quarta-feira, 3 de junho de 2009

Barbas de molho (03/06)

Percebeu-se no PSDB que os tucanos não podem se dar ao luxo de desperdiçar substância na operação política de somar as forças paulistas e mineiras.

Os bons números do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o otimismo já projetado para o desempenho da ministra Dilma Rousseff na corrida presidencial dão argumentos a quem deseja adiar a escolha do candidato do PSDB à Presidência da República. O período recente registrou alguns movimentos, especialmente no Democratas, em favor de antecipar a decisão, contra o que resistiu principalmente o governador Aécio Neves. Agora, com Lula novamente em alta e Dilma subindo a ladeira, talvez seja mesmo hora de a oposição colocar as barbas de molho.

A tese do “candidato já” supõe que no dia seguinte à coroação ele estará vitaminado para sair pelo país recolhendo apoios, costurando alianças e falando mal do governo. Em teoria, o nome agora indicado emergiria da mais forte da escolha, pronto a preencher o vácuo político que hoje suga para cima a candidatura do Planalto. Em teoria.

Na prática, pode acontecer o contrário. É possível que no day-after o finalmente candidato se visse sozinho na estrada. Pronto a virar alvo combinado do governismo e do fogo amigo. Abandonado à própria sorte, enquanto os supostamente aliados e também o preterido estariam livres para, nos bastidores, explicarem aos jornalistas, em “off”, por que tudo está dando errado. E, pior, sem que o ungido soubesse exatamente o que dizer. Em público ou em particular. A situação não chegaria a ser propriamente uma novidade.

A desafio colocado ao PSDB não é trivial. Os tucanos que aceitam conversar sem rodeios admitem o gigantismo da tarefa de derrotar um Lula tão musculoso. Publicamente, criticam a valorização excessiva do empate técnico (na pesquisa Sensus) entre Dilma e o governador José Serra em intenções espontâneas de voto. No particular, revelam estar impressionados, já que Serra vem de três eleições de repercussão nacional enquanto Dilma nunca foi candidata nem a vereadora.

Há mais um detalhe que deu força nas últimas horas à ala cautelosa. Percebeu-se no PSDB que os tucanos não podem se dar ao luxo de desperdiçar substância na operação política de somar as forças paulistas e mineiras. José Serra bate Dilma de longe em São Paulo. Aécio tem desempenho melhor ainda contra a ministra em Minas Gerais. O ideal será que a saída de um implique transferência total de intenções de voto para o outro, como aconteceu por exemplo no segundo turno da eleição presidencial de 1989, de Leonel Brizola para Lula. Mas isso não costuma ser automático.

Assim, numa destas reviravoltas costumeiras da política, alguns serristas passaram a considerar a pré-candidatura Aécio uma barreira para conter o crescimento de Dilma. Em outras palavras, com Aécio fora do páreo, é possível que uma gorda parte de seus votos em Minas migrasse para a candidata de Lula. Até porque a atratividade eleitoral do presidente da República entre os eleitores mineiros é conhecida, tendo funcionado bem em 2002 e 2006.

O aecismo também sentiu a mudança no vento. O discurso agora é que será mais fácil convencer o eleitor de Serra a migrar para Aécio do que o contrário. Por que? Porque se em Minas Lula pode seduzir o voto não propriamente petista, em São Paulo esse efeito seria praticamente irrelevante, dada a sedimentação do isolamento do PT bandeirante.

Numa coisa porém aecistas e serristas parecem estar de acordo. A chance de derrotarem Lula parte, antes de tudo, da preservação do capital político em seus respectivos estados. E o Planalto sabe disso, decorrendo daí a intensa movimentação para construir anabolizadas alianças antitucanas nas duas maiores unidades da federação.

Hipótese de trabalho

Dada a proximidade política entre o senador Gim Argello (PTB-DF) e a ministra Dilma Rousseff, há no PT brasiliense quem tema pelo pior. Enrolado na disputa entre Agnelo Queiroz e Geraldo Magela, o partido acredita que poderá receber do Planalto um pedido (que nunca é só um pedido) para considerar a a candidatura de Argello ao Governo do Distrito Federal como uma hipótese de trabalho.

4 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

Alon, mas o Gim Argello não é homem de confiança do Roriz?

quarta-feira, 3 de junho de 2009 00:58:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Um dos aspectos interessantes é a vantagem que dá ao processo político e eleitoral as repetidas afirmações do presidente contra a ideia de uma emenda que permitiria aos detentores de cargos executivos, nas três esferas, a possibilidade de canditarem-se à uma segunda reeleição. Isto permite que as coisas fluam na normalidade ou, ao menos, dentro das regras vigentes. Outro aspecto é a cada vez mais crescente força política e predominância do PMDB e a incógnita representada pela capacidade de transferência de aprovação do presidente à possível candidata governista. Ainda não são conhecidos os pisos e tetos de tal transferência, o que torna o PMDB fiel da balança. Nas últimas eleições às prefeituras, em São Paulo prevaleceu a aliança PSDB/DEM/PMDB, a despeito da atuação do presidente. Em Belo Horizonte, prevaleceu o prestígio do governador de Minas. Em Natal, venceu a candidatura apoiada pelo DEM, apesar também da atuação do presidente. Assim, caso a possível candidata governista à presidência não consiga capitalizar para si decisamente a aprovação presidencial, PSDB/DEM/PPS terão maior espaço para explorar, uma vez que o apoio massivo do PMDB não estará garantido. Continuar acenando com a emenda da segunda candidatura à reeleição, mesmo sabendo que não haverá tempo hábil para votar, aprovar e aguardar virtuais contestações jurídicas, demonstra que o principal partido governista não possui alternativas.

Sawamoro Songhay

quarta-feira, 3 de junho de 2009 10:03:00 BRT  
Anonymous Frank disse...

Começo a achar possível um "Serrécio" em 2010.

Algo q me parecia impossível, 6 meses atrás.

quarta-feira, 3 de junho de 2009 21:44:00 BRT  
Anonymous Renato Alves disse...

Alon:

Recomendei seu artigo em meu blog (www.politicamineira.blogspot.com).

Caso queira verificar será uma grande honra para mim.

Abraços,

Renato Alves

quarta-feira, 3 de junho de 2009 22:00:00 BRT  

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