terça-feira, 30 de junho de 2009

Ao trabalho, itamaratecas!

Se precisamos justificar certas ditaduras num dia e condenar outras no dia seguinte, é desejável um pouco mais de sofisticação

As reações ao golpe em Honduras são o enésimo exemplo de como é importante considerar em primeiro lugar as conveniências dos atores quando se analisa a política internacional. Melhor ter consciência disso do que viver de ilusão. Em vez de perder tempo com a crença em declarações vazias, concentrar-se na análise da relação de forças e de interesses. Si vis pacem, para bellum. Se queres a paz, prepara-te para a guerra. Quem pode mais chora menos. E ponto final.

Luiz Inácio Lula da Silva foi artífice quando a Organização dos Estados Americanos (OEA) se movimentou para revogar o isolamento de Cuba, apesar do sabido déficit democrático na ilha. Muito bom. Um argumento costumeiro de Lula é que não devemos ditar regras sobre a política interna do alheio. Razoável. Se tais parâmetros forem adotados para a república hondurenho-bananeira, deveremos deixá-la em paz no seu golpismo de opereta.

Quando no ano passado a Geórgia tentou retomar no braço províncias separatistas pró-russas, a melhor expressão que achei para o presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, foi "malucão do Cáucaso". Moscou aplicou uma surra de chicote no dito cujo. Agora, de qualquer ângulo que se olhe, o presidente constitucional de Honduras, Manuel Zelaya, é forte candidato ao título de malucão da América Central.

Para convocar uma Assembleia Constituinte, Zelaya quis fazer na marra um plebiscito proibido pelo Congresso e pela Justiça. Tentou demitir o comandante do Exército, que se recusava a ajudar no tal plebiscito. Na sequência, tomou um golpe de estado. Sonhou com a perpetuação no poder, mas acabou chutado de pijama para fora do país.

Aqui no Brasil nós sabemos o custo de querer fazer as coisas "na lei ou na marra". Se você não conhece a expressão, dê uma olhada nas circunstâncias da queda de João Goulart em 1964. Com justiça, os livros de História trazem que Jango foi vítima de um golpe ditatorial. Mas a mesma História registra também o quanto ele ajudou os golpistas, esticando a corda para além do razoável e flertando com o golpismo dos aliados dele, Jango. Por exemplo, ao estimular a insubordinação nos quartéis. Se o "na lei ou na marra" vale para você, vale também para o adversário. E adianta pouco choramingar depois.

De volta à atualidade. Nossa emergência como nação relevante no falatório planetário, na discurseira global, está a exigir um upgrade do governo e dos diplomatas brasileiros nas explicações e nos discursos. Se não, fica parecendo só o que é: uma dança ao sabor das conveniências.

Em nome do princípio de não se meter na vida alheia, o Brasil nega-se a condenar regimes acusados de violar direitos humanos. É compreensível. Não conheço país que adote o respeito aos direitos humanos como primeiro critério de política internacional. Quando o político exibe excessivo interesse no assunto, faça o teste da isonomia. Verifique se ele luta pelos direitos humanos dos inimigos com a mesma ênfase usada para defender os direitos dos amigos. Quem sabe você encontra algum governante que preencha o requisito.

Mas, se os princípios, inclusive o da não ingerência, valem só quando convêm, recorrer obsessivamente a eles vai acabar, um dia, em desmoralização. Daí a necessidade do upgrade. Uma política externa pragmática precisa de suporte intelectual consistente em pragmatismo. Se vamos passar a mão na cabeça de alguns ditadores num dia e condenar outros no dia seguinte, é preciso um pouco mais de sofisticação.

Ao trabalho, itamaratecas!

Melhor estar no poder

Uma lenda brasiliense diz que José Sarney (PMDB-AP) arrependeu-se de ter desejado novamente a Presidência do Senado. E que esse projeto teria sido um erro. Será? Se alguém sabe exatamente a dimensão e a engenharia dos problemas na Casa, esse alguém é Sarney. Desde 2007, abriu-se no Senado um processo histórico. Que caminha. Para Sarney e seu grupo, melhor enfrentarem no poder a chacoalhada. Bem melhor do que apanhar fora dele. É o que pode fazer a diferença entre escapar com ferimentos ou ir para a guilhotina.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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8 Comentários:

Anonymous Anselmo disse...

Alon,
na parte de exigir discursos melhores, 100% de acordo. Na parte do malucão da américa central, pode até ser.
mas na discursera do itamaraty sobre defender portas abertas a cuba na oea estava a afirmação de que a expulsão de Cuba era decorrente de resquícios da Guerra Fria e envolvia a ameaça comunista ao continente.
continua podendo melhorar, mas não é tão tosco.
agora, que a posição oscila conforme a conveniência e as disputas de interesses, aí tende a não haver dúvidas.

terça-feira, 30 de junho de 2009 09:00:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Ô rapaz, vai com calma. Se trabalhando pouco acabaram com a reconhecida competência da política externa brasileira, imagina o que vai acontecer se começarem a trabalhar de fato.
Melhor assim; é ruim. Mas se deixar quieto pode piorar menos.
(e a oposição não teria assunto? Sobram!)

terça-feira, 30 de junho de 2009 09:10:00 BRT  
Anonymous João Paulo Rodrigues disse...

Alon,
Não comento aqui há tempos. Mas lendo seu texto me pergunto se ele não está deslocado em relação à questão específica de Honduras, na medida em que é possível argumentar em termo de realpolitik que se em relação à África e Oriente Médio o pragmatismo dá a tônica já que lá há interesses comerciais e estratégicos fortes, o mesmo não se dá em relação ao país centro-americano, que pode ser rifado em termos de relações diplomáticas, já que ele não possui peso nenhum e a imagem derivada da condenação do golpe como uma louvável posição de defesa de altos e honrados princípios democráticos vem sem custo algum (o que se vê pelo peso que a questão ganhou na mídia e na internet).

terça-feira, 30 de junho de 2009 11:23:00 BRT  
Anonymous lauro mesquita disse...

Caro Alon, o que foi feito em Honduiras não recebeu endosso de nenhum governo até agora, por que foi uma ação criminosa do governo hondurenho.

terça-feira, 30 de junho de 2009 14:23:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Sinceramente, adoro os seus textos e comentários. Porém, achei o texto acima confuso e sem tese explícita.

Daniel - Natal/RN

terça-feira, 30 de junho de 2009 21:16:00 BRT  
Anonymous F. Arranhaponte disse...

Alon, se bem te manjo, tua preocupação é com o precedente da ultra-super-hiper-mega-über intervenção externa nos assuntos internos de um país? Ou não? Estou sinceramente curioso

quarta-feira, 1 de julho de 2009 10:37:00 BRT  
Blogger Alon Feuerwerker disse...

Caro Arranhaponte:

É isso aí. Uma nova Doutrina Bush, defendida pelos que até ontem atacavam a doutrina Bush.

quarta-feira, 1 de julho de 2009 20:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon,
irretocável. Ótimo ponto.

Matusa

quarta-feira, 8 de julho de 2009 05:09:00 BRT  

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