sexta-feira, 3 de julho de 2009

Falta quem pague a conta (03/07)

Quando um time é rebaixado, por melhor que seja o técnico é remotíssima a probabilidade de ele continuar no cargo. Nem sempre é justo, mas infelizmente a vida é assim

O que está faltando para o Senado alcançar a porta de saída da crise? Falta achar quem pague a conta. Porque alguém deverá arcar com ela. Não existe almoço grátis, costumam dizer os americanos. E, dado que mais uma vez tal verdade se comprova, o dia de ontem na Câmara Alta foi consumido pela discussão disfarçada em torno disso, de quem se apresentará para honrar a fatura. Ou para quem ela será empurrada.

José Sarney (PMDB-AP) não aceita que a dolorosa caia integralmente no seu cartão de crédito. É o que vem dizendo desde o primeiro discurso da crise, quando defendeu que ela não é dele, mas de todo o Senado. Vista pelo ângulo do bom senso e da justiça, a posição de Sarney é razoável. Mas a justiça e o bom senso não são decisivos na política. O que vale em última instância é a força.

Um líder com a história de Sarney carrega com ele, já naturalmente, muito poder. E Sarney é mais: é o presidente do Congresso Nacional. Só que quando o poder de alguém como ele se esvai, a fraqueza transforma o ex-poderoso em alvo. E Sarney está na mira. Porque não teve força suficiente para evitar a eclosão e o desenvolvimento da crise. E porque sua atual anemia política coloca em risco a segurança de toda a alcateia.

Lutando mais uma vez pela sobrevivência, Sarney ameaça endereçar a conta para Luiz Inácio Lula da Silva. Que trabalha para remetê-la aos senadores do PT. Que por sua vez têm eleição a enfrentar ano que vem. Daí que o PT ensaie reparti-la com Lula e também repassá-la ao Democratas, o partido com cadeira cativa na poderosa primeira-secretaria do Senado, a do dinheiro. Em meio ao passa e repassa do mico, o PMDB sabe que se –e quando– as facas forem atiradas, algumas especiais estarão reservadas aos caciques do maior partido da Casa.

E a coisa não para. Até o carpete do Salão Azul já ouviu falar que o governismo prepara na CPI da Petrobras chumbo grosso, profissionalmente elaborado, contra o PSDB. Por isso também a chance apenas relativa de a investigação emplacar. Mas como ninguém pode garantir no Senado de hoje que a situação amanhã estará controlada, por via das dúvidas todo mundo vai se municiando para a guerra.

Guerras começam assim mesmo. De tanto você se preparar para ela, o inimigo acaba convencido de que você irá atacá-lo. Uma hora o conflito estoura. Pois ninguém vai ficar esperando eternamente pelo primeiro tiro vindo do outro lado. Até agora não há guerra no Senado, só escaramuças. Por isso, todos gostariam de uma solução que evitasse a carnificina. Se necessário, combater-se-ia uma guerra limitada. Mas isso exigirá que alguém tope ir para o sacrifício.

O caminho para tentar abortar a conflagração é oferecer um prêmio à opinião pública. E virar a página. O obstáculo é que nenhum dos potenciais candidatos à degola se conforma com ela. E voltamos ao começo desta coluna. A crise se arrasta. A solução administrativa não é um remédio de fato. Quando um time é rebaixado, por melhor que seja o técnico é remotíssima a probabilidade de ele continuar no cargo. Nem sempre é justo, mas infelizmente a vida é assim.

Generosidade pela metade

O presidente da República tem capitalizado, com méritos, a bela iniciativa de seu governo de legalizar estrangeiros irregulares. Ontem, Lula sancionou a medida. Para orgulho de todos que um dia fomos imigrantes, o presidente nos apresenta ao mundo como uma nação acolhedora, exceção num planeta de países cada vez menos dispostos a acolher quem vem de fora. Pena que a medida seja generosa pela metade. A lei diz que só tem direito à anistia quem chegou aqui antes de fevereiro.

