domingo, 9 de agosto de 2009

Calculistas e apavorados (09/08)

É intrigante que na CPI da Petrobras o governismo tenha optado fria e calculadamente por uma investigação controlada, enquanto no Conselho de Ética não consegue disfarçar o pavor

Será que na Coréia do Sul ou em Taiwan trocar sopapos em plenário é quebra de decoro parlamentar? Pelas brigas feias que a gente vê ali, é possível que não. Ou então estariam todos cassados. Mas talvez eu esteja errado, pois se todo mundo sai no braço ninguém tem moral para cassar ninguém. Ainda que haja norma proibindo sopapos entre suas excelências. Lembra-lhe algo?

Decoro parlamentar é coisa relativa. Desconfio que existe só para dar base legal a punições políticas. O que é mais grave, o sujeiro xingar o outro no plenário ou levar a família a Paris usando a verba de passagens, teoricamente reservada para atividade política? Eu voto na segunda opção. Mas ninguém propôs arrastar à guilhotina os mandatos da turma que saiu por aí com a parentada, às custas do contribuinte. Ainda bem, pois seria uma carnificina. Mais ou menos como degolar os briguentos em Seul e Taipé.

Se eu pudesse escolher, preferiria um Congresso Nacional com menos salamaleques. E mais controles. É impossível um deputado ou senador entrar no plenário sem gravata. Mas se o sujeito tiver o apoio da maioria ele pode, por exemplo, deixar de divulgar medidas administrativas que talvez pegassem mal. Eu proponho uma inversão. Fica abolida a gravata, e se algum ato não for publicado num certo prazo o presidente e o primeiro-secretário da Casa perdem automaticamente os cargos, além de sofrerem processo de cassação.

Claro que ninguém perderia cargo nenhum, nem seria cassado por isso, pois os comandantes do Legislativo destacariam exércitos de funcionários de confiança para garantir a publicação de seus atos. E não é que eu acabo de chegar a uma proposta prática para o senador José Sarney (PMDB-AP)? Implante essa regra já, presidente, definindo que ato secreto (não publicado num certo prazo) é quebra de decoro. Independente do desfecho desta confusão, estará firmada uma norma para adiante.

E quando disserem que a crise dos atos secretos acabou em pizza, vossa excelência demonstrará que não, pois ela terá servido pelo menos para fechar uma brecha, uma rachadura no estado de direito democrático. Não cansarei de repetir. Ato secreto é um atentado grave à democracia, pois se o cidadão não fica sabendo do que o Estado faz não tem como se defender de eventuais ilegalidades e abusos dos poderosos.

De volta ao decoro. Baixarias no Parlamento são reprováveis. Mas o escandaloso nesta crise em particular é achar que ela vai morrer espontaneamente, só porque os aliados do presidente do Senado têm a maioria no Conselho de Ética e no plenário. Ou porque ameaçam cassar o mandato de líderes da oposição. E se cassarem mesmo? E se calarem a oposição na base da ameaça? E daí? A crise voltará logo adiante, com virulência multiplicada.

O presidente do Conselho de Ética, Paulo Duque (PMDB-RJ), mandou arquivar todas as ações contra Sarney. É um direito que o cargo dá ao senador fluminense. Há porém pelo menos um caso em que as acusações estão documentadas, e que portanto mereceria o exame mais detalhado no colegiado. São precisamente os atos secretos. A documentação foi, aliás, fornecida pelo próprio Sarney, ao projetar em plenário uma tabela com a distribuição deles ao longo dos anos.

Será razoável que o conselho aprecie esse documento, a tabela, que nada tem a ver com "recortes de jornaïs". Poder-se-ia, por exemplo, ouvir o ex-diretor-geral, nem que seja só para ele repetir -mas agora em público- que nunca mandou ninguém deixar de publicar nada. O que traria a necessidade de ouvir também o diretor então responsável pela gráfica, para ele exlicar o porquê da não publicação.

