quarta-feira, 24 de junho de 2009

A caminho da ratoeira (24/06)

A oposição precisa achar a maneira de entrar na guarda de Lula. Especialmente agora, quando o presidente vai ocupando até o espaço de principal crítico dele mesmo

O ex-prefeito Cesar Maia (DEM) divulgou ontem em seu "ex-blog" (uma newsletter) os resultados da última pesquisa nacional do instituto GPP, cujo trabalho o ex-alcaide costuma prestigiar. Os números ajudam a alimentar a pulga atrás da orelha dos dirigentes da oposição. O GPP perguntou quem seria o melhor presidente para o Brasil. Deu Luiz Inácio Lula da Silva 42%, José Serra 8%, Aécio Neves 4%, Dilma Rousseff 3%, Ciro Gomes 1% e Heloísa Helena 1%. As respostas foram espontâneas.

Na estimulada: Serra 42%, Dilma 17%, Ciro 16% e Heloísa 9%. O detalhe: entre os menos escolarizados, núcleo duro do eleitorado de Lula, Dilma pega por enquanto apenas 8%. Sem Ciro: Serra 46%, Dilma 29% (Dilma leva vantagem numérica de 41,4% a 37,6% no Nordeste).

A oposição esperava que Dilma chegasse aos 30% no fim do ano. Segundo o GPP, chegou seis meses antes. No cenário plebiscitário projetado pelo Planalto, Serra mantém a dianteira, que se estreita. E a identificação de Dilma como preferida de Lula está pela metade. A pesquisa perguntou quem é o candidato do presidente. Deu Dilma 52%, Serra 8%, Ciro 6% e Heloísa 5%.

Há duas visões entre os líderes da oposição, ao menos para consumo externo. Os otimistas acham que Dilma vai estacionar nos 30% e que terá dificuldade para atrair o voto não petista de Lula. Os pessimistas olham os números e desconfiam que a operação de transferência de votos vai de vento em popa, ajudada pela permanente exposição pública do apoio do presidente a sua pré-candidata. Até porque já estamos em plena campanha presidencial, na prática.

O apoio de Lula é turbinado pela gordura política acumulada. Segundo o GPP, Lula tem 59% de bom+ótimo, 32% de regular e 9% de ruim+péssimo. Na teoria, esses números permitem concluir que Dilma, quando plenamente identificada com Lula, terá potencial de voto suficiente para liquidar a eleição num eventual primeiro turno bipolarizado.

E as variáveis externas? O país está em recessão (a real, não a técnica) há mais de nove meses e até agora isso não implicou perda substancial para o presidente. Pode acontecer? Pode, mas Lula conseguiu por enquanto proteger a ideia de que está fazendo o melhor possível, nas circunstâncias. Nos últimos dias, os membros do governo têm inclusive operado para descolar a administração dos defeitos dela, como a ainda extorsiva taxa básica real de juros e o spread bancário inexplicável - a não ser pelos critérios do monopólio e da ganância.

Lula, assim, é o responsável pelas "coisas boas do governo" (a ênfase social), mas "infelizmente ainda não conseguiu fazer tudo que queria". Um discurso ideal para enfrentar as críticas. Mantido esse desenho, a oposição caminha para a ratoeira do plebiscito, cuidadosamente construído no imaginário popular pelos alquimistas palacianos. Como defesa, apenas a tese de que Dilma não passará dos 30%. Que pode ser isso mesmo, mas se for apenas uma tese terá um custo altíssimo para quem deseja remover o PT do poder central.

O que fazer? No lado do governo, o que vem fazendo. No lado da oposição, continuar procurando a maneira de entrar na guarda de Lula. Especialmente agora, quando o presidente vai ocupando até o espaço de principal crítico dele mesmo. Lula montou um bunker ambiental globalista na administração e agora engrossa o discurso em defesa da soberania brasileira na Amazônia. Lula convive há mais de seis anos com um spread irracional (ou racionalíssimo, conforme o ângulo) e seu ministro da Fazenda hoje diz que isso precisa mudar. Por que não mudou até agora? Lula é o campeão de renúncias fiscais, e agora diz que seria preferível dar esse dinheiro para os pobres, em vez de repassá-lo a empresários que não baixam preços -mesmo com menos impostos.

Esta é a receita de Lula para 2010: se você está feliz com o governo, vote na Dilma; se está infeliz, vote também, pois ela vai fazer coisas que Lula queria mas não conseguiu. "Não dá para fazer tudo em oito anos." Esse discurso pode ser desmontado numa campanha eleitoral? Pode, desde que se respeite uma teoria que o próprio Cesar Maia gosta de fazer circular. Eleição é hora de revelar a fotografia que foi tirada antes. A campanha eleitoral precisa soar como a continuidade de um processo de luta política, não cair como raio vindo do céu azul. Mas esse é assunto velho nesta coluna. Assim como a necessidade de a oposição encontrar um desenho político original para 2010.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

"Especialmente agora, quando o presidente vai ocupando até o espaço de principal crítico dele mesmo."

Já que a oposição não faz, o presidente faz. Depois não entendem porque o presidente transformou a Dilma em candidata em ascensão.

E tem um risco pior para a oposição: o presidente resolver turbinar a campanha do PT (e dos aliados) para o Congresso Nacional. Com 2/3 do Senado e a Câmara inteira em disputa, a oposição corre o risco de ficar ainda mais encurralada.

quarta-feira, 24 de junho de 2009 03:31:00 BRT  
Anonymous JOEL PALMA disse...

