terça-feira, 9 de junho de 2009

Sem uma direita nacional (09/06)

Faltam no Brasil conservadores como os da Europa, capazes de recolher o sentimento nacional em defesa do mercado interno, do emprego e do progresso

Cesar Maia informa em seu ex-blog (uma newsletter): a oposição está mergulhada na análise dos números das pesquisas que dão imensa popularidade a Luiz Inácio Lula da Silva. Levantamentos que também confirmam a ascensão de Dilma Rousseff na corrida presidencial. Se a oposição cair na real, será saudável. O primeiro passo para superar uma grave dificuldade é admitir que ela existe, e sua gravidade.

Analisar pesquisas é importante, mas a oposição deveria dar também uma olhadinha no resultado das eleições para o Parlamento Europeu. Ganharam os conservadores, a direita. E isso em meio a uma crise mundial que não deixa pedra sobre pedra do edifício liberal e globalizante. Já no Brasil os números mostram recuo da produção industrial pelo sétimo mês consecutivo. E o PIB que vem por aí (janeiro a março de 2009) virá feinho, feinho. A realidade é sempre mais fiel a ela mesma do que aos discursos.

Por que a direita derrotou a esquerda nas eleições europeias? Em cada país havia um motivo, mas, como regra, a social-democracia do velho continente é mais cosmopolita, mais global, mais multiculturalista do que a direita. Já que precisamos colocar rótulos, na Europa a esquerda defende uma globalização “de face humana”. Em oposição à globalização “realmente existente”, vinda dos Estados Unidos. Pode não ser o que a social-democracia europeia pensa e diz de si própria. Mas é o que ela faz.

Já a direita europeia é, digamos, menos contemporânea. Ao derrotar a esquerda em plena crise mundial do capitalismo, o eleitor europeu deu o recado. Disse que prefere a agenda do emprego, da defesa do mercado nacional e dos valores nacionais. As forças e partidos políticos que tinham massa crítica para recolher essa preferência se deram bem. Circunstâncias históricas levam a que na Europa (diferentemente da América Latina) haja uma direita francamente nacional. Fenômeno mais pronunciado na França, no Reino Unido e na Espanha, para ficar nos grandes países.

De volta à terra. Neste fim de semana, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu artigo propondo que o Brasil assuma a dianteira no estabelecimento de metas de carbono para os países emergentes. E, no Senado, o PSDB juntou-se ao PT na campanha para demonizar a medida provisória que legaliza terras na Amazônia, um projeto essencial para a ocupação sustentável no norte brasileiro e para a reforma agrária. Esta, vejam só, é a nossa oposição.

Sempre me espanta, como agora no artigo de FHC, que os movimentos em defesa do meio ambiente falem tanto da Amazônia e tão pouco, por exemplo, do desastre nacional no saneamento básico. Lógico, pois as proeminências do ambientalismo brasileiro (seria um exagero dizer “nacional”) têm em casa água, esgoto, luz elétrica, ar condicionado, internet. Têm também bons carros, mandam os filhos às melhores escolas e contam com excelente atendimento médico-hospitalar quando ficam doentes. Em suma, são emissores privilegiados de CO2 abundante, vivem no conforto do progresso.

O mesmo progresso que, a pretexto de defender o planeta contra o aquecimento global, negam aos pobres (e às regiões pobres). Do que o Brasil precisa não é conter o crescimento para ajudar a humanidade. Precisamos é exigir dos desenvolvidos que freiem o consumo deles, para abrir espaço à prosperidade de quem vive abaixo do aceitável. Isso seria fazer justiça.

É possível que a oposição brasileira se anime com o resultado das eleições europeias. O problema, porém, é que nas teses, nos discursos e na praxis PSDB e Democratas estão a anos-luz de conseguir recolher o desejo difuso de uma agenda verdadeiramente nacional. Aliás, quem mais procura se aproximar dessa pauta é a ministra Dilma Rousseff, com o Programa da Aceleração do Crescimento (PAC). Que tem lá os problemas dele, mas pelo menos coloca o progresso civilizatório como ponto central da discussão política.

Uma revolução
O Congresso Nacional ensaia liberar a internet nas campanhas eleitorais. Seria uma revolução, o início do fim deste nosso sistema em que o eleitor fica refém dos políticos e dos marqueteiros.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Blogger Leonardo Bernardes disse...

Seu argumento é ótimo, Alon, e quem te acompanha faz tempo sabe que não é de hoje que você ressalta essa direita nacional -- isso, salvo engano, você tratou especialmente por ocasião das eleições na França.

Mas quando você vincula as queixas dos ambientalistas aos confortos que eles usufruem, cai na tentação da falácia ad hominem -- além de jogar pedra em muita gente boa, com bons argumentos. Sem falar na generalização apressada.

