domingo, 16 de agosto de 2009

Administradores da inércia (16/08)

O líder da mudança acaba reduzido ao papel de administrar avanços apenas incrementais, marginais. Conforme o tempo passa, a angústia cresce, pois afinal é preciso “fazer algo”, “deixar uma marca”, enquanto a realidade impõe administrar a inércia

Barack Obama corre o risco de atolar já na largada, no mesmo pântano que travou Bill Clinton: a reforma da Saúde. Obama trabalha para cumprir o programa eleitoral e universalizar o sistema, mas a classe média não quer pagar a conta. Habilmente, os republicanos desengavetaram o sempre à mão fantasma do “socialismo” e Obama parece emparedado. Veremos como ele reage.

Antes de seguir, registro um fato: se aqui o sujeito fica doente e não tem dinheiro suficiente para o tratamento adequado, ele deve agradecer a Deus por estar no Brasil, e não nos Estados Unidos. Adoeça sem dinheiro ali para ver o que é bom para a tosse. Literalmente.

Mas Obama está longe de entregar os pontos e tem procurado mesmo reagir. O The New York Times de sexta-feira traz o esforço do obamismo para mobilizar, agora na reforma da Saúde, os milhões de apoiadores que deram duro para eleger o primeiro negro à Casa Branca. Segundo a reportagem, o resultado é, por enquanto, apenas parcial.

Uma coisa foi tirar as pessoas de casa lá atrás para algo apaixonante e abstrato, a ideia de que, “sim, nós podemos”. Outra bem diferente, muito mais trabalhosa, é entusiasmar agora por assuntos naturalmente áridos. Pedregosos, como são os temas das políticas públicas.

A vida real manda lembranças. Eis um problema habitualmente enfrentado pelos governantes que chegam lá impulsionados por plataformas mudancistas. Quando a eleição acaba, boa parte da energia transformadora se dissipa, enquanto o peso da inércia continua firme. E o líder encontra pela frente estruturas construídas precisamente para resistir.

Da guerra de movimento, o príncipe passa à guerra de posição. Para Obama, ela é até um pouco mais complicada de travar, dado que os partidos americanos são visceralmente eleitorais. Não há propriamente uma militância. A rigor, aqui tampouco. Faz tempo. A não ser para as câmeras.

Lá e cá, como nas demais formações desenvolvidas, democráticas, de sociedade civil complexa, é como se o impulso entrópico, caótico, característico da nossa época, teoricamente progressista, operasse o paradoxo de debilitar o vetor da transformação, dando uma vantagem decisiva à inércia.

Para que tudo continue como está, basta não fazer nada e deixar rolar o Woodstock. Já quem deseja mudar, este precisará reunir a imensa energia social indispensável, num cenário superfragmentado e vocacionado para divergir. Nunca para convergir.

Missão de sísifo. Falei disso dias atrás, quando desenhei o universo das organizações ambientalistas como uma federação de vetos. Não à toa o Partido Verde está em busca de sua refundação.

Assim, se bobear, o líder da mudança acaba reduzido ao papel de administrar avanços apenas incrementais, marginais. Conforme o tempo passa, a angústia cresce, pois afinal é preciso “fazer algo”, “deixar uma marca”, enquanto a realidade impõe administrar a inércia, para não ser completamente paralisado por ela. E isso tem um custo. Ainda que não perceba, o meio transforma você enquanto você peleja duramente para deixar sua marquinha nele.

Eu vi pedaços do discurso de Luiz Inácio Lula da Silva esta semana em Goiás e fiquei com duas impressões. O entusiasmo popular não estava uma Brastemp e o presidente anda mesmo ocupado demais em escrever sua biografia antes de terminar o mandato. Vai ver que é o fantasma da inércia.

Faca paulista

Tempos atrás, o PT ensaiava ameaçar o governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), com uma candidatura própria no estado caso os socialistas não apoiassem Dilma Rousseff. Agora, depois de os principais nomes do petismo estarem bem ajeitados no governo local, e com Campos bem nas pesquisas, fica um pouco mais arriscado para o PT executar a ameaça.

Melhor para Ciro Gomes, que, aliás, surpreendeu em entrevista outro dia ao dizer que o tucano José Serra é um “grande governador”. Como alguém pode ser candidato do PT em São Paulo depois de dizer isso?

Não é por acaso que Marta Suplicy já está afiando a faca.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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11 Comentários:

Blogger Alberto099 disse...

