O crepúsculo do campeão (29/07)
Barack Obama está a um passo de colocar o freio em Hugo Chávez. Sem disparar um tiro, sem gritar, sem ameaçar. Sorrindo, posando para fotos e dizendo palavras doces
Faz um mês que o presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya, foi deposto e expelido do país. Suas tentativas de voltar ao poder nos termos dele próprio têm esbarrado na falta de apoio efetivo, interno e internacional. Internamente, o governo recém-instalado parece controlar as rédeas do Estado. No resto do mundo, o suposto consenso em torno da volta incondicional de Zelaya é apenas suposto.
O caminho oferecido pelos Estados Unidos para o retorno à normalidade é humilhante para o mandatário literalmente defenestrado. Ele teria que desistir da consulta popular que convocou para pressionar pela Assembleia Constituinte. E teria que dividir poder com os algozes: a cúpula do Judiciário, o Congresso e as Forças Armadas. Estaria impedido, por exemplo, de demitir o comandante do Exército, que o depôs. Ficaria na prática sob tutela. Dos inimigos locais e da Casa Branca. Assim seria o seu patético epílogo.
Como Zelaya tampouco mostra força para voltar “nos braços do povo” e remodelar a República ao seu feitio, chegou-se a um impasse. O problema é que o relógio trabalha contra. O poder tem magnetismo. E o tempo favorece a acomodação. Zelaya teria que criar uma alternativa política, se necessário pela força. Mas, convenhamos, ele não leva jeito. Zelaya não é um Fidel Castro. Nem mesmo um Hugo Chávez.
Zelaya acena com a resistência em outros termos, não propriamente pacífica. Veremos. Trata-se de um oligarca que certo dia engatou seu vagãozinho no trem da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas, liderada pela Venezuela) e se deixou encantar pela perspectiva de reformar a Constituição hondurenha (a que proíbe o sujeito até de pensar em reeleição). Sem porém ter os votos ou os meios para tal. Só que os adversários foram mais rápidos e eficientes. Agora é ele quem corre atrás do prejuízo.
Que não é só dele. Por enquanto, o maior ameaçado de sofrer uma derrota retumbante é Chávez —que nesta altura deve estar querendo arrancar o couro de Zelaya pela trapalhada e pela incompetência. O venezuelano está como o boxeador quase invicto (perdeu uma, por pontos, no primeiro referendo pela reeleição ilimitada, mas retomou o cinturão na revanche), quando enxerga, espantado, o perigo de sofrer o primeiro nocaute, numa luta que antes de começar parecia fácil. Uma espécie de Myke Tyson enrolado com a surpresa James “Buster” Douglas, naquele hoje distante, mas inesquecível, fevereiro de 1990 em Tóquio.
Todo campeão tem um encontro marcado com o desafiante que irá derrotá-lo. Por enquanto, Chávez não vem sendo páreo para a dupla Barack Obama/Hillary Clinton. Ela é uma profissional. Ele, um mister simpatia. Os Estados Unidos estão a um passo de colocar o freio em Chávez. E sem disparar um tiro, sem gritar, sem ameaçar. Sorrindo, posando para fotos, dizendo palavras doces e celebrando a “unidade hemisférica”.
E acercando-se de Havana. A evolução das relações entre Cuba e Washington parece irreversível —com todos os riscos que a palavra carrega no jornalismo. Será que Raul Castro vai comprometer o quase noivado com Obama só para oferecer uma saída honrosa para Chávez, sem nenhuma garantia prática de que a coisa irá vingar? Ora, se nem Luiz Inácio Lula da Silva está nessa...
É a volta da política do big stick. Fale macio e carregue um grande porrete. No pós-golpe de Honduras, e a não ser que Zelaya entre em Tegucigalpa à frente de sua revolução bolivariana, os adversários continentais do chavismo já saberão que a invencibilidade do campeão de Caracas encontrou o seu crepúsculo.
Aprendeu com Maluf
Atolado em confusões, a partir de certa altura Paulo Maluf desenvolveu um método. Os jornalistas perguntavam uma coisa e ele respondia sobre outro assunto. O expediente está sendo útil agora, nas barricadas que defendem o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).
E o ato secreto que nomeou o então namorado da neta? Ora, todo mundo nomeia, trata-se da ocupação de espaço político. Claro, presidente. Nomeia mas publica. A pergunta não é sobre a nomeação, é por que a esconderam!
Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.
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Faz um mês que o presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya, foi deposto e expelido do país. Suas tentativas de voltar ao poder nos termos dele próprio têm esbarrado na falta de apoio efetivo, interno e internacional. Internamente, o governo recém-instalado parece controlar as rédeas do Estado. No resto do mundo, o suposto consenso em torno da volta incondicional de Zelaya é apenas suposto.
O caminho oferecido pelos Estados Unidos para o retorno à normalidade é humilhante para o mandatário literalmente defenestrado. Ele teria que desistir da consulta popular que convocou para pressionar pela Assembleia Constituinte. E teria que dividir poder com os algozes: a cúpula do Judiciário, o Congresso e as Forças Armadas. Estaria impedido, por exemplo, de demitir o comandante do Exército, que o depôs. Ficaria na prática sob tutela. Dos inimigos locais e da Casa Branca. Assim seria o seu patético epílogo.
Como Zelaya tampouco mostra força para voltar “nos braços do povo” e remodelar a República ao seu feitio, chegou-se a um impasse. O problema é que o relógio trabalha contra. O poder tem magnetismo. E o tempo favorece a acomodação. Zelaya teria que criar uma alternativa política, se necessário pela força. Mas, convenhamos, ele não leva jeito. Zelaya não é um Fidel Castro. Nem mesmo um Hugo Chávez.
