sexta-feira, 10 de julho de 2009

E o boleto chegou (10/07)

De tanto pedir para ingressar no seleto clube, vamos acabar nele. Por isso, não se trata de continuar discutindo o “se”, mas de passar a debater o “como”. Para não sermos só um sócio-júnior

O Brasil tem-se esforçado para entrar oficialmente no clube das potências. É uma reivindicação legítima, pelo tamanho do nosso território, da nossa economia e da nossa população. Além do Brasil, só Estados Unidos, China, Rússia e Índia preenchem os três requisitos. Nós e os indianos estamos fora das cadeiras permanentes do Conselho de Segurança da ONU, pois para entrar o país precisava ter sido uma potência vencedora da Segunda Guerra Mundial (1939-45). Mesmo que não dê para considerar a França como tal. Mas os franceses estão na Europa e têm história imperial. E tiveram Charles de Gaulle.

Entre os emergentes ainda excluídos da diretoria do clube, a Índia leva sobre nós a vantagem de dominar tecnologia nuclear para fins militares. Os Estados Unidos aceitam, para manter a paridade regional com o Paquistão. No aspecto bélico-tecnológico, nossa situação é indigente. Enquanto os chineses já colocaram um homem no espaço, nós sequer conseguimos montar um foguete para levar satélites lá para cima. Nem vou falar de Estados Unidos e Rússia, esta com a herança bendita da União Soviética.

O governo repassa aos empresários dezenas de bilhões de reais em duvidosas (até Lula anda resmungando contra elas) renúncias fiscais, joga pela janela outras dezenas de bilhões com os juros siderais pagos pelo Tesouro, mas é incapaz de separar o pouco dinheiro necessário para a Marinha concluir o projeto do submarino movido a energia atômica. Nem consegue dar uma solução satisfatória para reequipar a Força Aérea. Pior: num país cheio de população jovem e desempregada, o Exército precisa cortar o contingente de recrutas porque não tem dinheiro para alimentá-los e vesti-los.

Bom seria se a energia reservada pelas autoridades para o lobby global pelo nosso reconhecimento como potência fosse também usada para mais medidas práticas, capazes de corrigir rapidamente essa e outras assimetrias. Afinal, de tanto pedir para ingressar no seleto clube, vamos acabar nele. Por isso, não é o caso de continuar discutindo o “se”, mas de passar a debater o “como”. Para não sermos apenas um sócio-júnior.

Aliás, parece que já estamos em estágio probatório. Ontem na Europa Barack Obama pediu a Luiz Inácio Lula da Silva que ajude a convencer o Irã a abandonar o programa nuclear. Os iranianos dizem que ele é pacífico, versão que não desce pela garganta de americanos, europeus e israelenses. O assunto ultrapassa as fronteiras do Oriente Médio. Está também no foco da disputa entre Estados Unidos e Rússia em torno do escudo antimísseis que Washington caminha para implantar no Leste Europeu, a pretexto de defender a Europa contra Teerã. Moscou vê o escudo como ameaça direta a seu território.

Ser jogador global tem um custo. Se você entra de sócio no clube, um dia recebe em casa o boleto com a mensalidade. O que nós ganhamos se formos arrastados para o centro da polêmica sobre o programa nuclear do Irã? Nada. Para o Brasil, importante é manter boas relações com os todos os envolvidos. E que eles resolvam o problema entre eles. Na paz ou na guerra. Não é assunto nosso e nele pouco ou nada podemos acrescentar. A não ser como portadores de recados.

O centro de nossas preocupações deveria ser manter a América do Sul como um continente inteiramente livre do terrorismo e das armas de destruição em massa. Há vizinhos, como a Venezuela, que buscam parcerias sólidas com o Irã. E interessa-nos absorver a Venezuela no Mercosul, também para tentar neutralizar o possível estabelecimento de uma cabeça-de-ponte estrategicamente antiamericana na região, fato que desestabilizaria o quadro regional e enfraqueceria nossa posição relativa.

O caso de Honduras mostra como os Estados Unidos retomam rapidamente a hegemonia no hemisfério. Em vez de embevecermo-nos com os elogios e convites, o Brasil precisaria medir cuidadosamente os passos. Para não nos transformarmos num Canadá. Ou numa Austrália. Países que são chamados para a mesa, para ajudar na aplicação de políticas que outros decidem.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Lula, é o melhor ministro de relações exteriores que o país já teve. Angariar a simpatia de presidentes americanos de política externa e ideologia tão díspares, já é um feito diplomático.

sexta-feira, 10 de julho de 2009 10:41:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Agora é chegada a hora de provar que o mercado dos EUA não é mais importante para o Brasil, conforme alardeado. Obama avisou que os EUA não retornarão tão cedo como os grandes importadores que erma antes da crise. Assim, como a China chegou a principal parceiro comercial do Brasil, chegou a hora de buscar o segundo. E este deve suportar o que os EUA deixarão de comprar. Apesar do mercado interno, não é de supor que passaríamos a consumir internamente commodities como soja, café e minério de ferro, a ponto de suprir a queda das importações norte-americanas. Japão e UE também estarão mais retraídos. Além do que, o aviso está dado: os mais ricos não têm mais como importar tanto como antes, contudo, podem exportar muito mais.

Swamor Songhay

sábado, 11 de julho de 2009 09:22:00 BRT  

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