quinta-feira, 23 de julho de 2009

Por quanto tempo a tropa resistirá? (23/07)

É verdade que as pressões políticas pela saída de Sarney vêm da oposição, mas é fato também que o noticiário que alimenta a crise alimenta-se ele próprio de material investigativo produzido no âmbito dos poderes, inclusive o Executivo

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), luta como pode para se desvencilhar da crise, mas ela está cada vez mais perto de feri-lo mortalmente. A principal linha de defesa do senador é afastar-se dos tais atos secretos, debitando-os na conta do então diretor-geral. Uma blindagem relativa, pois é pouco razoável a versão de que a burocracia da Casa mexeu nos cargos reservados a suas excelências sem combinar com o dono da vaga. Isso já foi abordado aqui, mais de uma vez.

O agora comprovado elo de Sarney com movimentações funcionais complicadas seria entretanto apenas mais um capítulo dos conhecidos hábitos políticos nacionais, não fosse exatamente o detalhe da falta de publicidade. E o ciclo se fecha. Em situação normal, não haverá como Sarney deixar de ir ao Conselho de Ética, inclusive para ser confrontado com servidores que supostamente agiram nas suas barbas, mas sem (?) o seu conhecimento.

Digo "em situação normal" para ter o devido cuidado, pois o ambiente no Senado anda bem distante da normalidade. Em teoria, o governo tem número para evitar que Sarney precise ir ao conselho. Tem maioria ali e no plenário. A questão é saber por quanto tempo a tropa resistirá. Porque todo dia tem novidade. E a fonte de constrangimentos para o presidente da Casa parece mais parruda até do que os poços do pré-sal, tão festejados. E no ano que vem tem eleição para renovar dois terços do Senado. Os hoje aliados de Sarney balançam, como se sabe, entre a fidelidade ao grupo e o medo que sentem do eleitor.

Por falar em governo, é verdade que as pressões políticas pela saída de Sarney vêm da oposição, mas é fato também que o noticiário que alimenta a crise alimenta-se ele próprio de material investigativo produzido no âmbito dos poderes, inclusive o Executivo. Não há neste caso denúncias anônimas a comprovar ou ataques políticos que demandem provas ainda a colher: o que existe são resultados de investigações e sindicâncias oficiais. Tudo no papel. Preto no branco.

Luiz Inácio Lula da Silva tem razão quando observa que Sarney deve ser tratado com o respeito merecido por quem já exerceu a Presidência da República, um político ao qual o país deve (a ele e a outros) a transição civilizada da ditadura para a democracia. E Lula tem razões adicionais para ser grato a Sarney, que no nervoso Senado vem dando a Lula nestes anos todos o respaldo necessário para impedir que o governo do petista seja inviabilizado por crises em sequência. Para Lula, Sarney não é mesmo alguém "comum".

Até por isso, talvez seja o caso de o PMDB, o PT e o Palácio do Planalto começarem a pensar a sério numa alternativa, num plano B. Se lá atrás poderia ser entendido como manobra para debilitar Sarney, agora não é mais assim. A saída desejada pelo senador é conhecida: ele no comando de uma ampla reforma administrativa na Casa. Mas começa a ficar difícil, desde que, como sempre se soube, a origem dos problemas administrativos é política.

Não se deve subestimar a resistência de Sarney. Quem viveu nos anos 1980 foi testemunha de como ele enfrenta o quadro adverso. Há porém algumas diferenças. Remover o então presidente da República representaria um golpe na estabilidade da transição. E manter Sarney fraco no Planalto interessava aos políticos que ambicionavam a cadeira dele. Nenhuma das duas variáveis está presente hoje.

Quem segura Sarney no cargo? Ele próprio, Lula e o temor de um efeito dominó que arraste ao cadafalso outros figurões. É muito, mas talvez não o suficiente. Até porque, como o próprio senador deve saber melhor do que nós todos, o aliado de hoje pode se tornar o Judas de amanhã, se e quando convier.

Cotas no STF

Será uma pena se o STF atender ao Democratas e suspender as cotas na UnB. Numa sociedade desigual, elas são um vetor de justiça. Cabe sim ao Estado dar um empurrãozinho para que os excluídos cheguem mais rapidamente onde os demais já chegaram. Mas é preciso dizer também que quem tenta levar as cotas a extremos irracionais acaba ajudando quem é contra elas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon, boa tarde, acho que as cotas criarão profissionais de segunda, que entraram na faculdade pela janela das cotas e não por merito.
Só o branco sera valorizado, criara ainda mais distanciamento, né não?

quinta-feira, 23 de julho de 2009 13:33:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

A realidade não tem sido essa, anônimo

quinta-feira, 23 de julho de 2009 14:00:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Desculpe mas não tem sido nos lugares onde o racismo explícito (com aparato legal) dominava.

No Brasil, onde o racismo nunca foi política de Estado, e hoje inclusive a política é ANTI-RACISTA, a criação de cotas deveria corrigir assimetrias e não criar uma 2ª classe de pessoas (os cotistas).

Seria o mesmo que, para tornar as escolas de meninos e meninas, a prova destinada as meninas fosse diferente da dos meninos!

Sou branco casado com negra e filhos morenos. Meu sogro acha que as cotas são um estímulo... para alguns sim. Mas para outros, sempre deverão existir cotas, na busca de uma igualdade que já existe biológica e legalmente, mas não culturalmente!

quinta-feira, 23 de julho de 2009 14:16:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Pretorianos tinham uma frase pronta:"A guarda morre mas não se rende! "
"Demos",darão tiros nos próprios pés se o STF,atende-los. Tivessem, eleitores, apenas, em Santa Catarina...

quinta-feira, 23 de julho de 2009 14:31:00 BRT  
Anonymous Luca disse...

A "ação afirmativa" pela situação social, não por raça, seria mais coerente.
Segurar Sarney põe a azeitona na empada da oposição.

quinta-feira, 23 de julho de 2009 17:41:00 BRT  
Blogger Mira Zaramella disse...

Alon, BRILHANTE a sua análise sobre o momento político de José Sarney. Tudo de certo para nos alertar e nos manter vigilantes.
Parabéns!

quinta-feira, 23 de julho de 2009 19:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Eu concordo com o critério de cotas por raça (não vamos discutir esse conceito, por favor), mas com ressalvas.

A primeira é que seja pequena, bem pequena. A segunda é que não seja permanente.

Por ser por vinte, trinta, quarenta anos, sei lá. Tem de ser somente o tempo necessário para se diminuir o fosso e criar uma classe de diplomados que pudessem replicar o diploma aos seus descendentes.

Se vai haver discriminação é provável. Também é muito provável que ele se esvaia com o passar das gerações.

quinta-feira, 23 de julho de 2009 22:08:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Indicadores mostraram recentemente que o desempenho de cotistas superaram expectativas, tirando razão de receios quanto ao aproveitamento. Contudo, como até parcela do movimento negro defende, o ideal seria a alocação de investimentos maciços na escola pública, da pré-escola ao segundo grau, incluindo o ensino técnico.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 24 de julho de 2009 11:09:00 BRT  
Anonymous geraldo magela ramalho disse...

como Lula pode cobrar respeito a Sarney se o próprio Lula chamou Sarney de ladrão em um comício.Defender Sarney em nome de sua biografia é um absurdo já que a sua história em nada contribui para isso. Sarney foi aliado da Ditadura e deu o golpe do Plano Cruzado, levando milhares de brasileiros ao desespero, só para citar duas passagens que depoem contra a biografia de Sarney.

sexta-feira, 24 de julho de 2009 21:13:00 BRT  

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