terça-feira, 21 de julho de 2009

Culpa de todos. E de ninguém (21/07)

Recorrer a explicações culturais, além de ajudar a aliviar o passado, serve como garantia antecipada do perdão futuro

Virou moda no Brasil atribuir desvios individuais de comportamento a um traço qualquer da formação histórica nacional. A desculpa preferida é que políticos desviados do bom caminho são, na verdade, vítimas de um patrimonialismo supostamente arraigado na nossa cultura. Vítimas da falta generalizada de limites claros entre o público e o privado. É uma saída engenhosa. Se a culpa é do patrimonialismo, ela não é de ninguém. Se for de alguém, é de gente que morreu há muito tempo, e portanto não pode ser punida. Os pais da pátria, fundadores do tal patrimonialismo.

Tome-se o caso das passagens aéreas no Congresso. O deputado ou senador sabia que o dinheiro era para ser usado no exercício do mandato. O bom senso mandava que não fosse empregado para viagens com a família ao exterior, em férias. Pois passear com os familiares em Paris nada tem a ver com o mandato. Parece razoável. Então, se o sujeito pegou a grana e usou para fazer a alegria da turma de casa, isso nada tem a ver com patrimonialismo coletivo, mas com algo que está na esfera de uma decisão absolutamente individual. Fazer ou não fazer o que se sabe que não é certo.

Outro exemplo são as irregularidades do Senado. Entre elas a aberração maior, os atos oficiais a que não se deu publicidade. O que essa transgressão tem a ver com o patrimonialismo? Nada. Tem a ver com a certeza da impunidade, com a convicção de que no Brasil a Justiça tarda mais do que seria razoável, quando não falha. Mas, de novo, se o parlamentar embarga a voz para apontar o dedo ao “patrimonialismo” fica liberado de tomar as providências e de lançar o problema nas costas dos responsáveis. Confortável, não?

O mesmo truque é aplicado com outra categoria sempre à mão na hora do aperto: a reforma política. A autoridade foi pega com a boca na botija? Lamentamos, mas é culpa do nosso péssimo sistema eleitoral. Afinal autoridades não se metem em rolos para benefício pessoal, é sempre para abastecer o caixa de campanha. Ninguém compra casa, fazenda ou carro com dinheiro do caixa 2. E, quando compra, é só para vender o bem na véspera da eleição. Como se sabe, é um hábito dos políticos queimar patrimônio para financiar a carreira. Você acredita nisso?

Recorrer a explicações culturais ou sociológicas tem outra vantagem. Além de ajudar a aliviar o passado, serve como garantia antecipada do perdão futuro. Afinal, a reforma política vai demorar para sair. Enquanto ela não acontece, sua falta fica aí à disposição como desculpa. Com o patrimonialismo, é melhor ainda. Não há sinais de que para acabar com ele vá haver proximamente uma revolução cultural no Brasil. Enquanto isso, rola o som na caixa, e a festa vai a todo vapor. Se aparecer a polícia, mande reclamar com o patrimonialismo. Ou com o voto uninominal.

E a teoria vai sofisticando-se, ao sabor do momento. A melhor dos últimos tempos veio do governo, na crise do Senado. Segundo a explicação, não adianta trocar dirigentes da Casa, porque muitos já foram trocados e os problemas continuam. “Eu bebo sim e estou vivendo. Tem gente que não bebe e está morrendo.” Uma coisa é concluir, a partir do histórico, que a degola de protagonistas não é suficiente. Mas o Planalto preferiu chegar à conclusão de que não é necessária. Como se sabe, insuficiente e desnecessária são duas palavras de significados completamente diferentes. Menos na política. Quando interessa.

Como dito

Como se disse nesta coluna que certamente aconteceria, o PT do Rio Grande do Sul ignorou o calendário imposto pela direção nacional do partido e lançou Tarso Genro ao governo do estado. A situação caminha de maneira semelhante em Minas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Anonymous Deksler disse...

Alon, sempre que possível leio o seu blog. Sem dúvida um dos melhores da política brasileira. Concordo com vc quando diz que a nossa justiça tarda e as vezes (ou infelizmente, quase sempre)falha. Tenho 30 anos de idade, e no meu ponto de vista o pais melhorou muito, mesmo em relação ao Legislativo e Executivo (estamos longe do ideal, mais caminhando devagar e sempre). Entretanto a Justiça, não caminha, não evolui, Porque? Porque a grande mídia e os formadores de opinião não batem tanto na justiça como batem nos outros poderes? Siga o meu racíocinio, todo grande prêmio normalmente envolve um grande risco (explorar diamantes no meio da Africa, petróleo no fundo do Oceano), entretanto no Brasil ser corrupto só tem o prêmio, cadê o RISCO? (desvio 10 milhões e guardo 500 mil para HabeasCorpus e Advogados)Não era aqui onde a nossa Justiça deveria entrar? Gostaria que uma hora você escreve-se algo sobre isto, claro se eu não tiver falando muita besteira.

terça-feira, 21 de julho de 2009 10:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É isso aí. A melhor forma de se eximir das culpas é transferí-las para categorias mais abstratas. Uns compram essa idéia por corroborar com o descalabro, outros porque são desavisados mesmo. Portanto, eis aí mais um artigo esclarecedor, já passou da hora de darmos a César o que é de César, quer queira 'ele' quer não.

terça-feira, 21 de julho de 2009 11:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon

Não me lembro que foi que escreveu, mas estamos no país do eterno lero-lero, não é?

Não sei se é impressão minha, mas o cinismo político já não é tão tolerado. Não é só a imprensa que mete o dedo na ferida.

As pessoas já não têm tanta ilusão. Talvez ainda não tenhamos chegado ao tipping point, mas a onda está ganhando corpo.

terça-feira, 21 de julho de 2009 19:36:00 BRT  
Blogger Sarah Mohn disse...

Pode ser que "as explicações culturais ou sociológicas ajudem a aliviar o passado e sirvam como garantia antecipada do perdão futuro". Mas não ficam apenas nisso.
É obvil que numa cultura em que gerações de representantes políticos são adeptos do "jeitinho brasileiro" para benefício próprio, a tendência é a continuidade do modelo - já que até a imprensa denunciar ninguém fiscaliza nada.
Concordo que a personalidade e a moral é que fomentam desvios individuais de comportamento. Mas não é só isso. Não no Brasil.
Se as atividades políticas fossem seriamente fiscalizadas por parte do MPF, da PF, da sociedade como um todo certamente não haveria tantos escândalos no Executivo e no Legislativo. Como não é, nossos representantes entram no jogo. É como o ditado "está no inferno, abraça o capeta".
E político nunca é "vítima" de nada, nem de patrimonialismo. Por mais que esteja certo, vai ser sempre o sujeito da ação.

quarta-feira, 22 de julho de 2009 19:17:00 BRT  
Blogger Richard disse...

"Com o patrimonialismo, é melhor ainda. Não há sinais de que para acabar com ele vá haver proximamente uma revolução cultural no Brasil."

Brilahnte Alon, foi exatamente para fazer esta Revolução que votei em Lula todos estes anos (menos na última). Como não fez, nem vai fazer, VAMOS TODOS NOS...

quinta-feira, 23 de julho de 2009 14:31:00 BRT  

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