Zelaya acena com a resistência em outros termos, não propriamente pacífica. Veremos. Trata-se de um oligarca que certo dia engatou seu vagãozinho no trem da Alba (Aliança Bolivariana para as Américas, liderada pela Venezuela) e se deixou encantar pela perspectiva de reformar a Constituição hondurenha (a que proíbe o sujeito até de pensar em reeleição). Sem porém ter os votos ou os meios para tal. Só que os adversários foram mais rápidos e eficientes. Agora é ele quem corre atrás do prejuízo.
Que não é só dele. Por enquanto, o maior ameaçado de sofrer uma derrota retumbante é Chávez —que nesta altura deve estar querendo arrancar o couro de Zelaya pela trapalhada e pela incompetência. O venezuelano está como o boxeador quase invicto (perdeu uma, por pontos, no primeiro referendo pela reeleição ilimitada, mas retomou o cinturão na revanche), quando enxerga, espantado, o perigo de sofrer o primeiro nocaute, numa luta que antes de começar parecia fácil. Uma espécie de Myke Tyson enrolado com a surpresa James “Buster” Douglas, naquele hoje distante, mas inesquecível, fevereiro de 1990 em Tóquio.
Todo campeão tem um encontro marcado com o desafiante que irá derrotá-lo. Por enquanto, Chávez não vem sendo páreo para a dupla Barack Obama/Hillary Clinton. Ela é uma profissional. Ele, um mister simpatia. Os Estados Unidos estão a um passo de colocar o freio em Chávez. E sem disparar um tiro, sem gritar, sem ameaçar. Sorrindo, posando para fotos, dizendo palavras doces e celebrando a “unidade hemisférica”.
E acercando-se de Havana. A evolução das relações entre Cuba e Washington parece irreversível —com todos os riscos que a palavra carrega no jornalismo. Será que Raul Castro vai comprometer o quase noivado com Obama só para oferecer uma saída honrosa para Chávez, sem nenhuma garantia prática de que a coisa irá vingar? Ora, se nem Luiz Inácio Lula da Silva está nessa...
É a volta da política do big stick. Fale macio e carregue um grande porrete. No pós-golpe de Honduras, e a não ser que Zelaya entre em Tegucigalpa à frente de sua revolução bolivariana, os adversários continentais do chavismo já saberão que a invencibilidade do campeão de Caracas encontrou o seu crepúsculo.
Aprendeu com Maluf
Atolado em confusões, a partir de certa altura Paulo Maluf desenvolveu um método. Os jornalistas perguntavam uma coisa e ele respondia sobre outro assunto. O expediente está sendo útil agora, nas barricadas que defendem o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP).
E o ato secreto que nomeou o então namorado da neta? Ora, todo mundo nomeia, trata-se da ocupação de espaço político. Claro, presidente. Nomeia mas publica. A pergunta não é sobre a nomeação, é por que a esconderam!
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5 Comentários:
Um ponto de vista democrático e de ESQUERDA?????. Ha quase gozo em seus comentários (criticas) qundo o assunto é Hugo Chaves , não é que eu concorde com este senhor mas ele é fruto da politica de washington par as americas do cone sul . Ruim com Chaves pior sem ele,pricipalmente se a velha oligarquia venezuelana voltar ao poder , Honduras é um sinal de alerta para as frageis democracias latinas. (VAMOS VER SE PUBLICA MEU COMENTÀRIO QUE È O TERCEIRO E ULTIMO NESTE POST)
Nessa eu já me posicionei faz tempo. Não é nada pessoal, é apenas fim de mandato. Você teve a sua vez, gostamos de você, mas o mandato acabou. Meus parabéns pela dedicação e agora vai fundar uma biblioteca, quem sabe brincar com os netos ou recuperar o tempo perdido com a patroa. Se quiser continuar o seu projeto, então escolha um sucessor e trabalhe por ele. Esse negócio de ir ficando, ficando, ficando, não é só entediante. A gente sabe com cem por cento de certeza onde vai dar.
Posso até achar que a constituição poderia ser melhor redigida, mas não sou eu que vai te dizer o que você deve ou não escrever, certo?
Mais uma vez vemos que a inteligência vence a força. Numa comparação de George W. Bush com Barack Hussein Obama vemos que o primeiro à uma hora dessas estaria defendendo a ferro e fogo o governo de fato de Honduras e condenando com todas as palavras Zelaya e o seu protetor Hugo Chávez levando a uma revolta ainda maior na America Latina em relação aos Estados Unidos. Agora Barack Obama, por princípio ou aprendizado, resolveu percorrer um caminho diferente e que, talvez, para a surpresa de muitos tanto do lado de ca quanto pro lado de la do Caribe parece estar dando certo, bastou ele usar a inteligência primeiro para depois, se necessário for, usar a força num campo sem muitos inimigos para se derrotar, pois os que outrora foram inimigos agora serão amigos com os beijos e abraços do “novo” Estados Unidos da América.
Brilhante a análise Alon. Irretocável, principalmente na parte que trata de Obama; colocar um freio em Chávez sem dar um tiro sequer e ainda sorrindo e falando doce, cá entre nós, é muita competência.
O Vinícius está crescendo tão rapidamente... Mas porque o ódio aos EUA? Portugal, Inglaterra e Espanha me pareceriam ser alvos mais justos da sanha pelo eterno infortúnio latinoamericano. Talvez eu tenha problemas com raciocínio lógico. Você pode me ajudar, Vinícius?
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