quarta-feira, 17 de junho de 2009

O que muda. E o que não (17/06)

É difícil acreditar que nenhum senador conhecia o que se passava no seu lugar de trabalho. Mais difícil ainda será provar que algum deles sabia o que acontecia

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), assumiu ontem o compromisso político de abrir a mais fechada caixa preta da Casa: a relação de funcionários e o rendimento de cada um. A crise parece mesmo grave. Entra escândalo, sai escândalo, e essa informação continua trancada a cadeado. O fato de Sarney ter se comprometido agora a divulgá-la é o melhor sintoma de que o desgaste político dele e da instituição alcançaram novo patamar.

Será uma mudança e tanto. Se for concretizada, vai representar um salto gigantesco na transparência. Se não for, a situação do presidente do Senado ficará muito difícil.
Vamos aguardar. E cobrar também as demais medidas administrativas para atacar o descalabro, a começar dos incríveis atos secretos. Quando Sarney venceu Tião Viana (PT-AC) em fevereiro e assumiu o comando da Câmara Alta, escrevi aqui que seria um erro subestimar a capacidade que tem o ex-presidente da República de interpretar sentimentos de mudança, e de a eles se adaptar.

Se quiser de fato agir, Sarney tem o essencial: as condições políticas. Porque no Senado há pelo menos uma coisa que não vem mudando, apesar dos terremotos: o grupo de Sarney e Renan Calheiros (PMDB-AL) continua tendo a maioria dos votos em plenário. Nesse fato esbarraram as tentativas de cassar o mandato de Calheiros em 2007. Também aí morreu o projeto petista e palaciano de instalar na Presidência do Senado em fevereiro último um nome do PT.

Outro elemento favorável a Sarney é não haver alternativa viável. Os generais adversários estão todos atingidos de algum modo. Quem se levantará para reivindicar, para si ou para um dos seus, a cadeira de Sarney? O que abasteceu jatinho com verba de passagens aéreas? O que mandou a namorada ao exterior à custa do erário? Ou o que emprestou o telefone celular funcional para a filha viajar ao exterior – ato que poderia até ser explicado como uma emergência, caso a conta não tivesse montado a muitos milhares de reais?

É difícil acreditar que nenhum senador conhecia o que se passava no seu lugar de trabalho. Mais difícil ainda será provar que algum deles sabia o que acontecia. A não ser que funcionários públicos cujo pescoço está a prêmio decidam falar. E mesmo nesse caso precisará haver provas. Melhor cultivar a cautela. Uma regra de ouro na política é cada um administrar a própria desgraça. Até para ser merecedor do respeito dos pares.

Sossega leão

Outro abacaxi a descascar no Senado é a CPI da Petrobras. A tática do governo, de protelar, não é nova. Já foi usada na CPI dos Bingos, no começo de 2004. A instalação só aconteceu após determinação do Supremo Tribunal Federal (STF), um ano depois. O problema, para o governo, foi que uma vez instalada ela acabou encavalando com as CPIs dos Correios e do Mensalão, criadas na esteira das acusações feitas pelo então deputado Roberto Jefferson.

O ideal para o Palácio do Planalto será instalar a CPI da Petrobras e então matá-la. Impedi-la de funcionar na prática e votar um relatório a toque de caixa, para evitar que fique ali como ameaça potencial. Esse cenário dos sonhos do governismo depende da solidez da aliança PT-PMDB. Solidez que não existe. Na dúvida, resta ao governo a obstrução.

Já houve no período Lula um momento assim. Foi depois da eleição de Severino Cavalcanti (PP-PE) para a Presidência da Câmara dos Deputados, em 2005. O governo não possuía ali maioria para aprovar nada, mas tinha forças suficientes para obstruir. É essa a situação na CPI da Petrobras.

Mas se na CPI o governo não pode ainda fazer tudo o que quer, nos bastidores segue de vento em popa a operação sossega leão. Os principais fornecedores da Petrobras, incluídas as empresas de infra-estrutura, têm garantido aos senadores, inclusive da oposição, que não faltarão recursos para a campanha eleitoral do ano que vem.

Uma motivação para instalar a CPI foi o temor oposicionista de que a Petrobras excessivamente solta, politicamente falando, pudesse ser usada à vontade pelo oficialismo para desequilibrar o jogo eleitoral. A julgar pela movimentação atrás das cortinas, esse objetivo da oposição (de conter o unilateralismo da Petrobras) está muito perto de ser alcançado.

Daí a repentina paz em torno da CPI.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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