sexta-feira, 5 de junho de 2009

O "soft power", um sucesso latino (05/06)

A decisão da OEA de abrir as portas para uma Cuba que incorpore regras do jogo democrático é um gol e tanto da diplomacia de Barack Obama e Hillary Clinton

Barack Obama fez sucesso ontem no Cairo, mas a América Latina é o lugar onde a opção obamista e hillaryana pelo "soft power" está trazendo resultados mais rápidos e visíveis. A expressão designa o uso preferencial do dinheiro e da conversa, em vez das armas, para ampliar o poder e a influência de um país. Quem utiliza muito é a China. Hillary Clinton empregou o termo quando foi sabatinada antes de assumir o comando da política externa americana. E as duas palavrinhas ficaram como marca de fantasia para diferenciar do antecessor, George W. Bush.

Quais são os objetivos estratégicos dos Estados Unidos na América Latina? Manter a área de influência e evitar que vire plataforma hostil à segurança nacional estadunidense. Causa alguma tristeza nas elites locais, mas desde o fim da Guerra Fria importa menos a Washington se os governos aqui são de direita ou de esquerda, desde que não criem confusão. Desde que a região continue livre das ditaduras, das armas de destruição em massa, do terrorismo e das aventuras bélicas. E desde que nossos mercados estejam bem abertos para os negócios das empresas americanas. Valia com Bush, "amigo de infância" de Luiz Inácio Lula da Silva. Vale com Obama.

Não que Washington tenha estado imune às derrapagens. Como quando saudou alegremente a deposição de Hugo Chávez, apenas para ficar com cara de tacho ao ver o venezuelano de volta ao poder horas depois. Ou quando deu uma mãozinha aos separatistas da meia-lua boliviana. Eram tempos republicanos, de mais ativismo político (e menos pragmatismo) nas relações. Outros tempos.

Agora, com Obama, o ambiente está algo mudado. Mudou o jeito de a Casa Branca se aproximar dos objetivos. Muita conversa, muita simpatia, muita compreensão e a oferta de bons negócios. A força bruta continua disponível, só que não é mais argumento primário de persuasão. Sempre há a possibilidade de o cenário desandar (como na hipótese de uma parceria bélica entre a Venezuela e o Irã), mas colocar esse temor no primeiro plano do teatro diplomático seria um sinal de fraqueza.

E Cuba? A ilha está no limbo desde a Guerra Fria, quando a liderança da Revolução Cubana aderiu ao marxismo-leninismo e se alinhou à União Soviética. Esta semana, a Organização dos Estados Americanos (OEA) abriu as portas para o país de Raul Castro reintegrar-se ao sistema hemisférico, desde que adotadas normas do jogo democrático. Um alívio para Cuba, mas relativo. Teria sido um triunfo completo de Havana se não houvesse condicionantes. Só que há.

Em meio a mais uma gravíssima crise econômica interna, o Partido Comunista quer evitar o debate sobre a alternância no governo. O projeto desenhado na sucessão de Fidel é claro: transferir o poder pessoal dele para o partido, buscando caminhos de progresso e bem-estar que mantenham coesa a base social do regime. Se os Estados Unidos copiam a China no "soft power", Cuba tenta copiar dos chineses um sistema que combina monopólio de poder e prosperidade.

É natural Cuba preferir uma América que lhe dê plenas oportunidades de progredir sem pedir nada em troca. E é também natural que os Estados Unidos adotem uma posição diferente, até para enfraquecer na região a influência dos adversários mais renhidos de Washington. A disputa em torno do fim da exclusão de Cuba da OEA era essa, e foi de certo modo vencida pelos americanos. Que viram prevalecer a tese da "soberania relativa", segundo a qual os assuntos políticos internos de um país não dizem respeito apenas a ele. Assim, Obama pôde operar um recuo histórico sem ter de arcar com custos tangíveis.

Na política, como na guerra, organizar uma retirada sem baixas é uma vitória e tanto. Para as potências, então, costuma ser vital. Que o diga o Império Britânico. Não resta dúvida: com o importante apoio do Brasil, o "soft power" de Barack Obama e Hillary Clinton já é um grande sucesso nas paradas latinas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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1 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Há já algum tempo que sou leitor de sua coluna no Correio, embora não o conhecesse. O que me atrai nos seus textos são qualidades que há muito não consigo encontrar nos jornais brasileiros: erudição sutil, honestidade intelectual, raciocínio e argumentação e uma capacidade de apreender os fatos que me deixaram surpreso ao acompanhar uma indicação do site do Noblat para o seu e descobrir que você é de esquerda e, muito pior, já carregou tintas e instrumentos bem mais vermelhos.
É isso mesmo, você é um autêntico “de esquerda”. Se for, acho você está muito deslocado (e mal acompanhado) por você é muito lúcido e coerente
Rubens Oliveira

sábado, 6 de junho de 2009 20:24:00 BRT  

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