opções mais a mão? O grande lance da democracia é que ela não garante o poder a grupo algum, mesmo que esse pareça receber uma avaliação positiva do eleitor. Mas vamos à reforma política: o eleitor se manifesta pontualmente a intervalos dilatados – para presidente a cada quatro anos –, naquele momento seu poder é soberano, está em jogo a chefia do Governo e do Estado, e esse poder deve ser exercido com toda liberdade e informação. Esse é o ponto, como o eleitor nesse meio tempo precisa cuidar da vida, o sistema deve prove-lo com a melhor informação na hora de votar, e os partidos servem para organizar os candidatos ao longo das questões relevantes do país. O sistema partidário deve coagir o político a se definir (e se definir entre um número reduzido e significativo de opções) e dar conseqüência a essa definição ao longo do tempo, até porque o político não é tanto isso ou aquilo, ele é pragmático e muda de idéia se muda a direção do vento. O que me espanta na aliança entre Lula, Collor e Sarney é que comentaristas políticos da grande imprensa se digam escandalizados com o fato. Nosso sistema partidário não traz informação alguma ao eleitor, não dá conseqüência às eventuais opções dos candidatos, não divide as opiniões em torno das questões que são relevantes para o país. É uma dificuldade comum do homem cordial latino-americano: pode me dar uma definição do peronista argentino? Já o democrata americano eu sei que é mais protecionista que o republicano (por exemplo), o que certamente prejudica nossas exportações, percebe a diferença?

quarta-feira, 12 de agosto de 2009 06:32:00 BRT  
Blogger pait disse...

Alon, o motivo para esperarmos uma polarização entre PT e PSDB é que esses dois partidos tem governado o Brasil muito melhor do que qualquer outro desde o tempo do Pedro II. Olhando o dia a dia, as brigas partidárias, e os escândalos, a gente esquece. Mas as coisas estão andando muito melhor com Fernando Henrique, Mario Covas, Serra, e Lula, do que com qualquer outra patota da qual lembramos. O eleitor percebe, e vai querer uma certa continuidade. Um exemplo foi a reeleição do prefeito de S Paulo, que ninguém conhecia, só tinha a virtude de estar administrando bem. Ano que vem o eleitor vai fazer a mesma coisa.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009 07:37:00 BRT  
Blogger Rodrigo disse...

Alon, comentário extremamente pertinente, como sempre. Queria só fazer um adendo ao final. Será que existem condições para investigar o Sarney? Digo isso porque a oposição não se comporta como quem quer investigar, mas exterminar, o que, dentro do jogo político, é a senha para que não exista clima para um mínimo de serenidade.

É mais um reflexo da polarização extrema que tomou conta da política brasileira, especialmente em nível federal. Há cada vez menos espaço para o diálogo franco (espaço este que, na política, já é estreito por natureza), ou mínimamente técnico.

Esse comportamento não é apenas atribuível ao PSDB simplesmente, assim como não deve ser atribuído ao PT quando oposição. Digo isso pois, dada a semelhança no comportamento dos dois partidos, quando fora do poder, fica a impressão que o sistema como está estimula a guerra política, não um mero embate.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009 09:03:00 BRT  
Blogger Guma disse...

A brincadeira é o seguinte: tenho o meu grupo de amigos e você tem o seu. Estamos num barco... Quem vai dirigir o leme? E mais, será que consigo fazer você pular da pracha para os tubarões??? Agora, questão número dois (a de um milhão de dólares): Se o barco está afundando, o que nós (todos) devemos fazer?? Oportunistas natos, o primeiro impulso é pular... Mas, e se os remendos segurarem o barco até uma possível reforma? Então pulamos da prancha por nós mesmo e a brincadeira acabou.

Essa é a brincadeira que acontece no senado e que você comentou tão bem, ainda que "com panos quentes". Resta saber quais dos políticos vão se dar melhor: os que parecem pular fora do barco (como a Marina Silva e o Ciro Gomes); ou os que continuam e se oferecem para ajudar no remendo...

E a sociedade? A sociedade, bem... Só nas eleições para saber... Eu não acredito que os políticos que lá estão vão sofrer muito com essa crise. Quem são os senadores? O que é senado? Cabeças viradas para o homem do leme: o presidente da república. O bacanal vai continuar e também nossas vidas.

