terça-feira, 23 de junho de 2009

Caixa cheia de buracos (23/06)

Quanto mais avançar a iluminação dos subterrâneos senatoriais antes que as cortinas se fechem, antes que o poder se recomponha, melhor

Sempre que estoura um escândalo como este do Senado, com notícias de malfeitos cometidos desde há muito, pessoas perguntam por que existem situações em que a podridão fica visível e outras em que não. É uma boa dúvida. Algumas vezes essa assimetria acaba estimulando teorias conspiratórias. Daí a ideia de que imprensa e jornalistas podem divulgar (ou deixar de) informações conforme apenas a conveniência. Quem conhece sabe que não é bem assim. Especialmente num ambiente competitivo como o atual.

Por que as irregularidades no Senado aparecem agora? Porque o comando político da instituição está dividido. A guerra intestina na cúpula da Casa, que vem da crise na qual Renan Calheiros (PMDB-AL) perdeu a Presidência, transformou a antiga caixa preta numa daquelas caixinhas de transportar animais de estimação em avião. Cheia de buracos. É por eles que vaza o lixo. Que pode se tornar radiativo para suas excelências.

Quando o poder está de acordo no essencial, pode fazer a festa com o dinheiro público num ambiente mais tranquilo. Uma mão lava a outra, e ambas procuram impedir a entrada da luz. Quando os poderosos querem se matar uns aos outros é que a coisa pega, é que as informações ficam acessíveis à opinião pública. Informações que acabam funcionando como catalisador de mais -e mais graves- conflitos. Até que um dia, contabilizados os mortos e os feridos, a cúpula se recompõe.

Por isso, quanto mais avançar a iluminação dos subterrâneos senatoriais antes que as cortinas se fechem, melhor.

Politicamente, em que pé está a crise? O grupo de Renan e do presidente José Sarney (PMDB-AP) ainda mantém o controle da situação política, também porque as liberalidades com o dinheiro do Senado atingem um número grande de parlamentares. A máquina de moer biografias e projetos segue adiante, operando nos bastidores. Quanto mais aberto estiver o leque, mais difícil será a missão de quem pretende pegar uma carona na crise para amputar a cabeça do Senado. Quanto mais envolvidos, mais gente estará interessada em colocar ponto final no processo de corrosão de reputações.

Mas para ter eficácia isso precisa ser feito oferecendo os necessários sacrifícios à opinião pública. Por enquanto, ela não pede necessariamente que alguma das excelências seja levada à pira. Por enquanto, ela se contenta em fritar as -como diria o presidente da República- pessoas comuns. Mas a turma está de olho. Algo de muito sério deverá acontecer. O presidente Sarney vem anunciando que fará uma reforma administrativa profunda na Casa. Do jeito que as coisas vão, precisará ser uma revolução. O Senado terá que fazê-la, antes que a façam por ele. Com explicou ontem da tribuna o senador Pedro Simon (PMDB-RS).

O interlocutor

O Itamaraty e o presidente da República adotaram no princípio uma atitude peremptória diante dos conflitos no Irã. Luiz Inácio Lula da Silva recorreu a mais uma metáfora futebolística para descrever o choque entre partidários de Mahmoud Ahmadinejad e de Mir Hossein Moussavi e tomou partido do primeiro.

Agora, depois dos mortos e da admissão de que houve fraude, a diplomacia brasileira está pendurada no pincel. Escrevi outro dia uma coluna com o título “Falar menos, fazer mais”. Era sobre outro assunto, mas vale aqui também.

O Brasil apostou em cenários. O primeiro: Ahmadinejad será confirmado no poder. É possível que a aposta esteja certa, ainda que essa certeza tenha se enfraquecido nos últimos dias. O segundo: os números da eleição presidencial do Irã seriam confirmados com alguma tranqüilidade. Uma previsão, como se vê, arriscadíssima.

No final, se prevalecer o grupo de Ahmadinejad, liderado pelo aiatolá Ali Khamenei, Lula poderá dizer que apostou no cavalo certo. Mas a que custo? E com que consequências estratégicas? Barack Obama foi mais esperto. Não se meteu publicamente na disputa intestina da elite persa, até para não dar ao establishment islâmico o monopólio do antiamericanismo.

Claro que Lula e Obama têm interesses diversos no assunto. A Casa Branca opera para relativizar a importância estratégica de Teerã no Oriente Médio. Já o Itamaraty parece desejar fazer de Lula um interlocutor privilegiado do regime dos aiatolás

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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5 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Quanto à crise no Congresso, apesar da gravidade, no calor da refrega, já surgem manifestações defendendo o unicameralismo. No momento, não surge como boa ideia. Quanto à política externa,independência não é sinônimo de premonição ou torcida. Ficou claro o recuo quando da avaliação das eleições iranianas.

Swamoro Songhay

terça-feira, 23 de junho de 2009 13:28:00 BRT  
Anonymous MARCUS disse...

E a crise que colheu Renan Calheiros não foi obra da imprensa?

Nossa imprensa sempre tão vista-grossa quanto à amantes de vossas excelencias...

Alon, teoria conspiratória é uma coisa, óbvio ululante da postura de nossa gran imprensa é outra...

Claro que a imprensa não é culpada por tudo, mas a maior parte da população já entendeu o jogo dela, mesmo que inconscientemente.

terça-feira, 23 de junho de 2009 19:04:00 BRT  
Anonymous ppaliteiro disse...

Alon, uma vez defendi aqui o unicameralismo. Quero rever minha posição e explicar o porquê.

Toda vez que há uma crise aguda nessas instituições legislativas essas ideias reformistas-estruturais voltam a ser defendidas, sempre como forma de pressão externa a instituição, nada é reformado, o impeto se acaba e ciclicamente a crise volta.

Não há modelo imune a corrupção ou má-representação, todo sistema terá necessariamente vantagens e desvantagens comparativas.

Dentro do nosso modelo atual (bicameralismo) há um mecanismo hábil nesta crise do senado. Por quê a Câmara não tomou nenhuma iniciativa de propor uma CPI para investigar os mal-feitos da outra casa? Cadê os deputados nesta história?

Cabe aos deputados fiscalizarem os senadores e vice-versa. Alias é esta uma das maiores vantagens de termos duas casas aptas a legislar, controlar e fiscalizar todos os orgãos da República.

quarta-feira, 24 de junho de 2009 02:37:00 BRT  
Blogger Richard disse...

"pessoas perguntam por que existem situações em que a podridão fica visível e outras em que não. É uma boa dúvida. Algumas vezes essa assimetria acaba estimulando teorias conspiratórias. Daí a ideia de que imprensa e jornalistas podem divulgar (ou deixar de) informações conforme apenas a conveniência."
Como já falei aqui, é para isso que frequentamos este (e outros) blogs políticos: PARA SABER! Mas, parece que a maioria parece não perceber que algo está fora da ordem.
"Quem conhece sabe que não é bem assim."
Eu não sou jornalista, mas como agora não será preciso diploma para sê-lo, vai ser fácil descobrir se isto é verdade ou não!!!
NOS VEMOS NA REDAÇÃO, ALON (hahahaha)

quarta-feira, 24 de junho de 2009 15:24:00 BRT  
Blogger Richard disse...

E sobre a atitude do Baraca... ele sim É O CARA!!!! Mata a mosca e mostra o big stick (hehehehehehe)

quarta-feira, 24 de junho de 2009 15:28:00 BRT  

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