quarta-feira, 15 de julho de 2009

Solidários, pero no mucho (15/07)

Zelaya está agora amarrado à iniciativa de paz costa-riquenha, com a Casa Branca no comando dos cordeis. Ou pode jogar o tudo ou nada, em desvantagem estratégica. Fora do poder, do país e com limitada capacidade de mobilização interna

O deposto (e constitucional) presidente de Honduras, Manuel Zelaya, anda inquieto. Se as negociações na Costa Rica não derem certo para ele, promete usar “outros meios” para voltar a ser de fato o chefe do governo. Essa inquietação de Zelaya tem fundamento: a saída para o impasse hondurenho está sendo produzida devagar o suficiente para evitar a volta do status anterior à ruptura. Assim, todos podem solidarizar-se com o mandatário removido do cargo e posto para fora do seu país. Sem que isso implique reconduzir Zelaya ao patamar político que ocupava antes do golpe.

Na prática, o hemisfério está com Zelaya, pero no mucho. Com exceção, naturalmente, dos bolivarianos. Por trás da impressionante unanimidade continental, mora a divisão; num lado, Hugo Chávez e aliados; no outro, Barack Obama, Luiz Inácio Lula da Silva e sócios menores. A Venezuela entendeu que uma solução negociada, que inclua bloquear a reforma constitucional tentada por Zelaya “na lei ou na marra”, vai representar a contenção do projeto regional de Chávez. E a balança terminará de pender para o lado de Estados Unidos e Brasil. Ambos interessados numa fórmula que reponha Zelaya na cadeira, mas que também o impeça de levar adiante o plano bolivariano original.

Zelaya está, então, preso a um processo cuja lógica o enfraquece. Isso interessa muito a Washington, que desta vez opera com amplo apoio externo. Quando a Organização dos Estados Americanos (OEA) deu o passo para revogar a diáspora cubana, comentei aqui que o “soft power” de Obama tinha se tornado um sucesso latino. De lá para cá, as coisas só avançaram (ou retrocederam, conforme o gosto do freguês). Em um semestre, a nova administração na Casa Branca conseguiu inverter completamente o jogo. A situação hondurenha é só a face mais visível da virada.

Com Bush na cadeira, Chávez era o vetor em expansão, enquanto países como Brasil e Chile estavam constrangidos a apoiar o venezuelano, dado o confronto geopolítico e retórico com o adversário imperial ao norte. Agora, especialmente depois da fraqueza operacional exibida pela Venezuela na crise de Tegucigalpa, os jogadores regionais já sabem que o centro de poder deslocou-se novamente no sentido de Washington, restando a Caracas a retórica e o nervosismo. A não ser, claro, que Chávez e aliados decidam jogar a carta militar. E que obtenham sucesso na empreitada. Seria um risco e tanto.

Sempre é complicado analisar a História em tempo real, mas, se o desfecho do golpe hondurenho for mesmo a amputação (total ou parcial) do projeto bolivariano de Zelaya, estará se fechando o ciclo aberto na fracassada tentativa de derrubar Chávez em 2002. Ali houve mobilização popular, mas decisiva mesmo foi a posição das Forças Armadas. Que recolocaram Chávez na cadeira quando perceberam que a intenção dos golpistas era implantar uma ditadura.

Também agora os militares, desta vez em Honduras, parecem deter a posição-chave. E Zelaya não está bem nesse campo, desde que tentou sem sucesso decapitar a cúpula do Exército, por ela se opor, com apoio da Justiça e do Congresso, à consulta popular convocada pelo presidente em torno do tema da Assembleia Constituinte.

Qual é a diferença entre os dois episódios, a Venezuela em 2002 e Honduras agora? O respeito à legalidade. Você pode não gostar do rumo por que vai a Venezuela, mas não há acusações críveis de que Chávez tenha rompido a constitucionalidade. Similar é a situação de Evo Morales, na Bolívia, e Rafael Correa, no Equador. Nas condições particulares da América do Sul, continente historicamente infestado por casuísmos e casuístas, aqueles três países conduzem seus conturbados processos políticos dentro da lei. Mas em Honduras foi diferente. Zelaya quis dar o pulo do gato. Sem rede de proteção.

