sexta-feira, 17 de julho de 2009

Sim, mas e daí? (17/07)

O Brasil tem sido o país do excesso de conversa, da profusão do lero-lero e da falta de ação. Dos debates intermináveis e da mesmice administrativa

A grande notícia de ontem foram os números da retomada do crescimento chinês. Os últimos índices mostram que a China alcançará este ano a almejada expansão de 8%. Ou seja, perdeu somente cerca de um quarto do que crescia antes da megacrise mundial da economia. Incrível. Aqui no Brasil, em contraste, perdemos quase tudo. O debate nacional é se vamos crescer 1%, segundo a última das múltiplas previsões do ministro da Fazenda (ele parece ter uma para cada ocasião), ou se iremos retroceder o mesmo tanto. Um debate medíocre, sobre alternativas medíocres.

Na China, a retomada da aceleração sustenta-se em três pernas: a sólida retaguarda estatal ao setor financeiro, a guinada decidida para o mercado interno e os maciços investimentos públicos. E o resultado aparece. No Brasil, não houve maior necessidade de proteger os bancos. Eles já estão suficientemente protegidos pelo ambiente oligopolista e pelas normas nascidas do Proer. O mercado interno vai mais ou menos, estimulado pelos programas sociais mas tolhido pela incapacidade governamental de fazer os bancos emprestarem dinheiro barato. E o investimento público anda do jeito que conhecemos: barulho demais para resultados nem tanto.

Mais incrível é que a mediocridade do nosso desempenho não parece incomodar ninguém. A oposição em Brasília passa ao largo do tema. Até porque crescimento não foi propriamente uma prioridade do PSDB quando teve a caneta na mão. Já o governo, à frente o presidente da República, anda mais preocupado em repisar uma ficção, uma fantasia: a de que fomos o último país a entrar na crise e seremos o primeiro a sair dela. Nem uma coisa, nem outra. As notícias que vêm da China comprovam. E a banca faz a sua parte, abastecendo os dutos da opinião pública com a mistificação de que nossos juros astronômicos são necessários, devido a uma suposta propensão nacional ao calote.

No Brasil, tudo que é bizarro pode ficar ainda mais. A melhor dos últimos tempos foi o movimento para pressionar o Conselho Monetário Nacional a baixar a meta de inflação. O que daria mais legitimidade ainda ao Banco Central, na obsessão dele de garantir ao Brasil um lugar no pódio dos maiores juros reais do mundo. Pode ter sido um lapso meu, mas procurei saber de outro país que, nesta altura, abrigue algum tipo de preocupação com a inflação e não achei. Se você sabe de um caso, avise-me, por favor. Aliás, encontrei o contrário: gente torcendo por um pouco de inflação, um sinal de vida do consumo.

Ontem, a Fundação Procon divulgou o levantamento mensal sobre as taxas médias de juros para empréstimo pessoal e cheque especial. Elas vêm caindo. Mas tão suavemente quanto a descida do Amazonas na sua longa corrida em direção ao Atlântico. Os juros “declinantes” estão hoje em 5,3% mensais para o empréstimo pessoal e em 8,8% mensais para o cheque especial. Escrevi o “mensais” duas vezes, de propósito. Para você comparar com a inflação projetada para o ano todo, algo um pouco acima de 4,0%. Vamos reforçar: 5 a 8% ao mês de juros para uma inflação de 4% ao ano.

Em outros lugares seria motivo para providências radicais. Mas o Brasil tem sido o país do excesso de conversa, da profusão do lero-lero e da falta de ação. Dos debates intermináveis e da mesmice administrativa. Um ponto bastante repisado por Luiz Inácio Lula da Silva é que o Estado brasileiro foi estruturado nos últimos tempos para não agir. Um exemplo que Lula sempre dá é a diferença no tratamento 1) aos funcionários públicos voltados a atividades-fim e 2) aos encarregados de controlar e fiscalizar. Sim, mas e daí? É verdade, mas o que se fez de prático nos últimos anos para inverter a equação? Afinal, já são seis anos e meio. O governo não começou outro dia. Está é acabando.

São Nunca

Lula diz que o Senado tem bons pizzaiolos. É fato. Mas eles existem também em profusão na Câmara dos Deputados, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais. Legislativo no Brasil reduziu-se a sinônimo de empreguismo, desperdício e submissão ao Executivo. Sabe quando vai emplacar aqui a ideia do parlamentarismo? No dia de São Nunca.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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3 Comentários:

Blogger Briguilino disse...

A diferença fundamental entre o Brasil e a China é somos uma democracia - imperfeita - e a China é uma ditadura perfeita. Mas, prefiro o Brasil.
Quanto ao parlamentarismo, não tem nada a ver com a nossa educação, cultura politica.

sexta-feira, 17 de julho de 2009 07:53:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Não espalha, Briguilino, pq talvez aumente o número de adeptos da ditadura.

sexta-feira, 17 de julho de 2009 11:23:00 BRT  
Blogger Franco Vieira disse...

Tenho minhas dúvidas quanto ao parlamentarismo no Brasil, Alon. Teríamos um Executivo a serviço do Legislativo, e não o contrário. O que, com esse Legislativo, não é grande vantagem. Viveriamos sobre um eterno PMDB no poder.

sexta-feira, 17 de julho de 2009 18:14:00 BRT  

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