Coisa simples, banal. Tão simples e tão banal que chega a ser intrigante o pavor desencadeado pela mera hipótese de investigar os atos secretos. Num cenário bem mais complexo e arriscado, a CPI da Petrobras, a base do governo vai bem, com o líder Romero Jucá (PMDB-RR) nos controles. Usando a maioria para dizer o que pode e o que não pode ser feito. Jogando o jogo, com as cartas na mão mas sem truculência explícita.

A mesma base, no mesmo Senado e com os mesmos personagens. Mas com dois pesos e duas medidas. Alguém anda nervoso demais, jogando muita água para fora da bacia.

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12 Comentários:

Anonymous http://olhosdosertao.blogspot.com/ disse...

Olá Alon você está ficando muito "bobinho" nesta crise de valores em que se transformou o nosso país. A crise no senado é apenas uma variante desta situação maior.

Os mesmos que acusam Sarney são os mesmos que adulavam até bem pouco tempo atrás.

Sabe Alon, a mídia televisiva pode falar as asneiras que quiser falar porque conhece o seu público, mas você não.

O teu leitor tem mais elementos informativos e você deve ter mais zelo no que escreve.

Saia do paradigma da velha mídia. Ela está com os dias contados (Folha, Globo, Estadão e assemelhados) escrevem mais para o vento do que para pesssoas. Nâo queira ir para o mesmo caminho...

domingo, 9 de agosto de 2009 09:41:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Então me ajude, caro olhosdosertao. Faça e me mande uma lista de coisas que eu deveria relevar sempre que o sujeito for aliado de Lula. Coisas que naturalmente eu deveria condenar se o cara não apoiasse Lula. Olha aí uma ideia. Que tal estabelecer que certos crimes e transgressões valem quando são praticados pelos nossos amigos? Mas fico com uma dúvida: esse "perdão seletivo" valerá tb eventualmente no caso de a oposicão ganhar o governo? Ainda que vc considere a hipótese improvável, eu tenho a obrigação de trabalhar com ela. Vc estará aqui para me acusar de "bobinho" se eu apertar o eventual futuro governo e exigir que ele se mantenha na linha? Ou vc me cobrará que aja com dureza? Vc poderia esclarecer?

domingo, 9 de agosto de 2009 09:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ai, ai, ai! As encruzilhadas sempre me deixam atordoado. Que caminho seguir?? Construir uma sociedade mais ética ou ir pelo caminho do vale-tudo?

domingo, 9 de agosto de 2009 10:07:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, belo texto. Que se trate a crise no Senado com as regras que estão aí, mas me parece fácil explicar a diferença na exaltação dos ânimos entre a crise dos atos secretos e a CPI da Petrobrás. A segunda possui alguns indícios ainda não conclusivos, que exigiriam investigação séria... e esse não é o nosso costume. Eu diria que o governo teme sim a CPI, uma estatal do tamanho da Petrobrás disponibiliza imensos recursos a serem utilizados pelo governo de plantão. Abertamente, como controlar administrativamente seus preços ou incluir/excluir suas contas da apuração fiscal para sobrar recursos na mão do governo, mas também por baixo do pano, em convênios de interesse do ocupante do Planalto por exemplo. Uma tentação e tanto, né não? O Tamanho da reação da empresa à CPI cria inevitável suspeição. Mas creio que a oposição também não deseja ir além da marola que já provocou, afinal também já foi governo, também já controlou o caixa da dita cuja, uma estória que se repete. Já a crise do Senado é uma fratura exposta. A coisa não saiu bem como a oposição tinha ensaiado: a imprensa aliada solta a bomba – um segredo de polichinelo, é baixíssima a probabilidade de que algum senador não soubesse da existência dos atos secretos, inclusive gente como Marina Silva e Heloisa Helena e, conseqüentemente, toda a cúpula da imprensa pátria sabia – e exige em troca exclusivamente a cabeça de Sarney. Não esperavam a reação da tropa de choque e a ameaça de incluir os caciques da oposição na fila da guilhotina. Uma contra reação já se faz sentir: a oposição já tira seus acadêmicos do armário para denunciar o arcaísmo de nossas instituições políticas. Alon, creio que você discorda, mas como já disse em comentário anterior, faço torcida pelo acirramento da crise: empregar o namorado da neta é falta de decoro, mas abastecer o jatinho ou sustentar o aspone estudando no exterior também. Vamos exigir mesmo uma limpa e ver o que é que sobra no Senado.

