quinta-feira, 30 de julho de 2009

Ainda falta a solução (30/07)

Os senadores acham que vai ficar por isso mesmo? Eles têm estrada suficiente para saber que é completamente impossível. Não adianta enfiar a cabeça sob o travesseiro e esperar passar o pesadelo

A reação do PMDB às representações do PSDB contra o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), coloca mais lenha na fogueira da crise, mas não servirá para aliviar os problemas políticos do comandante da Casa. Nesta altura, estratégias de intimidação têm efeito relativo, porque as coisas já foram longe demais. Não há como os tucanos dizerem que vão recuar porque o líder, Arthur Virgílio (AM), está sob ameaça. Não seria defensável. Nem o próprio senador amazonense teria condições de operar o recuo, pelo risco da completa desmoralização. Para ele, o mais adequado será ir à guerra total.

O cenário então caminha para radicalizar. Há um punhado de representações contra Sarney, mas Renan Calheiros (PMDB-AL) também está no alvo. Não foi só — nem principalmente — sob Sarney que aconteceram atos secretos. De Garibaldi Alves (PMDB-RN) pode-se até aceitar, com alguma boa vontade, que não conhecia os subterrâneos da sua interinidade. O mesmo não se aplica a Renan. Se a cabeça de Sarney rolar ensanguentada para a bacia, será a senha para colocarem Renan, um ex-presidente em plena atividade e pleno poder, na fila da degola.

Sarney, Renan... Qual será o alvo seguinte? Eis uma variável fora de controle nesta confusão: ninguém sabe exatamente onde ela pode ou vai terminar. Quando Renan esteve na berlinda, dois anos atrás, ele enfrentou o processo basicamente sozinho, também porque as acusações tinham foco na sua vida pessoal. Matou no peito. Na época, Sarney simplesmente desapareceu do plenário. Mas, por diversas razões, seria difícil para o ex-presidente da República travar solitariamente agora o mesmo combate. E o assunto hoje não é pessoal, é político-administrativo, envolve a estrutura do Senado.

Escrevi aqui tempos atrás que um combustível da crise era a falta de um “Sarney do Sarney”. Algum senador com estatura política para reunir os pares e liderar a discussão sobre quem, afinal, deverá pagar a conta do furdunço. Porque, como também se afirmou aqui, alguém vai ter que absorver a dolorosa. Ou os senadores acham que vai ficar por isso mesmo? Eles têm estrada suficiente para saber que é completamente impossível. Não adianta enfiar a cabeça sob o travesseiro e esperar passar o pesadelo.

Outra complicação é o Conselho de Ética. O bloco de Sarney tem número para arquivar o que quiser, mas não reúne as condições políticas ideais para fazer assim, a seco. O presidente do conselho, por exemplo, é acusado de colocar um funcionário fantasma pendurado no próprio órgão, ainda que a nomeação tenha acontecido antes de Paulo Duque (PMDB-RJ) assumir o comando do colegiado. Então, se o PMDB vai representar contra o líder do PSDB por ter mantido um fantasma, é bem possível que o próprio Duque seja alvo de uma representação semelhante Por isonomia.

Isso enfraquece a possibilidade de Duque simplesmente jogar ao arquivo o que for inconveniente ao PMDB do Senado. Até porque ele é segundo-suplente do hoje governador do Rio, Sérgio Cabral. O primeiro suplente está alojado no secretariado fluminense. Mais sombras de confusão. Dois anos e meio após deixar o Senado, Cabral é outro candidato a absorver parte dessa conta. E com uma reeleição para disputar ano que vem. Isso para não falar de Luiz Inácio Lula da Silva, que parece cada vez mais incomodado com o pessoal da bagunça sacando dia sim outro também na gorda popularidade presidencial.

A solução lógica seria Sarney abrir mão da Presidência e negociar um processo suave no Conselho de Ética, sem maiores constrangimentos pessoais. Com uma absolvição garantida em plenário. Nesta altura, o próprio governo — que tem maioria no Senado — já começa a cultivar a possibilidade, com o cuidado de não dar sinais de estar sacrificando o aliado antes da hora. Mas todo político sabe: quando começa a conversa sobre a sucessão, é porque o quadro mudou.

Vapor e contravapor

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva espera dar um calor na oposição em 2010 com a inauguração de belas obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Já a oposição afia as facas para provar que o governo é só conversa, e que nada sai do papel. Este vai ser um semestre daqueles para a ministra-chefe da Casa Civil e candidata de Lula ao Planalto, Dilma Rousseff. A vantagem é que poucas vezes um político teve, como ela tem hoje, tantos e tão bons instrumentos para influir no próprio destino.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliesne.

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

teste

quinta-feira, 30 de julho de 2009 09:40:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Nao da pra aceitar esse jogo sórdido para sempre. Tem que haver um meio de vence-lo, mesmo q seja com algum recuo, para abater o inimigo mais adiante. As raposas politicas da situaçao que pensem nisso. Instrumentos tem e Lula no segundo semestre de 2010 não precisará mais ter a mesma liturgia
do cargo para nao reagir.

quinta-feira, 30 de julho de 2009 13:56:00 BRT  
Anonymous Vinícius Duarte disse...

As ultimas notícias vindas do Senado só são mais uma prova, que recebemos todos os dias mesmo no recesso, que o jogo político é feito pelo sistema da conveniência. Mesmo quando era apenas o PSDB(como partido) fazendo as denúncias, eu, e qualquer um que conheça política, já sabia que não as faziam em nome da moralidade e sim em nome da derrubada de Sarney. Mas quando o PMDB apareceu ameaçando retaliar, nem mais fachada de moralidade era possível se colocar nessa questão.

quinta-feira, 30 de julho de 2009 18:57:00 BRT  

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