Estou certo de que há bons argumentos nos dois lados, mas nenhum passa por essa caricatura.

terça-feira, 9 de junho de 2009 01:36:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Boa, Alon, veja o Estadao de hoje:

O Estado de S. Paulo

Vitória do populismo, radicalismo e eurocéticos
Data: 09/06/2009

Gilles Lapouge
Nenhuma surpresa. Os conservadores triunfaram nestas eleições europeias em quase todos os 27 países-membros. Mas esse resultado é paradoxal.
A crise financeira, que teve origem nos bancos americanos, não levou à condenação do liberalismo econômico pregado pela direita, de Ronald Reagan e Margaret Thatcher a Angela Merkel e Nicolas Sarkozy. Isso porque, há seis meses, os governos de direita reagem com inteligência e brio. Sacudidos pela crise, aplicaram remédios dignos de intervencionistas de esquerda. Hoje, não se sabe mais em que partido se oculta o "liberalismo" econômico.
O resultado nos ensina que a fé na Europa vacila, o que é mostrado por dois índices. O primeiro é o nível sem precedente de abstenção: 60% dos cidadãos europeus não se preocuparam em sair de casa para votar.
O segundo é o avanço da extrema direita e eurocéticos (os que não acreditam no bloco ou querem destruí-lo). O caso mais espantoso é o da Grã-Bretanha, onde o Partido Trabalhista só reuniu 15,3% dos votos. Uma derrota tão amarga que a pergunta é se o premiê Gordon Brown conseguirá sobreviver.
Quem se beneficiou da queda trabalhista foi a direita e os eurocéticos. O Partido Conservador, adversário tradicional dos trabalhistas, ficou em primeiro ao arrebanhar 28,6% dos votos. Mas o partido de Brown não conseguiu nem o segundo lugar; foi derrotado pelo Partido da Independência Britânico (UKIP), que obteve 17,4% dos votos. O UKIP exige simplesmente a saída do país da União Europeia (UE).
Outro caso inquietante é o da Holanda, onde o Partido para a Liberdade (PVV), liderado por Geet Wilders, seduziu 17% dos cidadãos, ficando próximo do governista Partido Democrata-Cristão. O líder do PVV, um tribuno da direita mais primitiva, urra contra os imigrantes e contra a UE, a quem culpa por abrir as portas da Europa para as hordas do Terceiro Mundo.
Wilders seduziu com um discurso rudimentar. Afirmou que o Alcorão é um "livro fascista" e foi processado por incitação ao ódio. Mas isso não o perturbou. Para ele, "as pessoas estão fartas da Europa como se apresenta hoje, uma imensa Europa, com a possível entrada da Turquia, para a qual os holandeses já contribuíram com bilhões".
Mais do que um grande sucesso dos conservadores e um recuo geral dos socialistas, as eleições nos mostram cenários muito inquietantes: o avanço do populismo, a consolidação da direita radical e, sobretudo, o florescimento tumultuoso das formações antieuropeias.
* Gilles Lapouge é correspondente em Paris

terça-feira, 9 de junho de 2009 09:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Apesar de merecerem ser olhadas com certa atenção as eleições européias, o aspecto que o post levanta sobre o saneamento básico é o mais importante. É uma falência total em todo o País. Passou a tramitar no Congresso um projeto sobre a regeneração do Rio São Francisco. O diagnóstico do autor do projeto aponta que centenas de cidades ribeirinhas despejam lixo e esgoto in natura no rio. Matas ciliares estão sendo destruídas, bem como as nascentes sofrem forte processo de degradação, tanto quanto o próprio leito. Apesar disto tudo, fala-se da transposição do rio como se tais aspectos graves não existissem. A julgar, também, o fato de que várias hidrelétricas são planejadas ou já estão instaladas, porém sem eclusas que permitiriam a navegabilidade, não dá para saber se tais planejamentos são coisas de direita ou de esquerda. Nesta questão do meio ambiente x desenvolvimento econômico, as posições das Senadoras Kátia Abreu e Marina Silva, cada uma a seu modo, parecem ser as que esforçam-se em dizer e propor algo mais coerente sobre o assunto. O posicionamento delas em termos políticos passa a segundo plano dado o gigantismo dos problemas envolvidos. Tomara que o gigantismo delas, em defender corajosamente suas posições, possa superar o pernicioso gigantismo que insiste em considerar o cidadão como estorvo.

Swamoro Songhay

terça-feira, 9 de junho de 2009 10:38:00 BRT  
Anonymous Samuel Vidal disse...

