terça-feira, 2 de junho de 2009

A enésima oportunidade (02/06)

A política é jogo de forças, soma de vetores. E não há uma contranarrativa visível para neutralizar vetorialmente a narrativa que Lula, dia sim outro também, reforça com vigor

As pesquisas Sensus e Datafolha confirmam não apenas que estamos em plena campanha eleitoral para a Presidência da República. Mostram que ela, como já alertava o ministro José Múcio Monteiro (Relações Institucionais), apresenta características de segundo turno, dada a tendência de polarização. Outra constatação: a oposição caminha para desperdiçar a janela de oportunidade aberta com a eclosão da crise econômica mundial, em setembro. E que janela!

Por que Luiz Inácio Lula da Silva vai bem, assim como a candidata dele à sucessão, Dilma Rousseff? Porque o eleitor avalia que o presidente da República está fazendo o melhor possível, nas circunstâncias. Daí que talvez valha a pena considerar a hipótese de mais um voto de confiança. Parece simples? E é. Lula vende bem o peixe dele, o que vem incomodando a oposição, que se queixa da “máquina de propaganda” do governo federal. Um queixume que só revela impotência. Propaganda sozinha não sustenta governos, precisa estar ancorada em fatos.

A abordagem é recorrente aqui. Não há novidade para quem lê esta coluna. Em 2009, a economia brasileira vai apresentar resultados pífios. Na melhor das hipóteses, pousamos no fundo do poço. O juro real empurra a produção para baixo, quebra as exportações e ameaça o emprego. O investimento privado afundou, sem que o investimento público possa compensar a queda. E de quem é a culpa? De qualquer um, menos do chefe do governo. Nem fomos o último país a entrar na crise, nem seremos o primeiro a sair dela. E daí? E daí nada.

Não que o cidadão comum esteja em busca de debates complexos, sobre o spread bancário ou sobre o desenho da nova ordem internacional. O que falta é uma contranarrativa para tentar neutralizar vetorialmente a narrativa que Lula, dia sim outro também, reforça com vigor. A política é jogo de forças, soma de vetores. Uma oposição competente culpa o governo por tudo, exige dele o impossível, descobre defeitos até no que parece não ter e promete o paraíso se chegar ao poder.

Mas dá trabalho e exige obstinação, além de método e vontade de correr riscos. Pressupõe agarrar-se a alguma utopia e não subestimar o oponente. Você enxerga traço disso nas atitudes e atividades da oposição brasileira nos últimos seis anos e meio? Eu não enxergo. No que um Brasil governado por tucanos e democratas seria melhor do que o Brasil do PT? Nem eles próprios parecem saber. Daí que há tempos Lula esteja a falar sozinho.

Culpa dele? Não, culpa de quem deseja retirá-lo e a seu partido do poder mas espera isso acontecer como manifestação da vontade divina, como efeito das resistências do establishment a Lula, como consequência de uma suposta superioridade intelectual ou como produto da miraculosa descoberta daquele caso de corrupção que, agora sim, vai dar um jeito de colar no presidente. Ou como a soma de tudo isso.

O eleitor é pragmático. Adversários de Lula também estão bem avaliados na área de responsabilidade deles. E o eleitor é também desconfiado. Sabe que a política não se divide entre santos e demônios. Daí que tentativas de demonização tenham efeito apenas parcial. Só quem se ocupa de política 24 horas por dia são alguns jornalistas, os políticos e as pessoas cujo emprego ou cujo negócio dependem diretamente da política. É gente que trata o tema com paixão e gosto. Já a maioria tem com a política uma relação funcional. Quer saber o que vai ganhar ou perder. Quem é, entre as possibilidades, o melhor líder na situação.

2010 está perdido para a oposição? Óbvio que não. Eleição não se ganha de véspera. E a oposição tem um capital eleitoral respeitável, duas pernas bem fincadas nos dois maiores estados do país e boa capilaridade nacional. Por esse ângulo, talvez o choque trazido pelas últimas pesquisas tenha vindo em boa hora para os adversários de Lula. É a enésima oportunidade de tomarem contato com a realidade. E, diferente de 2006, o choque veio quando ainda falta um bom tempo para a eleição.

Até porque a travessia de 2009 para 2010 não será mesmo um mar de rosas. Enquanto as pesquisas mostram uma população mais otimista, o mercado anda cada vez mais pessimista, como mostrou ontem o boletim Focus. A esperança de Lula é que os profissionais da economia estejam errados. A da oposição, que estejam certos.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Blogger Nicolau disse...

A oposição tem dificuldade em atacar os principais defeitos do governo Lula porque eles são, em grande medida, o que ele manteve das políticas de seu antecessor. PSDB e Demos têm grnade dificuldade de clamar por regulação de mercados e queda dos juros sem ouvir um monte de gente lembrando do governo FHC.
Isso me lembra de outra falta de discurso, talvez ainda amis prejudicial para o cenário político brasileiro, que é a dos outros partidos de esquerda. Não se vê uma contranarrativa, como você diz, de esquerda, com idéias focadas e organizadas para questionar o governo Lula. E esses partidos, se desistissem de bravatas, sectarismo e udenismos (triste lembrança da campanha de Heloisa Helena em 2006...), teriam condições de exercer um papel de oposição mais interessante, pois não têm no armário os esqueletos da implantação e defesa do modelo que hoje está no alvo das críticas.
Abraço e parabéns pelo blog!
Nicolau
www.futepoca.com.br

terça-feira, 2 de junho de 2009 12:13:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

Tenho a impressão que o DEM está fazendo essa oposição que o Alon sugere, pelo menos nas últimas propagandas de TV.
Eu, particularmente, torço para o PSDB seguir o conselho do Alon e fazer o mesmo: criticar o "estatismo" do governo Lula, defender de peito aberto o que querem privatizar, e diminuir o tamanho do estado. Explicarem o choque de gestão que promovem com os salários do funcionalismo, a ausência de concursos, a terceirização, as maravilhas que esses governadores promoveram na qualidade os serviços públicos em seus estados, como segurança pública, educação e saúde.

terça-feira, 2 de junho de 2009 18:08:00 BRT  
Anonymous Ricardo disse...

