terça-feira, 14 de julho de 2009

O desafio de trocar a clientela (14/07)

Quando você transforma a realidade, ela também transforma você. Arrastado a uma composição estratégica com o PMDB, o PT vai adquirindo traços do parceiro. O que impõe novos desafios

A crise política de 2005 fez surgirem previsões catastróficas sobre o Partido dos Trabalhadores. A sigla estaria condenada, depois de decepcionar quem enxergava nela o vetor de renovação dos costumes políticos no Brasil. Mas os prognósticos negativos –frequentemente, torcida travestida de análise– falharam. O PT viu Luiz Inácio Lula da Silva reeleger-se e manteve a presença no Congresso Nacional. E continua sendo a legenda orgânica do portifólio. Mais de 300 mil filiados participaram da última eleição interna. Todas as pesquisas mostram o PT na dianteira da preferência popular, bem na frente dos demais.

Qual é o desafio, então? É transformar a força em hegemonia. O partido surgiu nos anos 80 do século passado como uma espécie de anti-PMDB. Era a agremiação vertebrada, que se opunha conceitualmente à geleia-geral da frente política de resistência ao autoritarismo. O partido-partido em vez do partido-frente. O porta-voz do segmento mais moderno e dinâmico da sociedade. Ganhou musculatura após o impeachment de Fernando Collor. E chegou ao governo mantendo a essência de suas concepções. Você se lembra da profusão de petistas no primeiro ministério de Lula, em 2003?

Como inexiste almoço grátis, nem exercício pacífico do poder sem hegemonia, a vida o fez dobrar-se à realidade: ou moderava o apetite, convidando mais gente para o banquete, e abria a administração, ou seria despejado do Éden. Ou entrava no jogo para valer, ou caía fora. Entrou e gostou. Daí que, numa ironia típica, eis o PT fazendo de tudo e mais um pouco para segurar junto dele o PMDB. O petismo poderá argumentar que cuida de sobreviver enquanto preserva sua pureza, por existir uma linha divisória entre os partidos. Mas a velha dialética já observava: quando você transforma a realidade, ela também transforma você.

Arrastado a uma composição estratégica com o PMDB, o PT vai adquirindo traços do parceiro (é também o que acontece na relação do Democratas com o PSDB: eis um assunto para outra coluna). Ao ponto de assistirmos hoje no Senado a um sintomático casamento de conveniência: o PT ajuda o PMDB a salvar a pele do presidente da Casa, José Sarney (AP), e em troca o peemedebismo ajuda a vacinar o PT na CPI da Petrobras.

Ambos parecem muito satisfeitos com os termos do contrato nupcial, convenientemente esquecidos de que talvez interesse ao cidadão conhecer o que vai pelos intestinos da vetusta Casa e também da nossa querida estatal. Mas, dada a dificuldade de pescar no cenário brasileiro massa crítica de políticos que ao menos simulem preocupação com o interesse público, não parece haver motivo para alarme.

No atual esforço para caracterizar tudo como “luta política”, e assim justificar o injustificável, o PT vai fechando os últimos dutos que o ligam àquele veio da “ética”. Esses votos vêm sendo permutados, com vantagem numérica, pelo apoio de outro pessoal: os mais pobres e os do Nordeste. Os pobres, gratos pelos belos, justos e agressivos programas sociais, terreno em que quantidade é qualidade: o sujeito que inventa a vacina contra uma doença letal ganha prestígio, mas os votos irão para o político que adotar as providências práticas e erradicar o mal. Já o Nordeste está cativado pelo crescimento “chinês” da economia regional.

Aqui aparece um problema. Os aliados do PT têm revelado mais competência para enraizar-se no novo público-alvo do partido de Lula do que os petistas. Especialmente o PMDB e –no Nordeste– o PSB. Também por isso, bem no momento em que deveria buscar estrategicamente a hegemonia, o PT precisa dobrar-se aos parceiros num grau antes impensável, à luz da ambição partidária e também dos princípios fundadores da legenda “diferente de tudo que está aí”.

A saída defendida por Lula para 2010 é conhecida: concentrar esforços para eleger Dilma Rousseff e ampliar com força as bancadas no Congresso. Por incrível que pareça, talvez o primeiro desafio seja mais alcançável do que o segundo, dada a expertise dos aliados em usar o poder de Brasília para alavancar força regional. Diria Arquimedes, se fosse um político brasileiro: deem-me um bom cargo federal, com uma caneta cheia de tinta, que eu garanto os votos. Desde a Antiguidade se sabe que um ponto de apoio adequado permite mover o mundo.

O PT quebra a cabeça para decifrar esse enigma, barreira entre o partido e o projeto de, a partir de 2011, construir uma hegemonia “por cima”, de Brasília para o resto do país.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Anonymous Reginaldo Araújo disse...