De todas as “globalizações”, uma que pouco ou nada avançou foi a do trabalho. O capital ganhou nas duas últimas décadas liberdade quase absoluta para atravessar fronteiras. É uma das razões da velocidade de propagação da crise. Mas essa liberdade foi negada ao trabalho. Você acredita mesmo na ideia de globalização? Pegue um avião e tente passar no controle de passaportes nos Estados Unidos ou na União Europeia dizendo que você é um entusiasta do mundo sem barreiras e veio atrás de um emprego.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Anonymous aiaiai disse...

Perfeito Alon. Mas, faltou você se referir mais detidamente àqueles que colocaram o sarney lá. Não dá para o DEM e o PSDB quererem agora que o PT ajude a tirar o sarney. Eles precisam fazer, no mínimo, um mea culpa público lembrando a todos que foram eles que botaram o sarney lá.
O sarney foi eleito! ele não tomou o cargo a força e não foi colocado lá pelo PT.

sexta-feira, 3 de julho de 2009 07:10:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

A máxima dos últimos tempos, "todo mundo é culpado", está mais uma vez utilizada para a resolução da crise no Senado. Uma boa saída. Pode até ser o chamam de jabuticaba: uma Casa Legislativa é atravancada, não vota nada faz algum tempo ou vota de afogadilho e a estabilidade jurídica e política do País é elogiada. Tanto quanto a maturidade política.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 3 de julho de 2009 09:45:00 BRT  
Blogger Sarah Mohn disse...

Parabéns pelos artigos, parecem estar cada vez melhores.
Com destaque ao texto "Ao trabalho, Itamaratecas!"
Agora, pelo twitter, tenho acompanhado seus posts sobre as novidades no blog.

sexta-feira, 3 de julho de 2009 11:04:00 BRT  
Anonymous paulo araújo disse...

Alon

Sua análise sobre a crise no Senado é cristalina. Acrescento que ela é parte de uma crise maior e bem mais preocupante, que é a crise do Estado do brasileiro, que tende a se aprofundar, sobretudo pela nossa total incapacidade (até o momento) de pensar saídas para ela. Pior, para a maioria ela nem é reconhecida como fato.

Quanto à internacionalização do mercado de trabalho, vale destacar que ela integra perfeitamente a lógica do Capital. Os nacionalismos e protecionismos são entraves (o contingente na história). Mas se Marx estiver certo na sua dialética, a lógica da história (em Marx, lógica do Capital e lógica da contingência da luta de classes) terminará em algum momento NECESSARIAMENTE impondo-se à contingência da história. A ver.

Abs.

PS: Concordo com a crítica que diz que no pensamento de Marx persiste o idealismo hegeliano, isto é, a idéia teológica de um fundo racional do universo e que, por isso, a lógica da história (no caso de Marx, o fundo racional na etapa de desenvolvimento histórico que ele analisa e critica. Em Hegel, a necessidade culminante na epifania do Estado ) termina se impondo à contingência da história.

PS2: Concordo com o destaque de Sarah Mohn, principalmente quando se lê o referido post deste blog de esquerda em relação com todos os outros da mesma grei. Nesse sentido, nas hostes de esquerda ele é único.

sexta-feira, 3 de julho de 2009 16:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

sem querer machucar ainda mais o aiaiai, seria bom que ele se informasse melhor sobre quem apoiou a eleição do Sarney.
O PSDB votou no candidato do PT, o Sen. Tião Vianna.

sexta-feira, 3 de julho de 2009 18:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

O PT apoiou Tião Vianna juntamente com o PSDB. DEM e PMDB apoiaram Sarney. Agora, o PT, que ensaiou pedir a saída do Sarney, recuou. O DEM, pediu a saída e não recuou. O PT está na base que sustenta a permanência do Sarney, junto e publicamente, com ministros e o presidente. Além do que, se tivesse intenção, poderia lutar, no voto, por colocar um dos seus na Primeira Secretaria do Senado ou outro cargo importante na Mesa da Casa e não o fez. Quem colocou parlamentar do PT na Mesa foi o Sarney. Agora, a tática de colocar nos ombros dos outros responsabilidades que também são suas, já está velha, manjada e não se sustenta. Aliás, quem criou a culpabilização de todos por tudo tem chegada a sua hora de mostrar coerência.

Swamoro Songhay

sábado, 4 de julho de 2009 11:31:00 BRT  

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