quinta-feira, 18 de junho de 2009

A liberdade do adversário (18/06)

As pessoas adoram a internet, desde que ela sirva aos seus propósitos. Já quando pode ser usada pelos adversários, ela é odiada. É uma contradição curiosa, mas previsível

Em meio a contestações sobre o recente resultado eleitoral, o governo do Irã vem cerceando o trabalho da imprensa e tentando limitar o fluxo de informações pela internet. O mundo mudou com as novas tecnologias da informação, mas ainda é possível em algum grau estabelecer restrições à atuação do jornalismo dito empresarial. Mais difícil de conter, entretanto, é a atividade jornalística difusa, pulverizada, exercida pelo cidadão comum. Graças exatamente à popularização da internet.

A principal novidade introduzida pela rede global digital é a redução do custo de distribuir informação. Essa queda levou ao colapso a tradicional unidirecionalidade ensinada nas escolas. Na prática, é possível dizer que todo mundo hoje em dia pode ser um jornalista. Inclusive para criticar os jornalistas e o jornalismo. Somos profissionais que ao longo do tempo nos acostumamos a dar a última palavra sobre tudo. Agora, devemos nos adaptar ao fato de que nosso veredito, além de não mais ser o último, está, com a internet, a anos-luz de ser o único.

A nova realidade vem sendo recebida com satisfação por quem habita o polo da contra-hegemonia. Quem está por baixo, quem se sente esmagado pelo pensamento único dominante, esse adora a internet. Já quem tem o domínio dos canais ditos hegemônicos, esse a vê com desconfiança. Dia sim outro também tem gente falando mal dos blogs. E no Senado Federal [correção: é na Câmara dos Deputados] está para ser votado um texto com restrições ao uso da rede. A proposta, do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), é draconiana, completamente inadaptada aos novos tempos. Por isso mesmo tem chance de passar. Ainda mais no Senado que aí está [na Câmara, claro].

Comum é a posição do sujeito oscilar de acordo com as conveniências. Ele adora a internet, desde que sirva aos seus propósitos. Já quando pode ser usada pelos inimigos, ele a odeia. É uma contradição curiosa, mas previsível. O difícil na democracia é aceitar e reconhecer a legitimidade do oposto, do adversário. Um caso emblemático são os direitos humanos. O que mais se vê é gente inchando a veia do pescoço para defender os direitos humanos dos amigos, enquanto relativiza os de quem circunstancialmente está na trincheira oposta.

Daí a importância de uma Justiça realmente dotada de independência, e de termos leis democráticas, a começar da Constituição. A Carta de 1988 pode ter vários defeitos, mas vem garantindo ao Brasil o mais longo e mais estável período de democracia na nossa História. Não é pouca coisa. Por isso, sempre que se fala em reformar a Constituição para lhe dar "mais funcionalidade" é preciso olhar com lupa e tentar enxergar os interesses envolvidos. Num país de tradição autoritária, é medida sempre prudente.

Ontem, o Supremo Tribunal Federal decidiu por 8 votos a 1 que é livre o exercício da profissão de jornalista, independente de o profissional ser portador de diploma universitário de jornalismo. No caso deste colunista, a decisão do STF tem pelo menos uma consequência prática: poderei exercer com tranquilidade, e alma leve, a atividade que escolhi (ou pela qual fui escolhido) há quase três décadas. Aqui, faço uma referência a meus colegas que, mesmo sem o diploma, têm ao longo destes anos procurado exercer com dignidade e competência a profissão.

Como parte interessada, sou suspeito para opinar. Mas que o Brasil está melhor depois da sessão de ontem do Supremo, isso está.

Começar pelos números

Saltitando no óleo quente, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), afirmou que vai dar publicidade à lista dos salários dos funcionários da Casa. Espera-se que sejam os vencimentos brutos. Vamos ver se ele terá força para cumprir o prometido. Em São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) já fez o que Sarney promete. Kassab enfrenta resistências na Justiça, mas tomara que tenha sucesso na empreitada.

Para evitar protelações, o presidente do Senado poderia começar com uma medida mais modesta. Divulgar só a relação dos vencimentos brutos, sem os nomes. Seria bom saber qual o maior salário do Senado, qual é a média salarial, qual é a concentração de renda entre os servidores. Não atingiria a privacidade de ninguém e serviria para lançar alguma luz sobre o assunto.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

E o mais importante: tem q mostrar quem é concursado e quem é comissionado.

Já vi senador defendendo a diminuição do número de servidores concursados, mas ainda não vi nenhum deles defendendo sequer a abertura da caixa preta dos comissionados!

Tem que diminuir bastante é o quantitativo dos comissionados, que estão lá sem mérito ou legitimidade algum, pois não passaram por concursos públicos e muitas vezes sequer trabalham ou cumprem horário de fato.

Neles os senadores não querem tocar!

quinta-feira, 18 de junho de 2009 17:48:00 BRT  
Blogger Maurício Galinkin disse...

Claro que ninguém toca neles: são escolhidos pessoalmente pelos parlamentares...

Pegando uma carona na questão do diploma para jornalista, Alon,
meu registro é de 1963, e para fazê-lo o Sindicato dos Jornalistas Profissionais foi ouvido, antes do MTb fazer o registro. E, antes de tudo isso, houve o apontamento da contratação em minha carteira de trabalho, pelo jornal, informando que função exercia.
Ou seja, a coisa não era tão bagunçada assim como alguns querem fazer ver (é claro que tinha pilantragens, especialmente quando os jornalistas eram isentos de IR -antes da minha era...).
E pode voltar a ser assim, não acha?
Abs

quinta-feira, 18 de junho de 2009 20:55:00 BRT  
Anonymous JOEL PALMA disse...

ALON, ACHO QUE A TRANSPARÊNCIA NO SERVIÇO PÚBLICO É FUNDAMENTAL, ISSO É BÁSICO...AGORA, COLOCAR OS SALÁRIOS É COMPLICADO, POR DIVERSOS MOTIVOS...PRINCIPALMENTE DEVIDO À PRIVACIDADE...ACHO MAIS LÓGICO COLOCAR O CARGO DO FUNCIONÁRIO E OS ADICIONAIS CORRESPONDENTES, INCLUSIVE OS CONQUISTADOS NA JUSTIÇA...E EM FOLHA A PARTE, COLOCAR OS SALÁRIOS BASE DE TODOS OS CARGOS...AÍ, É SIMPLES, É SÓ FAZER OS CÁLCULOS...ACHO QUE INCLUSIVE, É INCONSTITUCIONAL COLOCAR OS SALÁRIOS...GRANDE ABRAÇO...

sábado, 20 de junho de 2009 19:25:00 BRT  

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