domingo, 7 de junho de 2009

Baile de máscaras no Salão Azul (07/06)

Intrigante, o contraste entre a fúria ética do PSDB quando exigiu a CPI e a lassidão tucana agora que atingiu o objetivo

É um óbvio exagero creditar as dificuldades políticas do premiê trabalhista britânico, Gordon Brown, só ou principalmente às revelações sobre pecadilhos dele e de aliados no alegre manuseio de verbas públicas para fins pessoais. O caso parece, isto sim, funcionar como catalisador, como estopim de uma crise cujas raízes são mais profundas.

Gordon Brown está a ponto de cair porque os súditos de Sua Majestade estão "por aqui" com o Partido Trabalhista. Tony Blair foi-se, deixando para Brown o ônus do mau humor coletivo diante da guerra no Iraque, e também a pedregosa gerência da recessão parida pela megacrise planetária da economia. Dois abacaxis e tanto. Ainda mais para um político sem carisma e que não precisou das urnas para chegar ao cargo. Seguindo a norma, foi indicado pelo partido majoritário quando Blair saiu.

Pequenos escândalos ganham musculatura se o eleitor está de birra com um governo. Ou com uma instituição. Aqui no Brasil, o descontrole na emissão de passagens aéreas da cota de deputados e senadores deu o que falar. Existia faz tempo, mas despertou a indignação coletiva apenas quando se atingiu a massa crítica, quando sobrevieram seguidas revelações sobre a festa das excelências com o dinheiro do povo, num ambiente crônico de má vontade com o Legislativo.

Já os evidentes excessos dos ministros no uso de jatinhos oficiais em deslocamentos para os estados de origem (a pretexto de “atividades oficiais”) não causa maiores transtornos políticos. Afinal, Luiz Inácio Lula da Silva comanda um governo popular. Esse é só um exemplo. No dia a dia de uma Brasília anestesiada pelos índices de Lula, a maioria governista no Congresso não tem maiores dificuldades para neutralizar o ímpeto investigativo da oposição. Que, aliás, cá entre nós, não chega a ser exemplo de aguerrimento.

Vide as dúvidas e a suavidade do PSDB e do Democratas na CPI da Petrobras. Pecadilhos com um punhado de euros estão a ponto de derrubar o governo impopular de Gordon Brown no Reino Unido. Já no Brasil, sob indiferença geral, governistas e oposicionistas riem atrás das máscaras no baile do Salão Azul do Senado enquanto fingem travar uma guerra em torno da comissão que teoricamente vai investigar a maior empresa nacional.

A oposição brigou pela CPI e diz que está com vontade de vê-la caminhar, mas, convenientemente, esconde-se atrás das eternas disputas intestinas da base do governo para, afinal, acomodar-se à inação. Na esperança de que ninguém esteja nem aí. É intrigante o contraste entre a fúria ética do PSDB quando exigiu a CPI e a lassidão tucana agora que atingiu o objetivo.

Fototropismo

Nos acidentes aéreos com o Boeing da Gol e com o Airbus da TAM, o ímpeto de explorar politicamente os fatos contra Lula levou a uma sucessão patética de conclusões precipitadas e opiniões gratuitas. Lembram-se das “falhas” no controle brasileiro do tráfego aéreo? Lembram-se da falta do “grooving” em Congonhas? Agora, nesta tragédia com o Airbus da Air France, mais uma vez a Força Aérea Brasileira (FAB) age de maneira profissional. E circunstâncias, como o fato de o avião desaparecido ser francês e não brasileiro, ajudam também a refrear as tentações políticas. Ainda que não estejamos completamente vacinados contra elas.

Em situações assim, que exigem profundo conhecimento específico, os políticos deveriam evitar o fototropismo, aquele comportamento das plantas que crescem no sentido da luz. É sempre prudente resistir à vontade de falar só porque as luzes se acenderam. Ou porque é preciso dizer (ou escrever) alguma coisa. Ajuda a escapar do ridículo.

De mãos dadas

Digno de atenção o discurso dos senadores petistas no debate sobre a medida provisória da regularização de terras na Amazônia. Impressiona a resistência a que proprietários de terras legalizadas possam delas dispor comercialmente.

O Brasil será um país melhor quando nossa gigantesca massa de capital “morto” de terras públicas próprias para o cultivo (ou a criação), mas hoje não utilizadas, for libertada de sua condição pré-capitalista e puder ser plenamente mobilizada. O que pressupõe o direito de comercializá-la.

Reforma agrária para valer, só com o direito pleno de propriedade. Sem isso, a reforma se limita a experimentos regressistas, a tentativas tão utópicas quanto frustradas de recriar a comunidade primitiva, anterior à divisão social do trabalho.

Autonomeados puristas que andam de mãos dadas com o colonialismo do século 21.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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1 Comentários:

Anonymous Too Loose Lautrec disse...

Boa provocação ao debate. Não deveria passar batida. Atrasado mas fica meu registro.
Dizem ser o Brasil criação do Estado para garantir-lhe o sustento. Maldade. Porém, a história da nossa res publica registra oposição mais briguenta nas raras ocasiões em que boa parcela do corpo político teve as mãos afastadas do erário ou de suas benesses.
O PT, por exemplo, tem agido inclusivamente da maneira tradicional. Até com certo exagero. Afora raríssimas exceções só não participam da festa aqueles que não quiseram aderir.
A tese é a de quem tem para todos. Quem paga não reclama. Acaba tentando ser partícipe de uma ou outra forma. Sonegando, por exemplo.
Na oposição ninguém esperneou tanto quanto o PT. Foi coisa desmedida. Certo ou errado pouco interessava: pau em tudo & em todos. Importou pouco o dano que se viesse a causar ou a fragilidade dos apontes. A meta era chegar ao poder. A qualquer preço. Mesmo o abandono das bandeiras.
Para permanecer, então, pagar-se-á ainda mais. Só que isso é outra história.
Esse padrão nem é usual e o sucesso não obriga ninguém a reprisá-lo. Menos ainda na velha Albion.
A atual oposição (leia-se PSDB) – pouco trabalhadora, é verdade – tem perfil diverso. Não evidenciou mesmo apetite e no poder mesma disposição participativa, por assim dizer. O poder não valeria qualquer preço. Presunção? Em parte. Mas também convicções políticas. Não confundir com santidade ou ingenuidade. Não foi e não será.
Ocorre que há a questão cultural em jogo. Os parâmetros aceitos pela população sofreram grandes mudanças nos últimos anos. A opinião pública, conforme pesquisa fartamente anunciada, avalia bem esse Congresso, mesmo após sucessão de escândalos cabeludos e anos de inanição.
A aprovação de Lula mostra a empatia com boa parcela da população. Não é mero fruto da situação econômica. Outra parte se identifica com ele. E não se diga que a custa da sua perfeição. Muito ao contrário. Suas chances de dar certo eram ínfimas e ele chegou lá. Erra mas não governa sem sapiência como alguns esperavam.
Ou seja, por nenhum ângulo a tarefa da Oposição se apresentaria como fácil, mesmo que ela se dispusesse a efetivamente disputar o poder. Mas nem tudo está perdido. Desde o ano passado e até agora o governo vem disputando sozinho a eleição e não passa do segundo lugar.

quarta-feira, 10 de junho de 2009 19:33:00 BRT  

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