quinta-feira, 4 de junho de 2009

Peixes ornamentais (04/06)

O mais recente refúgio de Carlos Minc é bater boca com o agronegócio. Já que não se pode fazer muito, que se fabrique então uma polêmica

E deu errado. Os produtores de etanol trouxeram ao Brasil o ex-presidente americano Bill Clinton, para ele falar bem do produto. Digamos que o marido de Hillary não chegou a falar mal do nosso álcool, mas deu o recado: os Estados Unidos (e a Europa) acham que uma explosão da demanda mundial pelo combustível de cana brasileiro vai pressionar a fronteira agrícola em direção ao norte, à Amazônia. A pressão virá da cana, do boi e da soja. Ou dos três juntos. Ninguém vai deixar de comer só para andar de carro a álcool.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva gosta de repetir que no Brasil há terra sobrando para plantar cana-de-açúcar. Onde está essa "terra sobrante", ninguém sabe, ninguém viu. Se temos áreas ociosas e improdutivas (os tais "pastos degradados") em grande quantidade, então talvez seja o caso de demitir o ministro do Desenvolvimento Agrário, que deveria estar fazendo as devidas desapropriações, como determina a lei. Mas isso é só um floreio verbal meu. Guilherme Cassel pode dormir tranquilo. Essa terra toda só existe nos discursos de Lula.

São os limites do marketing. Clinton não é político brasileiro, não está mesmerizado pelo "cara". Nem parece interessado nas rentáveis parcerias -inclusive eleitorais- com o nosso setor sucroalcooleiro. Daí que tenha, para tristeza dos anfitriões, repetido o óbvio. As terras agricultáveis aqui são finitas, e ainda está por ser demonstrado que o aumento da produtividade da cana brasileira pode atender o mercado mundial sem elevação significativa da área plantada.

No front ecológico, tem sido inviável para o presidente da República fazer o costumeiro: acender uma vela a Deus, outra ao diabo e seguir em frente na base da conversa. Em 2003, o governo praticamente entregou a área aos movimentos do setor. Para, na sequência, iniciar um sistemático desmonte da agenda ambiental brasileira de matriz global. Em entrevista recente ao jornal Valor Econômico, a ex-ministra e senadora Marina Silva (PT-AC) registrou o fato. Não foi contestada.

Onde está o problema? Como tem sido dito aqui, é impossível a um país com as nossas desigualdades e a nossa demanda por progresso aceitar o cardápio do "nada pode", que nos é servido como a quintessência da responsabilidade ambiental. Hidrelétricas, especialmente na Amazônia? Não pode. Usinas nucleares? Não pode. Estradas? Muito difícil. Hidrovias? Nem pensar. Déficit de casas? A solução depende de licença dos órgãos ambientais. E por aí vai. Nenhuma nação com autoestima e ciosa de sua soberania pode se dobrar diante de uma lógica assim. Muito menos um país com nossa quantidade de pobres. Um governo brasileiro que acolha a pauta do "nada pode" estará condenado à morte política.

Risco que corre o ministro Carlos Minc. Quando substituiu Marina, o perigo estava bem claro. A senadora pediu o boné para não virar um peixinho ornamental no aquário da Esplanada. No caso de Minc, talvez o cálculo de Lula embuta a suposição de que o ministro dá mais valor ao cargo do que à biografia. Verdade que Minc tem procurado lutar no terreno verbal. Seu mais recente refúgio é bater boca com o agronegócio. Já que não se pode fazer muito, que se fabrique então uma polêmica. O que, de quebra, ajuda a segurar um pouco mais a cadeira.

Desde o início de seus já seis anos e meio no terceiro andar do Palácio do Planalto, Lula decidiu a favor do agronegócio todas as disputas internas. Começou lá atrás, com as medidas provisórias da soja transgênica e com a nova Lei de Biossegurança. E a tendência se consolida a cada episódio, a cada divergência.

Mas por que Lula segue esse caminho? Talvez porque do outro lado não lhe ofereçam uma agenda factível, compatível com o projeto nacional de desenvolvimento. Ou pelo menos com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a plataforma eleitoral da candidata dele à sucessão. Lula é obcecado por soluções intermediárias, por consensos, por meios-termos. Mas não tem vocação para o suicídio político.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Anonymous RB de Mello disse...