Caro Alon, dentre as políticas publicas a saúde me parece a mais complicada, o truísmo de que não há almoço grátis, aqui é trágico. Você diz que para quem fica doente é uma sorte estar no Brasil porque existe a universalização do serviço público, está na lei mas, de fato, está muito longe de acontecer. A título de exemplo, me ocorre de imediato que a primeira vítima fatal da gripe suína no DF morreu em um hospital privado, depois de ser recusado em vários públicos, morreu, mas não precisaria ter morrido. Aliás, o Brasil parece ser o campeão de mortes em relação ao número de infectados com a gripe suina. O papel não garante tanto assim, seria necessário um mínimo de qualidade no atendimento do SUS, senão é pura enganação, e todos sabem da situação precária desse atendimento. Você diz que a classe média americana não quer pagar a conta (via impostos), e ela de fato a pagará, se Obama conseguir reformar o sistema (nossos irmãos do norte possuem o estranho hábito de discutirem os problemas que de fato os aflige). Aqui a classe média também reclama, mas como o sistema tributário é regressivo, ela não paga toda a sua parte na conta. Mais, como o que há de pior é o atendimento básico, e ela paga esse atendimento na medicina privada, é a classe média que usufrui do pouco serviço com alguma qualidade que a pseudo-universalização oferece. Nós temos a estranha mania de discutir com a hipótese implícita de que somos todos classe média. São as tais idéias fora do lugar.

domingo, 16 de agosto de 2009 09:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A popularidade do Barack Obama estaria ainda mais baixa se não fosse o apoio midiático do The New York Times, CNN e CBS, que são redutos dominados pelo Partido Democrata. Somente a Fox e radialistas populares de direita, como o Rush Limbaugh, fazem críticas públicas ao Obama. O problema é que ele se elegeu como um anti-Bush e hoje virou refém desse modelito. Daí se acaba se turnando pusilânime em várias questões, como por exemplo, sua relação com o chavismo - que tem o apoio dele na questão do golpe em Honduras - e sua aparente reprovação ao golpe constitucional do governo hondurenho, tradicional aliado norte-americano. Isso sem contar os defensores da tese de que ele sequer é cidadão americano. O homem vai ter que rebolar, Alon...
Abs!
Fernando José - SP

domingo, 16 de agosto de 2009 14:29:00 BRT  
Anonymous Maria disse...

Uma coisa é certa, depois que Lula visitou Obama, e ele disse que o Lula era "O CARA", nunca mais Obama foi o mesmo. Que o diga Diego Hipólito, Roberta Carlos de seleção, Ronaldo do Corinthians, Popó, é tomara que ele consiga reverter esse quadro.

domingo, 16 de agosto de 2009 16:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Assim caminha a humanidade até que aconteça uma revolução.
É desconhecer a história querer mundanças mais rápidas. É bem verdade que muitas vezes as mudanças são mais lentas do que sonhamos ou desejamos porque há muitos com mais poder que evitam que els ocorram.
Lembro que há mais de 15 anos, ali por volta de 1992, o Antônio Ermírio fez um artigo na Folha de S. Paulo dizendo que a China estava crescendo muito, mas ela não poderia ser comparada com o Brasil, com o nível tecnológico que havia nos grandes centros industriais do Brasil. Pouco mais de 15 anos depois e não conseguimos alcançar a China que adotou por volta de 1975 um capitalismo com a mão de ferro do Estado. Fomos engessados a partir de 1986 e paulatinamente nos deixaram submissos à mão de ferro do mercado.
Lula pouco pôde fazer, pois tinha que manter o regime de metas de inflação (Inflação baixa, ou seja, juro alto é quase a única exigência do capitalista estrangeiro), O superávit primário (e a Lei de Responsabilidade Fiscal), o livre fluxo de moedas e o câmbio flutuante, o comércio exterior sem imposto de exportação e sem barreiras à importação e outras preciosidades que requer um livro se as for detalhar todas.
Lula poderia ter mexido aqui e ali, mas se a inflação subisse um pouco mais no primeiro governo sofreria impeachment ou não conseguiria a reeleição.
Poderia fazer as mudanças no segundo governo, mas ai talvez não conseguisse construir uma candidatura competente para 2010.
Fez o melhor que ele poderia fazer eleito pelo partido que não tem 25%dos votos do eleitorado brasileiro
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/08/2009

