sexta-feira, 1 de maio de 2009

Uma doutrina reinventada (01/05)

Não deixa de ser curioso que a ideia de James Monroe esteja sendo re-elaborada nas condições concretas do século 21. E pelas mãos de governos acusados de antiamericanismo

O governo brasileiro conquistou terreno nas últimas semanas na caminhada pela ampliação e consolidação do Mercosul. Em Caracas, o chanceler Celso Amorim e o presidente venezuelano, Hugo Chávez, avançaram na convergência sobre assuntos pendentes. No Senado brasileiro, último passo que falta para aprovar a entrada da Venezuela no bloco, os números do comércio nacional com o vizinho bolivariano se sobrepõem pouco a pouco às objeções políticas e ideológicas.

O Parlasul —parlamento do Mercosul— caminha para existir graças a uma concessão brasileira: aceitamos estar sub-representados nele, para conforto principalmente do Uruguai e do Paraguai. Essa sub-representação é polêmica. Na prática, o eleitor brasileiro vai pesar menos do que o uruguaio e o paraguaio. Algo parecido com o que se dá na nossa Câmara dos Deputados. Críticos dizem que estamos estendendo para o Mercosul a herança maldita do Pacote de Abril de 1977. Então, o presidente Ernesto Geisel usou o AI-5 para aumentar artificialmente as bancadas dos pequenos estados, onde o desempenho eleitoral do governismo era melhor.

“A comparação não faz sentido”, contesta o líder do PT no Senado, Aloizio Mercadante (SP), um dos costuradores do acordo do Parlasul. “Se quisermos avançar na integração regional, precisaremos fazer concessões”, diz. “E nenhuma nação soberana aceitaria participar de um bloco no qual um único país, pelo tamanho de sua população, tivesse domínio político absoluto.” O senador argumenta que o Parlasul combinará aspectos de proporcionalidade e de equilíbrio, e lembra o papel histórico do Senado na manutenção da unidade nacional entre nós.

Polêmicas à parte, o fato é que a integração adquiriu especial importância para o Brasil com a eclosão da mega crise planetária da economia. Os líderes mundiais discursam contra o protecionismo, mas cada um deles procura manobrar para garantir ao seu próprio país a proteção de mercados.

O Brasil está nessa. Critica, naturalmente, os movimentos protecionistas nos Estados Unidos e na Europa, mas manobra para dar velocidade à formação do bloco regional, que a cada dia ganha mais peso estratégico para as exportações brasileiras. Aliás, essa é uma das principais queixas de nossos vizinhos, pois exportamos demais para eles e importamos deles de menos. Sem que haja solução simples à vista, dada a defasagem no grau de desenvolvimento entre as partes.

Eis um problema. Quando a Europa decidiu se constituir em bloco político-econômico, desenhou uma estratégia de maciços investimentos nas nações mais pobres, na época Portugal, Grécia e Espanha. Em termos práticos, alemães e franceses acabaram dividindo o ônus. E o Brasil, irá dividir o esforço com quem? Claro que com ninguém. É um debate que está por ser feito. Como encontrar o equilíbrio entre os reais investidos aqui, para gerar emprego e renda para os brasileiros, e os reais investidos lá fora, para assegurar mercados ao empresariado nacional.

A discussão está longe de ser apenas teórica. Com suas imensas reservas, a China adota há tempos uma política agressiva de expansão nas relações econômicas. O esforço chinês é mais visível na África, mas a América do Sul também ocupa lugar privilegiado na sua agenda. Dinheiro é que não falta para a China. Já nossas vantagens são a proximidade e a necessidade natural de convivência. Além, é claro, da torcida de Washington, que observa com atenção e satisfação nossos movimentos destinados a limitar a influência chinesa na área.

