domingo, 14 de junho de 2009

Falar menos, fazer mais (14/06)

Entre um e outro discurso sobre o multilateralismo, nossas autoridades estão mesmo é atentas a dois números: a confiança do consumidor americano e a taxa de crescimento da China

O chanceler Celso Amorim aproveitou uma passagem esta semana por Paris para decretar a morte do G8. O grupo inclui as sete nações ocidentais mais desenvolvidas e a Rússia, e acaba de se reunir em Lecce (Itália). O que o ministro omitiu de sua declaração, possivelmente por diplomacia, é que se a megacrise global fez o G8 perder condições de protagonismo (ele as teve algum dia?), o candidato a substituto, o G20, mais amplo, ainda não disse por que veio.

É arriscado fazer análises retrospectivas sobre o futuro, mas o G20 está com o jeitão da velha Liga das Nações. Era uma espécie de ONU, criada após a Primeira Guerra Mundial, no começo do século passado. O fato de ter havido a Segunda Guerra é a melhor dica sobre o destino da organização. A Liga passou à História como paradigma de inutilidade, especialmente por não ter barrado a ascensão do nazifascismo.

Entronizado com reverências midiáticas no pós-colapso das finanças mundiais, o G20 tem servido para oferecer palco a líderes (e a candidatos a líder) necessitados de mostrar aos seus eleitores que, afinal, está se fazendo algo. Um exemplo é Gordon Brown. O premiê britânico hospedou um solene encontro do grupo, e sua popularidade até chegou a subir depois da reunião. Mas foi um sopro momentâneo. Com G20 ou sem, Brown segue a marcha batida rumo ao cadafalso político.

Já estamos perto do primeiro aniversário do crack, e a única decisão prática tomada até agora pelo G20 foi ajudar o G8, num reforço de caixa no Fundo Monetário Internacional para dar uma mãozinha a países combalidos, notadamente do Leste Europeu. Nações que, ao contrário do Brasil, não seguiram plenamente a receita da ortodoxia fiscal, e por isso estão mal.

Nós, felizes por termos sido convidados para a festa desta vez, entramos nessa com um punhadinho de bilhões de dólares. Num planeta em que a conta da solução do problema mede-se em vários trilhões, é uma participação simbólica. Mas pelo menos estamos pagando baratinho pelo convite. Tudo na vida tem um lado bom.

O devaneio de um mundo regulado multilateralmente é algo recorrente nos últimos dois séculos. Na esteira da derrota de Napoleão Bonaparte, há quase duzentos anos, o Congresso de Viena pretendeu remontar a velha Europa dos imperadores. Deu errado, mas durante um tempo pareceu fazer sentido. Sobre a Liga das Nações já falei. Agora temos a ONU, tadinha, que procura ostentar importância. Enquanto anda perdidaça, desde que saiu de cena o vetor real da sua densidade: a paridade de fogo entre as duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética.

É natural que um país como o Brasil, sedento de holofotes, procure valorizar o peso da participação nas instâncias internacionais. A realidade, porém, é outra: a saída da crise depende menos de uma hipotética conjugação planetária de esforços de nações desenvolvidas e emergentes, e mais de como vão se comportar os dois principais dínamos, os Estados Unidos e a China. É por isso que, entre um e outro discurso sobre o multilateralismo (e contra o protecionismo), nossas autoridades estão mesmo é atentas a dois números: a confiança do consumidor americano e a taxa de crescimento da economia chinesa.

Aliás, quem sabe não esteja na hora de aprendermos algumas coisas com os amigos chineses? Em algumas situações eles são mestres: por exemplo, quando convém falar um pouco menos e fazer um pouco mais. Em vez de implorar uma nova ordem internacional e rezar devotamente na cartilha do livre comércio, à espera das bênçãos do deus mercado, talvez devêssemos nos concentrar em questões práticas. Como por exemplo evitar a quebra de nossos exportadores, vitimados duplamente pela contração das trocas mundiais e pela revalorização do real. Eis um assunto urgente.

Assim, nossa diplomacia poderá seguir sonhando com a retomada da Rodada Doha, mas sem que isso nos traga maiores prejuízos. Não seria bom?

Filme visto
Quem viu não consegue deixar de associar. O “já ganhou” do governismo em marcha para a eleição de 2010 lembra a euforia da oposição nesta mesma altura, há exatamente quatro anos, depois que estourou a crise política desencadeada pelas acusações de Roberto Jefferson.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense

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1 Comentários:

Anonymous fscosta disse...

Alon,

Vc comete o mesmo erro que cometeu antes, ao satirizar o INICIO da entrada do Brasil como credor do FMI.

Fornecer alguns bilhoes ao FMI, é estar com um pé na canoa da nova moeda mundial que vai substituir o dolar, baseado na cesta de moedas do FMI (o Direito Especial de Saque).

O que vc critica na verdade é sagacidade, capitalizar o fundo gradativamente, em troca de decisoes claras na forma de tomada de decisao dentro do FMI, deveria ser elogiado e nao satirizado.

O FMI tem prometido mudar as regras, mas tem feito isso a passos lentos. O que o Brasil faz agora é o correto, não crer em promessas e sim em ações praticas.

Outra coisa, que me irrita nos ultimos textos (e eu te leio desde a epoca que vc era só um blog) é que vc perdeu totalmente o seu senso historico (que era sua maior virtude). Seus textos agora abrangem um espaço temporal extremamente curto, sendo que esse jogo é de 10 ou 20 anos ou mais.

Sobre falar menos e fazer mais, concordo plenamente, o maior problema (nao só dos politicos) dos brasileiros é equiparar os efeitos do discurso com o resultado das ações.

Abçs,

segunda-feira, 15 de junho de 2009 11:10:00 BRT  

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