domingo, 16 de agosto de 2009 18:29:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
Você diz que o Ciro Gomes surpreendeu outro dia ao dizer que o tucano José Serra é um “grande governador”.
Depois você disse que não é possível ser candidato pelo PT se se trata de alguém que diz que José Serra é um grande governador.
Não sei bem o que você quis dizer sobre ser um grande governador.
Qualquer governador no Brasil e no mundo poder receber esse epíteto. Não há como provar que um governante é um bom ou um péssimo governante. Há aqueles que levam a sério a idéia que governo bom fica governo ruim o povo tira e na ausência de eleições utilizam os institutos de pesquisas como instrumentos indicativos da qualidade do governo. Embora possa haver alguma manipulação (escolher um momento certo, como antes ou depois do levantamento dos dados sobre o PIB, escolher os candidatos certos para uma determinada pesquisa, etc) eu levo a sério os levantamentos dos institutos de pesquisa, mas penso que quem os utiliza para medir competência administrativa de um governante o faz por ingenuidade ou por má-fé. E no caso da má-fé trata-se de alguém que não acredita na democracia ou então é uma má-fé política do mentiroso, que pensa tirar vantagem em disseminar a contrafação que existe na idéia de que se mede a competência de chefe de executivo de um governante pela popularidade que ele usufrui.
E também não sei o que você quis dizer com a dúvida sobre alguém conseguir ser candidato por São Paulo pelo PT dizendo que José Serra é um grande governador.
O PT, apesar de certa coesão ideológica perto dos outros partidos, ainda são muitos. Para mim quando Lula apoiou o Mercadante para disputar contra o José Serra ele queria que se tratasse bem o candidato José Serra, que é alguém mais de esquerda do que por exemplo os ex-seminaristas ou leigos com pendores sacerdotais que se encontram no PT.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 16/08/2009

domingo, 16 de agosto de 2009 18:54:00 BRT  
Anonymous Rubens disse...

Ótimo o texto do Alberto. Concordo, sem reservas.

domingo, 16 de agosto de 2009 22:06:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O Obama está, ao menos, procurando ser coerente com suas pregações durante a campanha. Os desafios que enfrenta agora são a parte objetiva, pois, a hora é de implementar o que enunciou em seu programa. Enfrenta a crise econômica ao mesmo tempo em que tem de estruturar aspectos difíceis como a universalização do sistema de saúde. Nada mal.

Swamoro Songhay

segunda-feira, 17 de agosto de 2009 10:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon

O lema mudança é facil de vender. Também é ambíguo e impreciso. Mudar o que exatamente?
Para o eleitorado do Obama mudança poderia ser na política externa, na saúde, na economia, a troca dos republicanos pelos democratas.
Eu acho que a maior parte desse eleitorado entendeu mudança no primeiro caso, na política externa. A onda pegou, o Obama foi eleito.
A administração incremental é na maioria das vezes melhor do que revoluções. Mudanças desorganizam, despendem energia, têm um custo elevado. Isso quando valem a pena. A maioria das mudanças segue a regra estatística da curva normal: fracassam redondamente. O melhor gerente, ou príncipe, não consegue administrar os inúmeros fatores envolvidos em uma mudança. Revoluções só são viavéis em pacientes moribundos. Veja que em sociedades que já conquistaram um nível respeitável de progresso o discurso de mudança geralmente não pega. O catalisador é sempre abstrato, subjetivo - tirar o Bush, colocar o carismático Obama. O cara foi eleito, mas dar a ele um cheque em branco para mudar qualquer coisa a tem uma grande diferença, percebe?

segunda-feira, 17 de agosto de 2009 16:15:00 BRT  
Anonymous Roger disse...

Sò um adendo/correção. Nos USA mesmo se você não tiver dinheiro para pagar na hora, os hospitais não podem negar atendimento. Somente fica a dívida.

terça-feira, 18 de agosto de 2009 09:52:00 BRT  
Anonymous Pablo Vilarnovo disse...

Quem está emparedando Obama é gente de seu próprio partido. Obama tem maioria nas duas casas, não depende dos republicanos.

E é extremamente simplista (para não falar errado) dizer que "a classe média não quer pagar a conta". Argumentos como esse são típicos de pessoas que não conhecem o assunto o qual estão comentando.

A reforma proposta por Obama recebe fogo de todos os lados, não só da classe média eleita como vilã de tudo, é um assunto muito mais profundo do que fez parecer.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009 16:27:00 BRT  
Blogger Richard disse...

CARACA, PARECE QUE NUNCA OUVIRAM FALAR DE JUCELINO E VARGAS!!! Vão dizer que estes presidentes foram apenas bons administradores e só fizeram mudanças pontuais????

Lula poderia terimplementado uma mudança profunda, não só na economia, mas nas instituições, na educação, saúde, no modus operanti do sistem. Uma mudança pra deixar pra trás todo atrazo do Brasil.

A extrema cautela e o medo de errar, como disse o aonimo do dia 16, foram fatais na decisão de consolidar o poder... agora, é o poder pelo poder, ada mais!

Obama foi eleito na mesma perpectiva, e, ao contrário de Lulinha-paz-e-amor, aceitou o desafio, encorajando os norte-americanos a marcharem com ele. Se falhar, será a ruina definitiva dos EUA!!!!!

quarta-feira, 19 de agosto de 2009 21:59:00 BRT  

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