Sobre Lula apoiar o Sarney por manobra de palavras, não sei porque usar "das duas uma"... Alguém ainda tem dúvida de quem é o "Lulinha paz e amor"???

Essa discussão foi postada também em www.colosseum2008.ning.com . Entre, participe, discuta.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009 10:44:00 BRT  
Anonymous fscosta disse...

As vezes, de tanto ler jornais, que andam mais descolados da realidade que os ultimos livros de ficção, começando a acreditar em miragens.

Uma delas é do poder de Lula sobre o PT.

A cada dia, percebo que o PT continua não "indomavel".

E o Lula abriu o jogo qdo disse que não consegue controlar os senadores petistas. Bem, pelo menos uma parte deles.

Abçs,

quarta-feira, 12 de agosto de 2009 11:16:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

O cenário atual é bem diferente de 74 e 89.

Nas eleições de 1974, o fator mais importante, foi a influência da campanha pela televisão (que já alcançava a maioria dos lares após o milagre econômico), e a liberdade assegurada aos candidatos criticarem o baixo salário mínimo, a "carestia", a inflação, as filas do INPS, os baixos reajustes dos professores, etc (tanto é, que após isso implantaram a Lei Falcão).

Outros fatores: havia desejo silencioso de mudança e redemocratização, o aparecimento de um eleitorado jovem desejoso de participação e pouco sensível à argumentação dos candidatos da Arena.

Em 1989 o PMDB perdeu feio porque vinha de um estelionato eleitoral: o plano Cruzado, cujo congelamento foi mantido até passar as eleições de 1986. Depois disso o governo Sarney (com ministros fortes do PMDB) passou a ser impopular.

Nenhum destes cenários se apresenta em 2010.

Em 1974 havia demandas reprimidas por liberdades, as críticas no período eleitoral foi um fato novo, que não existem hoje. Diferente de hoje, quando as críticas ao governo são diuturnas e incessantes na imprensa, com clima de CPI e denuncismo 24hs.

É mais fácil o denuncismo chegar com fadiga de material em 2010, do que o governo sofrer essa fadiga.

Em 1989 o governo era muito mal avaliado, o eleitor queria o novo. Hoje o eleitor quer exatamente alguém que continue Lula, uma espécie de terceiro mandato com outra pessoa.
Muita gente que não está ligada ainda pensa que Serra é o candidato de Lula (pesquisas já comprovaram isso). À medida que as campanhas ganharem corpo, na hora que os candidatos se mostrarem como oposição à Lula, aí haverá um baque nas pesquisas dos oposicionistas.

Salvo o PSOL, PSTU, PCB e PCO, ninguém fará discurso por mudanças e sim por "aperfeiçoamento" ou pós-lula (sabe-se lá o que quer dizer isso, lembrando muito a palavra pós-moderno, que cabe quase tudo), mas... a candidata apoiada por Lula irá confrontar projetos, assim como foi feito no segundo turno de 2006.

A oposição se agarra, como tábua de salvação, na desconstrução pessoal, igual fizeram com Ciro Gomes em 2002, e com Marta Suplicy em 2006. Ou sonham com um dossiê, como houve contra Roseane em 2002 e que abateu Mercadante em 2006.

Se a candidatura governista não for ingênua, usará antídotos até as eleições.

Eleição só depois da apuração, mas ainda acho que as probabilidades apontam para a candidata de Lula ter as melhores chances. O Brasil estará crescendo com vigor na economia no ano que vem, o PAC, se tiver com 20, 30 ou 50% pronto terá o que mostrar, e o que tiver andando também conta, pois o povo tolera atrasos, desde que faça. Discursos críticos por não fazer, por gerar apagões funciona, críticas por atrasos conta pouco, estatísticas, do tipo o PAC só andou x% é pura perda tempo.

À medida que a candidata de Lula cresça, o eleitorado de oposição deverá se concentrar na candidatura mais forte de oposição.

Nesse contexto há pouco espaço para terceira via, capturando votos da minoria desiludida ou inconformados, que iriam votar nulo. Mas não sou contra candidaturas alternativas, desde que não sejam linha auxiliar de outra campanha mais forte, pois isso denigre a boa política. Fora isso, todos tem direito a candidatar, e campanhas eleitorais servem também para partidos apresentarem seus projetos à sociedade. Não é apenas para vencer.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009 01:10:00 BRT  

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