O nosso país mudou e experimenta uma das maiores taxas de crescimento e desenvolvimento já vistos.Isso não é resultado desse ou daquele governo, mas sim pela evolução da sociedade.

terça-feira, 2 de junho de 2009 18:54:00 BRT  
Blogger Cesar Cardoso disse...

A impressão, Alon, é que falta um Zé Dirceu na oposição. Alguém que, como o Zé fez entre 1999 e 2002, "amoleça" o discurso da oposição e o torne palatável para a maioria que simpatiza com o governo. O problema é: quem?

E, se não rolar rápido a resposta, a Dilma se elege em 2010, o Lula se elege em 2014 e por aí vai.

terça-feira, 2 de junho de 2009 22:31:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

"Isso não é resultado desse ou daquele governo, mas sim pela evolução da sociedade."

Ricardo, os lulistas acham q isso vem ocorrendo por causa do Lula.

Eu acho q a oposição terá (muitas) dificuldades com 2010, a economia estará - provavelmente - recuperada ou em recuperação, a popularidade do Lula nas alturas (se agora está 80%, estará uns 120~130%).

Tarefa dura. Acho q até uma chapa Serra-Aécio pode começar a fazer sentido, pois se Dilma leva a parada, Lula volta em 2014. E aí, com nosso Dom Sebastião de volta, são mais 8 anos.

O fato é q não há - em nenhum partido ! - um político no Brasil como o Lula. Lula consegue valer-se positivamente de sua história de vida para superlativar as conquistas e - ao mesmo tempo - blindá-lo de qq crítica (a moda é taxá-la de "tentativa de golpe").

Uma cara popular, com boas tiradas irônicas, fala ao POVO e fala ao EMPRESARIO, qdo dá certo, "foi ele", qdo dá errado, "foram os outros"...êita...a parada é dura.

Alon, qual o segredo para "bater" em um político com esses atributos?

terça-feira, 2 de junho de 2009 22:49:00 BRT  
Anonymous Paulo Maurício Machado disse...

Mandou bem, Alon, até o último, ou melhor, até o penúltimo parágrafo. Por algum tipo de vício incontornável de considerar o que vocês, jornalistas de aquário, chamam de "mercado" talvez não consigam reparar naquilo que chamamos de economia real, que acontece no dia-a-dia, no rés do chão, no pé da calçada.

Mercado é esse "ente" esotérico que só existe na cabeça de vocês, que aceitam se balizar pelos comentaristas neocons que ainda se impõem e ditam regras na chamada mídia corporativa tradicional. Digo isto como jornalista, independente por opção, com anos e anos e anos de quilometragem em grandes redações.

No dia em que você e nossos coleguinhas resolverem sair por aí, se enfiando nas biroscas, no comércio popular e nas microindústrias empregadoras das pequenas cidades do interior, vão perceber o que de fato ocorre no País. Ah, preparem-se para admirar um mundo novo.

Pesquisas Focus, Fiesps, Firjans, CNTs, grandes exportadores, coisa e tal, são algo que só cataliza na cabeça de vocês. A economia real, meu caro, é outra coisa, tão simples e singela que, apesar de tão fácil fica difícil de perceber, por incrível que pareça. Mas tem que sair do aquário e meter a cara nas ruas...

terça-feira, 2 de junho de 2009 23:34:00 BRT  
Anonymous Samuel Vidal disse...

O grande problema é que o Lula é o "bonzinho", a história do sertanejo que chegou a presidente comove todo mundo.Junta-se a isso a grande perícia contábil de Lula: num país com uma desigualdade regional imensa, um programa social que custa menos de 1% do PIB como o bolsa-familia canaliza a produtividade do centro-sul na forma de impostos para uma região muito pobre, garantindo uma margem eleitoral imensa com um custo economico prorcionalmente baixo. As aposentadorias do fundo rural turbinadas pelo aumento acima da inflação do salário mínimo reforçam mais ainda esse louvor ao presidente no Nordeste. Os servidores públicos estão sendo agraciados com aumentos que estouram as contas públicas,estão do lado do presidente. Os trabalhadores da iniciativa privada que estão carregando o país nas costas, sofrendo os altos impostos, sofrendo do baixo crescimento economico,baixo salários, não tem força política para se manifestar. Uma plataforma diferente da demagogia lulista é um suicídio numa campanha política, por isso a oposição não tem discurso: ser contra os aumentos acima da inflação para servidores públicos ineficientes, ser contra aumentos do salário minimo que estouram a previdência e usar esses recursos para investir em infra-estrutura e educação que garantirão crecimento econômico sustentado.

sexta-feira, 5 de junho de 2009 21:43:00 BRT  

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