Excelente o artigo, principalmente no que se refere à mudança da realidade com a consequente mudança de quem a proporcionou e isso ao invés de ser maléfico para o país será benéfico pois o PT formará com o PMDB uma simbiose que num futuro próximo ao se olharem no espelho não mais se reconhecerão. Digo isso porque durante o primeiro mandato do Lula quando via o Zé Dirceu dando uma entrevista me lembrava da postura idêntica dos militares durante o período mais obscuro e repressor da ditadura e me gelava a espinha, pois entendia que ele seria o sucessor do Lula e caminharíamos a passos largos para nos transformar no que é hoje a Venezuela.

terça-feira, 14 de julho de 2009 10:47:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alonzito

Os filósofos gregos cunharam o termo physis para designar tudo que é permanente e imutável. Depois, o sentido original se perdeu porque os romanos verteram o sentido como naturae e, aí, as duas palavras acabaram por serem usadas indistintamente.

Filosofia inútil? Permanente e imutável é que o exercício do poder só se torna benigno sendo transitório, havendo oposição livre e forte e transparência (imprensa, ah, nossa imprensa e nossos diplomas).

É aquilo que um leitor seu abordou em um post passado. Parece mentalidade colonizada, mas os anglo-saxões entendiam muito bem de filosofia útil. Repare que não existe exercício do poder imaculado, mas mesmo assim ele pode se tornar benigno, se constrito às essas condições.

Imaginar que a supremacia do PT pode libertá-lo e elevá-lo às virtudes celestiais é ingenuidade ou...

Permanente e imutável é que qualquer partido monolítico como o PT, se exercer o poder por muito tempo e sem rédeas tende inevitavelmente à corrupção, ao cerceamento das liberdades individuais e ao empobrecimento geral do País. Não é vaticínio nem apologia contra o partido, porque, imagina, fui seu eleitor, e ainda serei, em certas circunstâncias.

Você pode não se convencer, mas faça uma visita aos nossos compêndios de história, moderna, contemporânea ou antiga. Nada muda, em essência, nada muda. Há sempre um Hugo Chavez, um PRI e um PT e alguém sempre paga a conta do cafezinho amargo. O que você quer, o que nós queremos, ficarmos presos eternamente num círculo vicioso, patinando sobre os mesmos erros ou nos elevar a um nível de democracia, que mesmo imperfeita, mas respeitável?

terça-feira, 14 de julho de 2009 13:52:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

PT possue características originais.
Partido constituido para "opor-se". Mesmo internamente o exercício da oposição se manifesta através de sua variadas correntes ,confrontando projetos, propostas e ideologias.Esta varia apenas de tonalidade.Há de se concordar o quanto foi difícil,e , ainda o é,postar-se do outro lado do balcão.
Prevaleceram,bem mais os princípios do que a inexperiência.
Década e meia administrando Porto Alegre,ainda com sucesso,ou São Paulo,por apenas um mandato,não foi suficente para polir politica e administrativamente ,mesmo ,seus melhores quadros.E isto teve seu preço .Armadilhas lhes foram plantadas ao longo dessa trajetória. Alguma defecções,como o surgimento do PSOL,confirma, a regra.A nostalgia da infância partidária.Por outro lado, conviver nesse elevador de porta pantográfica,com PMDB,é ,e será a definitiva prova da maturidade .Ou
aguardar o imprevisivel bonde da história passar outra vez.

terça-feira, 14 de julho de 2009 15:38:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Hegemonia não pode significar unanimidade.

Swamoro Songhay

terça-feira, 14 de julho de 2009 20:21:00 BRT  
Anonymous NPTO disse...

Excelente artigo. Se a candidata do PT não fosse excelente, eu acho que torceria para perdermos e recompormos as forças. Mas não dá para não eleger a Dilma.

A vida partidária precisa ser reacendida no PT. Por exemplo, sempre que se fala em recuperar um posicionamento ideológico claro, fala-se em retroceder às posições pré-2002. Porque não reavaliarmos nossas posições a respeito do mercado, da política fiscal, etc., dados os excelentes resultados que NÓS MESMOS obtivemos com a política econômica? Se nos assumíssemos mesmo como partido social-democrata sério, o debate poderia se reiniciar, visto que não representaria sempre, como tem sido até agora, proposta de retrocesso e radicalização.

E o debate não pode acontecer só no partido. Os movimentos sociais aliados precisam repensar algumas coisas. Por exemplo, o MST deve se opor tão frontalmente ao agronegócio, ou aos transgênicos? Ou deveríamos estar fazendo kibutzim de alta tecnologia com as terras desapropriadas?

quarta-feira, 15 de julho de 2009 15:34:00 BRT  

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