“A América para os americanos.” Assim passou à História a doutrina lançada no século retrasado pelo então presidente dos Estados Unidos James Monroe. A Doutrina Monroe foi criada para explicitar a oposição dos Estados Unidos à influência europeia nas Américas. Não deixa de ser curioso que, agora, com a ampliação e consolidação do Mercosul, a doutrina esteja sendo reinventada nas condições concretas do século 21. E pelas mãos de governos que, na teoria, têm um pé, ou os dois, no antiamericanismo. São as ironias da História.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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7 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Alon,

Esse seu texto não faz sentido, porque o uso da palavra "americano" que você faz é totalmente indevido. norte-americano parece americano, mas são duas coisas totalmente diferentes.

Paro por aqui e deixo o resto para Wittgenstein:

If we spoke a different language, we would perceive a somewhat different world

Language is a part of our organism and no less complicated than it

sexta-feira, 1 de maio de 2009 07:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon Feuerwerker,
O mundo é muito complicado. Comentei em algum post no passado que era contra o voto distrital majoritário. Era a favor do voto distrital proporcional e deixava bem claro que voto distrital proporcional não tem nada a ver com o voto distrital misto que é ter eleições distritais majoritárias e eleições não distritais (ou gerais) proporcionais. Atualmente no Brasil para as Câmaras dos Deputados, Assembléias Legislativas e Câmaras Municipais as eleições são não distritais proporcionais. No meu entender as eleições majoritárias são antidemocráticas, pois levam ao império da vontade da maioria (Sou contra o império não contra a maioria, mas muitas vezes a maioria significa poder econômico e não quantidade de voto). As proporcionais levam ao fisiologismo, à barganha, ao toma-lá-dá-cá que se tornou da essência da democracia moderna. A eleição proporcional com menos de 5 candidatos torna-se uma eleição majoritária. O presidente Geisel foi um presidente da época da ditadura,e o AI-5 é o símbolo máximo daquela época. A representação maior dos estados mais pobres trouxe duas vantagens que a esquerda não pode abrir mão: favoreceu aos estados mais pobres e deu maior proporcionalidade as eleições. Nas eleições majoritárias os poderosos são mais poderosos do que nas eleições proporcionais.
Clever Mendes de Oliveira
BH, 01/05/2009

sexta-feira, 1 de maio de 2009 12:14:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Este blog é realmente fundamental. Vejam:

BBC

Atualizado em 1 de maio, 2009 - 16:25 (Brasília) 19:25 GMT

Influência de China e Irã na América Latina é 'inquietante', diz Hillary

A secretária de Estado americana, Hillary Clinton, afirmou nesta sexta-feira que a influência da China e do Irã nos países da América Latina é "inquietante".

Segundo Hillary, países como a China, a Rússia e o Irã estão progredindo na América Latina, estabelecendo relações próximas com líderes que foram hostis a Washington durante o governo do presidente George W. Bush.

"Na verdade, se você analisar os ganhos, particularmente na América Latina, que o Irã conseguiu, que a China conseguiu, é muito inquietante. Eles estão construindo fortes conexões econômicas e políticas com muitos destes líderes", disse Hillary a funcionários da chancelaria reunidos no Departamento de Estado, em Washington.

O presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, por exemplo, vem ao Brasil no próximo dia 6, em uma visita que já gerou protestos por parte de Israel.

A secretária disse que as tentativas do governo Bush de isolar líderes da América Latina que são contra os Estados Unidos apenas os tornou mais receptivos a outras potências internacionais.

"O governo anterior tentou isolá-los, tentou dar apoio à oposição, tentou transformá-los em párias internacionais. Não funcionou", disse."Este é um mundo multipolar no qual estamos competindo pela atenção e relacionamento com, pelo menos, os russos, os chineses e os iranianos", afirmou Hillary.

"Não acho que é do nosso interesse virar as costas para países que estão no nosso hemisfério."

Chávez e Cuba

A secretária de Estado também defendeu as tentativas do governo do presidente Barack Obama de reverter os problemas nas relações diplomáticas com vários países da América Latina, incluindo a Venezuela do presidente Hugo Chávez (que tem um discurso antiamericano), Cuba e Bolívia.Hillary Clinton lembrou que os Estados Unidos estão enfrentando "quase que uma frente unida contra os Estados Unidos no que diz respeito a Cuba".