Caro Alon,
Primeiramente quero dizer que combater o desmatamento na amazônia não exclui a necessidade de se levar saneamento ambiental para 50% da população brasileira. Acredito que as hidrelétricas da Amazônia projetadas em sua maioria tem um excelente custo benefício entre energia gerada e área alagada. Quanto ao desmatamento predatório da amazônia ele é totalmente dispensável do ponto de vista econômico, pois pode-se extrair a mesma madeira comercialmente viável sem destruir mais de 90% da mata, com o bônus que em 20 anos a madeira comercial pode ser extraída novamente. No entanto perde-se o ganho econômico durante 20 que a pecuária e a soja pode proprocionar na área desmatada predatoriamente. Por outro lado o grosso do ganho econômico é a madeira frente a soja e o gado. Acredito que a melhor solução é que exploremos a madeira de forma sustentável e que nós, eu e você, classe média com boa qualidade de vida movida a carbono (até certo ponto porque consumimos energia hidrélétrica e andamos com carro a álcool, temos 46% de energia renovável no Brasil) paguemos para os produtores da amazônia para que eles mantenham a floresta em pé, coisa que o governador Blairo Maggi do Mato Grosso defende. Quando se defende que o governo deve investir nesse tipo de política, se pressupõe que nós classe média ambientalista que paga imposto financiará esse tipo de política. Quanto a agropecuária, as terras abandonadas e as utilizadas para criar 0,7 boi por hectare, podem ser utilizadas para aumentar o plantio de soja e se criar 3 bois por hectare sem ração externa.
Podemos também fazer o que você defende: os países ricos devem diminuir fortemente suas emissões para compensar seu passado sujo em carbono e os países em desenvolvimento devem ter permissão para poluir e se desenvolver. China e Índia devem continuar crescendo consumindo o sujo carvão e nós devemos transformar a Amazônia num celeiro agrícola que nos colocará na liderança do agronegócio global. O problema dessa visão é que em 2030 mais de 50% do PIB global pertencerá aos países emergentes e o índice de emissão de gases estufa em relação ao PIB será bem maior do que o índice dos países ricos, tornando qualquer acordo de redução de emissões sem os países em desenvolvimento inviável. Acredito que os países ricos devem financiar parte das emissões dos países pobres, mas financiar toda a sujeira é algo completamente inviável.
O pior de tudo é que a escolha dos países pobres e dos países ricos por combustíveis fósseis pode se tornar um processo de empobrecimento global nas próximas décadas se ocorrerem grandes especulações com o preço do petróleo. A consultoria McKinsey num estudo de 2009, mostra que com o preço do barril do petróleo a 120 dólares, a solução economicamente mais viável nas próximas décadas é descarbonizar a economia, imagine um barril de petróleo a 200 dólares. Quanto ao Brasil, celeiro do mundo, o desmatamento da amazônia gerará grandes perdas pluviométricas no norte, no centro-oeste, no sudeste e no sul nas próximas décadas. É ganhar agora para perder em 2040, e lá Alon você estará bem velhinho mas eu ainda estarei jovem com 58 anos...

terça-feira, 9 de junho de 2009 12:56:00 BRT  
Blogger Sarah Mohn disse...

Conclusão? Ficamos, nós brasileiros, apenas com a nova centro-esquerda lulista? E dá-lhe Dilma.

Esqueci-me aonde li a perfeita tradução da sigla PAC - Programa de Aceleração da Campanha.

Como dizem: "É. Pois é"

Sem a "Direita Nacional", a pré-candidata à presidência abusa das estratégias. Agora, como publicado no próprio site do Correio, Dilma se alimenta das indenizações pelas torturas sofridas na Ditadura Militar.

Antevejo o slogan em 2010:

'Dilma, nossa heroína brasileira! A mulher que venceu um câncer e superou as torturas na Ditadura Militar'.

E o grande pública vai ao delírio...

terça-feira, 9 de junho de 2009 16:44:00 BRT  
Blogger Richard disse...

Como meu comentário ao póst anterior ainda não foi publicado, segue um resumo:
1- A MP 458 NÃO TRATA da Reforma Agrária. Ela tenta por ordem na bagunça fundiária e, se for aprovada com so cortes propostos pelo ministro Minc, talvez funcione.
2- Esta escolha entre desenvolver ou preservar é estúpida, para dizer o mínimo. É evidente que as pressões econômicas para adotar-se um modelo exploratório são grandes. como o foram ao longo de nossa história... e a riqueza gerada no passado fez a fortuna da Europa de hoje.
Quanto ao resultado das eleições na UE, nada imprevisível para mim. Aliás, muitos comentarisatas de esquerda (Carta Maior) são unânimes em reclamar às lideranças de esquerda (mundial) uma total apatia e falta de argumentos para enfrentar (mais uma) crise institucional do capitalismo.
Daí que, qq político que fale ao povo, em linguagem simples e direta e que pareça estar "no controle" da situação, tenha sucesso. EPA, mas este é o caso do presidente Lula!!! Bem... tá explicado o título do seu post!
abçs, Richard

terça-feira, 9 de junho de 2009 16:53:00 BRT  
Blogger Sergio Leo disse...

Querido Alon, essa sua crítica à fixação na Amazônia e a falta de uma agenda ambientalista nacional para enfrentar a corrosão ambiental nas cidades me fez lembrar uma conversa com um dirigiente de ONG, dia desses. Ele me falava que a sucursal da ONG, na Áustria, estava falida, sem grana, sem doadores. Fez uma campanha em defesa da Amazônia (!) e encheu as burras de dinheiro.

Mas acho que a oposição pode ir bem aí, essa questão ambientasl é um calcanhar de aquiles do governo, apesar dos esforços do Minc. Só que acho que isso não dá muito voto, partindo de quem enfrenta estudante com bomba de gás lacrimogêneo...

quinta-feira, 11 de junho de 2009 18:01:00 BRT  

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