ALON, realmente, acho que a transferência não é só de votos, é mesmo de IMAGEM...Lula é adorado pela população como um DEUS, e está transferindo para DILMA a imagem de que ela é a continuidade dele, sob apadrinhamento e controle dele...CRIA, é a palavra exata...e o povo vê o óbvio: A ELITE BRASILEIRA (quem a conhece sabe que não estamos tratando de ente inexistente, e que ela é cínica e manipuladora, pois se acha acima dos outros brasileiros...), que NUNCA quis transformar o Brasil em Nação, não tem discurso, primeiro por não saber fazê-lo, segundo, por não ter crédito para fazê-lo...É SIMPLES...o povo está há décadas na opressão, sem direitos básicos...e quando os tem, não quer perder...e a oposição é vista como a defensora desta minoria de "RICOS" que nunca fez nada pelo país, mas por si...Agora, LULA age politicamente...não tem forças para MUDAR O BRASIL, como não teria qualquer outro presidente, haja vista o montante de forças em ação, e estamos a cada dia vendo o cinismo da ELITE, seu último suspiro...LULA DÁ o que a ELITE a ele aliada quer, mas agora está cobrando...NÃO SERIAM EM OITO ANOS que o Brasil mudaria, concordemos...quanto a Ciro, acho que a GPP é pegadinha...não é possível, de forma alguma, que em um conjunto de 33% somados de Ciro e Dilma, que 29% vão para ela...me cheira a DESEJO de DEMOS E TUCANOS de que Ciro saia da disputa, haja vista que nas pesquisas anteriores, a segunda opção de grande parte dos eleitores de Ciro é Serra, até pelo perfil extremado de Ciro...que não é diferente do de Dilma, tanto quanto de Serra...só que Dilma está no Paz e Amor, e ainda não consegue captar este eleitorado radical...TEM GATO NA TUBA nesta pesquisa aí...

quarta-feira, 24 de junho de 2009 10:34:00 BRT  
Blogger Mircon disse...

Nesse tipo de pesquisa há muitas suposições a se fazer!
Suponhamos:
- Que Dilma chegue a 32% até final do ano. Será que aumentarão seu "teto" de votos possíveis e dirão que dos 35% ela não passará? Primeiro falavam em 22, depois 25%, agora falam em 30%!

- Temos a parcela da população (pequena mas existente) que não votou em Lula por ser analfabeto, e ainda não ouviram Dilma discursando! Será que não serão conquistados por ela no decorrer da campanha?

- Os 8% que pensam que Serra é candidato de Lula tomarão qual decisão de voto depois de saberem que a candidata de Lula é Dilma?

- Os 59% de Bom/Ótimo a Lula num momento de crise, chegarão a quanto daqui a 1 ano, quando o Brasil estiver gerando 200 mil empregos mensais e perspectiva do Pib chegando perto dos 5%?

- Se Dilma chegar a 30%, Ciro 12%, Heloísa 8%, 3% Outros e 10% de indecisos. Quanto sobrará pro Serra?
Será que será confortável prá ele? Os votos da Heloísa Helena vão prá quem?

São muitos os questionamentos!

Abraço.

quarta-feira, 24 de junho de 2009 11:51:00 BRT  
Blogger Richard disse...

"Eleição é hora de revelar a fotografia que foi tirada antes. A campanha eleitoral precisa soar como a continuidade de um processo de luta política, não cair como raio vindo do céu azul. Mas esse é assunto velho nesta coluna."
Deve ser um assunto tão velho que eu devo ter perdido neste últimos 3 anos acompanhando vc, Alon!
É possível derrotar Lula, mas como já disseram´(esta vc deve ter ouvido): CADA POVO (país, nação etc) TEM O GOVERNO QUE MERECE!

quarta-feira, 24 de junho de 2009 14:52:00 BRT  
Blogger Richard disse...

AH SIM!!! Já ia esquecendo. Num post sobre resultado de pesquisas, de uns meses atrás, alguns questionaram vc sobre a ausência do nome de Heloísa Helena, 3ª colocada (Datafolha, dez. 2008) na frente de Dilma.
Esta ausência também se refletiu no JN da Globo, na mesma época!
Agora, depois de muito se falar em Dilma, Ciro e outros, HH "cai" para o 4º lugar... vc não acha estranho também?!?!?!?!

quarta-feira, 24 de junho de 2009 15:10:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

Olha Alon, essa história de que Lula não fez mais porque não deu, mais perto de 2010, pode virar: "não fez mais porque o Congresso não deixou" (e há verdades nisso, como no caso da CPMF).

E não é uma mensagem difícil de pegar. Quem vai defender o Congresso? Pelo contrário, aliados de Lula disputando o Congresso farão coro, pedindo ao eleitor: "votem em mim porque eu sou aliado de Lula, e comigo e outros aliados no Congresso, a Dilma poderá fazer mais".

Excluindo aqueles que ficaram em superexposição negativa nos escândalos atuais de passagens aéreas, verbas indenizatórias, nomeações exóticas, etc, a coisa pode funcionar. Resta saber quem leva a melhor: o PMDB, a direita aliada, ou os partidos de esquerda.

quinta-feira, 25 de junho de 2009 16:31:00 BRT  

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