domingo, 9 de agosto de 2009 10:18:00 BRT  
Anonymous JV disse...

Alon, não vejo nada demais em xingamentos entre parlamentares, sopapos devem ser contidos. O lugar para xingamentos, aliás, é ali dentro.

domingo, 9 de agosto de 2009 10:36:00 BRT  
Blogger Alberto099 disse...

Caro Anômimo das 10:07, e se ambas as opções forem a mesma opção?

domingo, 9 de agosto de 2009 10:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Degolar o Sarney é mesmo humilhante. Não é só pela biografia não. É por fazer de cristo só um dentre tantos pecadores. Geralmente só se faz isso com neófitos impotentes. Eu não gosto de ninguém que faça generosidade privada com o meu dinheiro. Que se corte a cabeça de todos.

domingo, 9 de agosto de 2009 11:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Seus olhos são meio caolhos. Você quer governar sem oposição? Assim fica fácil até criança é capaz. Eu não confio em crianças governando nem em falsos cegos. A oposição está trabalhando em cima de fatos concretos, não em cima de miragens. O governo anterior não sofreu com a oposição da época? Se ela voltar a ser governo que sofra com a nova oposição. Pode ser que a grande mídia tenha interesse. O que você não disse é que os fatos ganharam uma dinâmica própria. Eu não quero saber do mensageiro, eu quero é mensagem.

domingo, 9 de agosto de 2009 13:03:00 BRT  
Anonymous Vinícius Duarte disse...

Pois é. A situação está tão feia que os nobres parlamentares estão tomando atitudes que outrora, ou em países mais sérios, os levariam ao suicídio político imediato. Visto a situação que estamos de total descaso com a opinião pública, é difícil imaginar as barbaridades que devem ser os conteúdos desses atos secretos para que não sejam mostrados, pois se as atuais denúncias escrabosas não os põem medo, o que será que há nesses atos para os deixarem tão temerosos?

domingo, 9 de agosto de 2009 16:16:00 BRT  
Blogger olhosdosertão disse...

Não gosto de dialogar com anônimos, mas vamos lá. O que você diz dom dinâmica própria se resume às denúncias da Folha, Globo, Veja e assemelhados contra o Sarney. Antes esta mesma mídia é que o bajulava. Por que só agora eles resolveram abrir a caixa de pandora do Sarney?

Quero discutir as causas e não os efeitos e não me interessa no momento o espólio político do Sarney que todos conhecem.

Responda-me: o senado ficará melhor sem figura do Sarney?

Artur Virgílio, Heráclito Fortes, Tasso, Efraim Moraes e tantos outros não são do mesmo lote que apodreceu o Senado?

Por que não são denunciados por esta mesma mídia?

O que faz a mídia passar a mão na cabeça detes senadores citados?

Onde está o Marconi Perillo que não aparece?

Se fizerem meia dúzia de investigaçao de Marconi Perillo verão que não se sustenta um dia sequer na presidência.

Para mim, caolho é esta mídia hipócrita e farsante.

domingo, 9 de agosto de 2009 18:55:00 BRT  
Anonymous Alcides Aranha disse...

O olhar do sertão é cego de dar dó.

domingo, 9 de agosto de 2009 22:12:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Muito bom, Alon. O post e o posicionamento. O momento não é para mistificações.

Swamoro Songhay

segunda-feira, 10 de agosto de 2009 10:50:00 BRT  

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