O resultado: Zelaya está amarrado à iniciativa de paz costa-riquenha, com a Casa Branca no comando dos cordeis. Ou pode jogar o tudo ou nada, em desvantagem estratégica. Fora do poder, do país e com limitada capacidade de mobilização interna. E tendo que confrontar Barack Obama. Não será uma escolha fácil para Zelaya.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Nunca a Venezuela ganhou tanto e em tão pouco tempo com a sua principal riqueza. Cháves vai passar para história do seu país como o pior governante entre todos os que já desgraçaram os venezuelanos.

Acompanho os eventos políticos e econômicos da Venezuela diariamente desde o referendo de 2007.

Estou reunindo os elementos e formando convicção de que a situação de Cháves na Venezuela tende a se complicar por conta da queda nos preços do petróleo, da inflação a caminho da hiper, da sua desastrada gestão da crise e mais uma enorme lista de outros fatos. O que vai resultar disso coisa boa não é. As condições objetivas para uma crise social de proporções semelhantes a dos anos 80/90 que terminaram colocando o golpista Chávez (1992) no poder em 1998 estão dadas. É a minha avaliação. Não me estendo nela porque o meu comentário ficaria ainda maior.

Um valor do petróleo abaixo de US$ 60,00 tende a aprofundar a crise venezuelana. De acordo com analistas do país, nem mesmo o barril a US$ 70,00 salva Cháves da catástrofe que se anuncia. Ele enfiou na cabeça que ou é socialismo ou é morte. E todos sabemos o que o futuro reserva para tais governantes.

Sobre a constitucionalidade preconizada pelos bolivarianos, eu penso que isso nada mais é do que um disfarce para os “silenciosos” golpes de Estado. A história os registra e para quem quer aprender ela ensina a pensar.

A desestabilização da ordem constitucional (alvo tático) nos países em que o bolivarianismo atua diretamente como partido, ou tem expressão partidária indireta, integra o programa político-partidário bolivariano de conquista do poder de Estado, com vistas a suprimir no longo prazo (alvo estratégico) a democracia e o Estado Direito.

Os bolivarianos dão a isso o pomposo nome de “novo constitucionalismo latino-americano” alicerçado no conceito de “refundação nacional” via plebiscitos.

Nada é novo nisso. As práticas plebiscitárias são uma invenção maligna das debilidades históricas da democracia (vide o magistral 18 Brumário de Marx). Hitler destruiu a República de Weimar “democraticamente”. O mesmo vai acontecendo com essa perversa doutrina implementada por Chávez que ameaça a liberdade e a democracia no continente.

Há um caso potencialmente explosivo que é importante acompanhar. A poderosa Freedom Watch move ação judicial, em Tribunal Federal de Miame, em que se buscam compensações de US$ 5 bilhões e que pode levar ao fechamento da CITGO (filial da PDVSA nos EUA). Este é o elemento mais importante, se não o único, ou o que realmente interessa, para entender o porquê dos fotográficos sorrisos e apertos de mãos entre o rato que ruge na ALBA e Obama (Cúpula das Américas, em 04/07) e a recente retomada das relações diplomáticas com os EUA. Não por acaso Chávez foi esacanteado por Hillary nas negociações em curso que observamos na Costa Rica. Nesse jogo, a ALBA não apita mais.

Coincidentemente ou não, o fato é que esse caso da CITGO também iniciou em abril. Chávez sabe muito bem que com a Justiça dos EUA a conversa é nos autos e nos Tribunais. Se ele perder a ação não tem conversa. É pagar ou ter que ver a CITGO ir a leilão.

Resumo do caso CITGO

La ONG Freedom Watch y un exiliado venezolano en Miami demandaron por 5.000 millones de dólares al presidente Hugo Chávez [...]

