quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Ganhando tempo (06/08)

O Senado ganha tempo. Talvez tenha sido essa a principal convergência entre aliados e adversários de Sarney ontem. Hoje, nenhum dos dois lados tem força para liquidar a fatura como desejaria

O Senado consolidou ontem um movimento que vinha amadurecendo nos útimos dias, para encontrar um caminho intermediário que dê vazão à crise em torno do presidente da Casa, José Sarney (PMDB-AP). É a realidade dos fatos, exposta na última terça-feira pelo senador Renato Casagrande (PSB-ES), fatos a que os senadores tiveram que se dobrar. Nem a renúncia forçada, nem a simples morte súbita de todas as representações. Seguir as regras, para tentar sair do buraco.

E a máquina começa a andar. O que é positivo para a democracia. Se eventualmente houver iniciativas para travar definitivamente o Conselho de Ética, o problema voltará a transbordar ao plenário. E a crise retornará ao ponto em que parecia empacada. Só que num nível de maior gravidade. Bem maior. Pois uma válvula de escape terá sido obliterada.

Mas, além de exercícios futurológicos, vale deter-se num aspecto do pronunciamento do presidente Sarney. De novo os atos secretos. Que desde sempre concentram a gravidade do problema, como ovos de serpente que são. O presidente do Senado tomou o cuidado de apresentar uma planilha em que distribui esses atos pelas diversas gestões ao longo dos anos. Procurou com isso mostrar que não é um problema só dele, Sarney.

É fato. O procedimento estende-se pelo tempo. O que entretanto não diminui o tamanho do desafio. Talvez o Senado deva então estender também a investigação, para que tudo se esclareça. Ou, na hipótese realista de não alcançar o pleno esclarecimento, criar condições políticas, constrangedoras, para que não se repita. Neste caso, o arquivamento sumário terá tido audácia demais e prudência de menos, já que o próprio Sarney admitiu ter havido atos secretos nas suas primeiras duas presidências. Mostrou até a planilha em plenário, a projeção de um slide com a admissão do fato!

É esse, parece, o sentido dos julgamentos políticos, ainda que a categoria tenha limites naturalmente mal definidos. Paciência. É como funciona a nossa democracia. Na ausência da convicção de que se fará justiça, o rito acaba funcionando como pena. É possível questionar e mudar isso, mas o interessante é que a vontade de refazer a cultura política provenha sempre de quem está no fogo. Quando o sujeito assume papel de churrasqueiro, a opinião muda radicalmente.

Com o recurso aos rituais, o Senado ganha tempo. Talvez tenha sido essa a principal convergência entre aliados e adversários de Sarney ontem. Hoje, nenhum dos dois lados tem força para liquidar a fatura como desejaria. O torneio de esgrima no Conselho de Ética convém a ambos. O oposicionismo senatorial reagrupou-se em torno do pedido de licença (e não da renúncia) e prepara a batalha no colegiado. Já o situacionismo espera que sua maioria aritmética resista à travessia do deserto.

Na prática, nem mesmo os mais ferrenhos combatentes da situação acreditam que o presidente do Senado resistirá politicamente só com a força do regimento interno e de uma maioria tão partidária quanto precária. Deverá haver algum tipo de acordo no fim do túnel. Nesse meio tempo, fervem os bastidores, com ambos os lados apontando seus canhões. Alguns deles miram convenientemente na reputação dos líderes da oposição.

Há dúvidas sobre o grau de eficácia da tática. O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), não apenas está impedido moral e politicamente de recuar, como dificilmente abrirá mão do lustroso papel de anti-Sarney que o governismo entregou a ele de bandeja. Até porque, se é verdade que o antissarneyzismo não tem hoje os votos para remover o comandante da Câmara Alta, também é fato que o sarneyzismo não tem hoje apoio suficiente para liquidar o mandato do senador do Amazonas. E, convenhamos, o esticar da crise, como é praxe em situações assim, tende a corroer o capital político de José Sarney e abastecer o de seus acusadores.

E o tempo ajuda também os detalhistas. Que certamente se debruçarão sobre o discurso de ontem do presidente do Senado e o esmiuçarão. A peça resistirá? Sem contar a possibilidade de novas representações, diante de novas acusações.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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2 Comentários:

Anonymous Maria disse...

Alon

Realmente perfeita a sua análise, mas quem sofre com isto tudo somos nós gente comum, que votou em alguns dos incomuns, e o pior de tudo ter que ouvir e ver na televisão "senadores" sem voto, que nada faz para melhorar a educação, a saúde, a segurança deste Pais. Porque isto é coisa de gente grande, e nós somos obrigados a aceitar a BOLSA CUMPLICIDADE, que sendo imposta sem o mínimo respeito e consideração ao Brasil e ao Povo Brasileiro.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009 11:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"miram convenientemente na direçao de lideres de oposiçao". Nao entendi o convenientemente, Alon.
O ponto xis, exatamente o nó da razao ou desrazão de tudo isso, se esta na pratica politica e pouco etica de TODOS, pra que e pra guem serve esse teu´convenientemente´ ??

sexta-feira, 7 de agosto de 2009 12:19:00 BRT  

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