Corrija uma injustiça histórica, por favor.
O agachamento começou com o Decreto (4592/03) autorizando a importação de pneus usados.
Resolveu-se, assim, um problema dos outros para depósito de lixo: no Brasi
Atendeu-se ao lobby da empresa amiga BS Colway Remoldagem de Pneus Ltda. Vide FSP, 13/02/03, Cotidiano, pg C10).
Na mesma direção caminhou o Senador Flavio Arns (PT/PR)) com o PL nº 216/03.
Marina quase nem reclamou. E mais ninguém. De lá para cá... piorou.

quinta-feira, 4 de junho de 2009 08:03:00 BRT  
Blogger Fernando disse...

Alon, recomendo antes de escrever coisas como estas,fazer uma pesquisinha basica. Coisa que aluno de economia faz nas aulas de economia agricola, mesmo nao gostando da materia.

O presidente se baseia, nao na sua cabeça,mas nas estatisticas sobre o setor agricola do IBGE. Sim o Brasil possui toda essa terra disponivel.

Se há uma critica a ser feita, é de se perguntar se o Presidente, ou o PT, ou a oposição vai ter coragem de enfrentar os proprietarios que agem como especuladores (pois o imposto sobre terras não é progressivo) pra colocar toda essa terra no mercado.

Outra coisa, que me vem a cabeça frequentemente é que, uma solução para os ambientalistas é subistituir a bancada ruralista. O governo só cede ao Agronegocio, por um motivo, é que se existe um grupo organizado politicamente sao os ruralistas. Mais que a FIESP. Entao antes de criticarmos os refinanciamentos ad eternum do agronegocio via BB, ou a leniencia dos orgaos fiscalizadores com os impactos ambientais dessa atividade, devemos pensar em como ficaria o Governo com esse grupo contra.

Aumentar a bancada ambiental é o primeiro passo pra um novo modelo de produçao. Mas pra isso, os eco-xiitas vao ter que apresentar propostas factiveis à populaçao. Coisa q eu duvido.

quinta-feira, 4 de junho de 2009 09:53:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Decidir a favor do agro negócio,por si só, é uma confirmação do bom senso, e um afastamento salutar do modismo "mascavo", que acomete nostálgicos do "bichogrilismo".Lula ,ilustrou com uma historieta, a do "sapito",
ao presidente da Costa Rica,circundantes e jornalistas,o absurdo e o ridículo unidos em prol do "meio ambiente".

quinta-feira, 4 de junho de 2009 10:54:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Fernando, terra utilizada para criação extensiva de gado não pode ser considerada ociosa. Se o gado sair dali ele vai ter que ser criado em outro lugar. Ou vai ter que haver transformaçào de criação extensiva em intensiva. Claro que o governo poderia resolver isso atualizando os índices de produtividade e fazendo a reforma agrária. Só que não faz. Então, meu caro, se as "terras sobrantes" não existem para efeito de política oficial, elas tampouco podem ser invocadas para explicar por que a expansão da cana não afetaria a floresta, as terras indígenas e as áreas de preservação. É simples. Não dá para querer ao mesmo tempo comer a galinha e esperar que ela bote ovos.

quinta-feira, 4 de junho de 2009 11:09:00 BRT  
Anonymous Samuel Vidal disse...

A plataforma dos ambientalistas brasileiros está fadada ao fracasso
porque é muito sectária. Se foca num número infinito de questões, como o sapo da estrada. A plataforma ambiental deveria focar no desmatamento zero. Para isso acontecer é necessário lançar fogo em um alvo: na criação de gado. A pecuária é a atividade rural que gera menos lucro por área, a mais predatória, a que necessita de mais terras. A meta do governo deveria ser estabilizar o rebanho bovino na amazonia e aumentar o número de animais por hectare. Já as hidrelétricas são na realidade protetoras da floresta: geram empregos nas cidades amazônicas com baixo impacto ambiental. As usinas do rio madeira vão gerar 20 bilhões de reais em investimentos através da criação de lagos artificiais pequenos. Depois virão os royalties da energia,a arrecadação de impostos... Já pensou a área que precisaria ser desmatada para criar gado e gerar essa renda?

sexta-feira, 5 de junho de 2009 22:13:00 BRT  

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