Así lo anunciaron este martes los demandantes, que acusaron en abril a Chávez por apoyo al terrorismo, torturas y violaciones a los derechos humanos.(notícia de maio/09)
http://www.el-nacional.com/www/site/p_contenido.php?q=nodo/81096/Internacional/A-5.000-millones-de-d%C3%B3lares-sube-demanda-contra-Venezuela-por-apoyo-al-terrorismo

Notifican a Citgo demanda colectiva contra Chávez

http://www.analitica.com/va/sintesis/nacionales/4938389.asp

Esta notícia é de 02 de julho. O prazo de Chávez dado pela Justiça para responder à notificação expira em 20 dias, ou seja, quase no final deste mês.

quarta-feira, 15 de julho de 2009 11:09:00 BRT  
Blogger Guilherme Scalzilli disse...

Golpe consumado

O golpe de Estado em Honduras pelo menos ajudou a sepultar a constrangedora campanha publicitária da “Gloriosa” iraniana. Sintomática e previsivelmente, os inimigos ocidentais de Ahmadinejad mostram-se cautelosos em relação à democracia hondurenha. Nem sempre a mitologia libertária serve a todos os interesses em jogo.
Resta pouco a acrescentar às origens e aos desdobramentos da deposição de Manuel Zelaya. Trata-se de uma reedição bem-sucedida do levante contra Hugo Chávez, de 2002, na Venezuela: imprensa, partidos políticos e associações empresariais unidos no levante autoritário, oscilações determinantes das Forças Armadas, letargia de grande parte da sociedade e algum belicismo das minorias atuantes.
Golpe de feitio tradicional, portanto, e também no discurso pseudo-legalista dos revoltosos. Sempre há perigos a combater, um interesse nacional a salvaguardar. Os comunistas de nosso 1964 viraram os atuais vilões do Eixo do Mal – substituídos, para o folclore tropical, pelo coronel venezuelano. E novamente a defesa da “democracia” serve como justificativa para destruí-la. O apoio popular legitima o golpe, não a mudança constitucional proposta por um presidente eleito. Governantes podem ser depostos, mas nunca reeleitos, pelo clamor das ruas.
Um aspecto incômodo da cobertura jornalística é a simpatia concedida aos silêncios (omissões?) de Barack Obama. As ambigüidades do episódio hondurenho sugerem cautela. Não há razões para acreditar que o governo dos EUA deixou de apoiar, direta ou indiretamente, sabotagens contra adversários. A proximidade dos golpistas com antigos funcionários da Casa Branca deixa pouco espaço para dúvidas.
Acusações inócuas e sanções paliativas alimentarão o antiamericanismo da população hondurenha, fortalecendo a posição do governo provisório e mantendo o chavista Zelaya afastado até as eleições de novembro. Eis a saída cômoda (e irrevogável) para os lados mais fortes envolvidos.

quarta-feira, 15 de julho de 2009 11:15:00 BRT  
Anonymous Too Loose Lautrec disse...

Se correto o raciocínio é de se aguardar intervenção militar em Honduras. Aventura sem transcurso nem final previsíveis.Um auê para a administração Obama. Inevitável o revival da ocupação da embaixada em Teerã; o ocaso da era Carter.
Até porque, constitucionalmente, Zelaya não é mais presidente “constitucional”. Afastado em meio ao normal funcionamento das instituições e conforme as regras. É só ver a Constituição. Erro houve na expulsão. Ato, porém, posterior à regular e “automática” perda do cargo.
Ou seja, forçar o retorno de Zelaya significaria não apenas rasgar a constituição, como submeter as instituições, violentando a democracia e a soberania de Honduras.
O governo hondurenho não tem como recuar, a menos que se disponha aos riscos até de conflagração interna, desmoralizado o ordenamento político/legal hondurenho.
Zelaya nada tem a oferecer. Seu eventual retorno, em confronto com as instituições é institucionalizar a crise. Não há previsibilidade de seus efeitos.
A saída não está no diálogo na Costa Rica e sim na Constituição de Honduras: novas eleições.
A negociação estaria, no máximo, no estabelecimento de uma nova data.
Hillary já pisou na bola ao receber Zelaya; pisaria nas duas (do Obama) se não tiver considerado a possibilidade sempre belicista representada por Chávez.

quarta-feira, 15 de julho de 2009 12:01:00 BRT  
Anonymous Luca disse...