"Cada país, mesmo aqueles que são mais próximos, afirma 'vocês têm de mudar. Vocês não podem continuar fazendo o que estão fazendo'. Nós gostaríamos de ver alguma reciprocidade dos Castro em (questões como) prisioneiros políticos, direitos humanos e outras questões", afirmou.

"Então, estamos analisando uma série de relacionamentos diferentes e tentando descobrir onde podemos ser mais produtivos. Meu ponto principal é o que é melhor para a América", disse.

sábado, 2 de maio de 2009 10:26:00 BRT  
Anonymous Enrique Villalobos disse...

"(...) Meu ponto principal é o que é melhor para a América (...)".

Essa última frase matou tudo.

América, neste caso: Estados Unidos. E não o continente americano.

Novos problemas, velhos pensamentos.

sábado, 2 de maio de 2009 16:03:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"A doutrina está sendo reinventada PELAS MÃOS de governos etc..."

Conclusão: ou a tese do Alon não tem sentido ou implica que o governo da Venezuela e do Brasil são governos fantoches dos Estados Unidos.

Uma coisa é os Estados Unidos reavaliarem a SUA politica com relação à Venezuela, Cuba etc. Outra coisa é imaginar que a ampliação do Mercosul é algo que, sob as aparências que os ingênuos enxergam, guarda um segredo profundíssimo: a defesa dos interesses de última instância do Grande Satã por governos que, aparentemente também, são hostis aos EUA.
Por esse raciocínio lisérgico, Chavez e Lula estariam, no fundo, tentando prejudicar a China e o Irã, por meio da ampliação do Mercosul.

Non sense.

Eu já dei a dica sobre o Wittgenstein. Antes dele, a maioria dos problemas que eram vistos como filosóficos, na verdade eram problemas de linguagem... O problema é que o Alon invocou com a semelhança fonética entre americanos (yankees) e americanos (todos os habitantes das Américas).
Deu chabu.

"Se nós falássemos de acordo com uma linguagem diferente, perceberíamos o mundo também de forma um tanto diferente".

sábado, 2 de maio de 2009 18:41:00 BRT  
Anonymous olhosdosertao.blogspot.com disse...

Alon colocou um texto dúbio que leva para vários entendimentos, dependendo do ponto de vista do leitor e não do próprio.

Primeiro é preciso refletir que o governo tem sido hábil para dialogar com os nossos vizinhos, principalmente com a Bolívia e Venezuela para não citar o nosso grande adversário por aqui - Argentina.

Veja que se dependesse dos DEMO-TUCANOS o Brasil já teria virado as costas para A América do Sul e neste momento estaríamos em apuros com a dependência aos EUA?

Isto é um fato Alon?

Se não houvesse proporcionalidade que favoreceu aos estados mais pobres como seria a situação de hoje com os DEMO-TUCANOS dominando o estado de São Paulo?

Outro fato importante a ser colocado é que de fato as nossas maiores empresas estão se tornando multinacionais (de sul ao norte da América do Sul)

Por fim, A América do Sul e sua integração favorece principalmente ao Brasil pelo domínio em várias áreas do comércio mundial, mas principalmente por ter diversificado o comércio exterior com vários países, principalmente China que passou a ser o maior país importador de produtos brasileiros.

Importante ainda destacar que o Brasil recebe o presidente do Irã como um parceiro comercial, independentemente se EUA e Israel irão gostar ou deixar de gostar.

Os tempos são outros e portanto, vejo que a doutrina Monroe não cabe, no meu entendimento, no seu texto Alon.

domingo, 3 de maio de 2009 15:07:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

"Panamericanismo es un pan,que solamente los americanos comen"-
Haya de La Torre

segunda-feira, 4 de maio de 2009 11:40:00 BRT  

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