Este episódio em Honduras é um marco histórico.
Representa o primeiro revés grave ao chamado movimento Bolivariano. O uso de instrumentos "democráticos" (referendos) para perpetuar caudilhos populistas no poder.
Chaves joga pesado para tentar reduzir o dano. Mas o desfecho parece consolidado e indica um caminho a ser seguido pelas oposições de outros paises sob risco de ataque Bolivarianista. Honduras provavelmente chamará novas eleições e sepultará o conflito atual, com volta a OEA e etc...

quarta-feira, 15 de julho de 2009 12:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Qual é a informação privilegiada que você possui que permite que se posicione o Brasil ao lado dos EUA e antagonista venezuelano na política externa? Por favor, divide-a conosco...

quarta-feira, 15 de julho de 2009 13:43:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon

Você é um ser híbrido, mais precisamente, é um ser em metamorfose.

Você quase sempre argumenta com valores universais. Outras poucas vezes cai na armadilha que muitos militantes de esquerda cometem: arrazoar com valores exóticos e
bizarros. Esses últimos falam para meia dúzia. Para quantos você quer falar?

Quando você diz que o HC ainda não ultrapassou os limites da democracia, talvez você queira compará-lo com democracias legítimas onde a permanência indefinida no governo é permitida. Até onde sei nessas democracias a oposição é forte, a imprensa plural e combativa, e a transparência fica em um nível que permite inferir que a escolha do povo foi realmente instruída, e o governante não tem outra opção senão conviver com adversários musculosos. Até onde sei, não existem essas condições na Venezuela. Você, por exemplo, se arriscaria a ser um jornalista de oposição nesses país?

Talvez você queira dizer que o apoio popular legitima o governo do HC. Você bem sabe que qualquer governante só mantém no poder com a rede de apoio que mantém. Você já parou para observar aqueles que se poem em volta do HC. Sim, aqueles que imitam grotescamente o mestre com roupas vermelhas e bonés ridículos, e se espalham pelo governo e pelas forças armadas.

Você acha que esses asseclas apoiam o HC por convicção? Você acha que eles têm a capacidade ou a vontade de contribuir para um país melhor? Animal Farm: está se criando uma nova e obscura oligarquia e novas redes de influência e poder que em nada têm o bem social como propósito.

De novo, nada muda. Você viverá para ver o desfecho de todo esse circo.

quarta-feira, 15 de julho de 2009 16:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Só um detalhe, não só ambas instituições de Justiça encontraram ilegalidade no referende de Zelaya como há como mudar a constituição, mas não pode-se mexer nas cláusulas pétreas.

A proposta de Zelaya era ilegal por causa que ele queria mudar as cláusulas-pétreas, não tendo como fazer isso via legal, ele optou por um golpe (como evidentemente se sucedeu ao querer impor pela força o referendo), e a vitimização dele se deu maior parte pela invenção do hoax de um golpe militar hondurenho por parte de Chavez.

Os militares descumpriram a ordem da Justiça de prender Zelaya, escolhendo o exílio, algo que evitaria o banho de sangue, a ilegalidade dos militares foi essa.

Sei que estou em um blog evidentemente de esquerda mas vi alguma honestidade em você (O que é meio raro em esquerdistas, já que os jargões vem em primeiro), mas não posso arredar de contar alguns fatos que conheci maioria via twitter e blogs, ditos por hondurenhos mesmo.

Abraços.

terça-feira, 21 de julho de 2009 01:25:00 BRT  

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