terça-feira, 19 de maio de 2009

Um pessoal duro na queda (19/05)

O Palácio do Planalto volta a depender do “PMDB do Senado”, grupamento político aparentemente imune às tentativas palacianas de liquidá-lo

Do exterior, o presidente da República continua a despejar fogo verbal sobre a oposição, especialmente sobre o PSDB. O comportamento de Luiz Inácio Lula da Silva é só um sintoma de que algo saiu errado na maneira como o governo tratou a ameaça de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) a Petrobras. É regra de ouro na política: quem está no controle não precisa falar grosso; se fala grosso, é porque talvez não esteja no controle. Lembram do primeiro debate no segundo turno de 2006? Geraldo Alckmin rugiu alto. E Lula ganhou.

Quem acompanha o Senado percebia que algo ruim se desenhava ali para o governo. A conversa nos corredores semana passada não era sobre a CPI da Petrobras, era sobre uma do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes). Ela não vingou, mas o governo aparentemente vai ter que engolir essa outra, bem mais indigesta. Os motivos formais para uma CPI do Dnit? Mais vagos ainda do que os invocados para investigar a Petrobras. Até aí nada. A História regista que um dia o PT quis criar a “CPI da Corrupção”. Desde quando CPI precisa de “fato determinado”?

A agressividade verbal do presidente da República ajuda a mobilizar sua base ideológica, mas não resolve um problema: com a CPI da Petrobras, PSDB e Democratas arrumaram assunto e também o que fazer nos próximos tempos. Não que faltassem outros temas, até mais suculentos. O Senado, poderia, por exemplo, ter instalado uma CPI para investigar por que o Banco Central manteve a taxa de juros congelada de outubro a março, enquanto o crédito secava e a economia mundial derretia. Mas tucanos e democratas no Congresso tratam a diretoria do BC como se deles fosse.

E que tal uma CPI das Terceirizações do Senado? Mas não vamos ficar no leite derramado. A curiosidade se volta agora para o que vai dar a CPI da Petrobras. Em teoria, o governo pode neutralizá-la. O Planalto tem encantos para tal. E o alvoroço entre os financiadores de campanhas anda forte. Um exemplo de como o governo pode acabar com CPIs é a das ONGs. Existem poucos assuntos mais necessitados de uma investigação em Brasília do que a festa das Organizações Não Governamentais com verbas públicas. Ou então a ingerência externa na Amazônia. Só que apesar do bom objeto a comissão não anda. O governo não deixa. E a oposição tampouco faz força.

Por que então o oficialismo está tão incomodado com a CPI da Petrobras? Em primeiro lugar, como escrevi no domingo, pelos potenciais constrangimentos à capacidade de operação política da empresa no período eleitoral. Em segundo lugar, pelo fato de o Palácio do Planalto voltar a depender do “PMDB do Senado”, um grupamento que parece imune às tentativas palacianas e petistas de liquidá-lo.

Várias guerras depois, eis aí José Sarney (PMDB-AP), Renan Calheiros (PMDB-AL) e Romero Jucá (PMDB-RR). Sarney sobreviveu à aliança PT-PSDB montada para derrotá-lo. Renan, a uma tentativa de cassação na qual o PT fez jogo duplo. E faltaria espaço nesta coluna para listar as ocasiões em que Jucá já escapou do fogo. Agora, o trio está de novo dando as cartas e jogando de mão.

Sonho situacionista
A proposta de lista fechada (o eleitor vota na legenda, e não no candidato, e o partido decide quem vai ocupar as vagas no Legislativo) captura corações no PSDB. Um deputado federal tucano me contou os motivos dele. Com uma forte candidatura a turbinar o “45” no primeiro turno para presidente, o sonho dos parlamentares da legenda é as chapas para a Câmara serem levadas de arrasto. É o sonho de uma grande bancada tucana em 2011.

Outro raciocínio da mesma fonte é que com fidelidade partidária e lista fechada para deputado acaba o problema de o Executivo formar maioria na Câmara. A negociação ficará centralizada nas direções partidárias. A possibilidade de dissidências diminui muito. O deputado que desejar dissentir, que não se enquadrar no acordo da legenda com o Planalto, já saberá que corre o risco de ser jogado lá para baixo na lista na eleição seguinte.

Pelo visto, esse tucano não trabalha com a hipótese de estar na oposição em 2011.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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4 Comentários:

Anonymous Lucas Jerzy Portela disse...

Alon, dê uma espiada em Salvador, com o PMDB (que se não é "do senado", parece) coladinho com o carlismo, e não apenas rompendo com Wagner, como mentindo ao dizer que "nunca o apoiou".

Só Lula não percebe que o PMDB um dia foi de sua base. Foi, do verbo não é mais. Isso Salvador lhe disse em outubro último, quando implorou para que ele apoiasse explicitamente Walter Pinheiro, de seu partido, contra João Henrique, do PMDB carlista atualmente.

Mas Lula é surdo.

terça-feira, 19 de maio de 2009 07:39:00 BRT  
Blogger Vera B. disse...

Ainda bem que o Lula é surdo, se fosse ouvir a opinião de todo mundo que acha que sabe o que ele deve fazer a partir do que diz a imprensa, e não do que realmente está acontecendo agora e das perspectivas futuras, não emplacava nem 6 meses. Principalmente de quem um dia acha uma coisa e outro dia acha justamente o oposto. Todo mundo acha ...

terça-feira, 19 de maio de 2009 10:15:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Que se troque pelo menos as moscas.
Esses Parlamentares – todos – possuem as condições técnicas exigíveis para mudar a legislação eleitoral. Não possuem, contudo, mínima condição ética ou de representatividade para fazê-lo. Melhor que silenciosamente escorreguem para o passado, coerentes com o silêncio que se mantiveram quando na ausência da defesa das prerrogativas congressuais e na insuficiência do cumprimento de obrigações morais mínimas.
Que se vayan todos!

terça-feira, 19 de maio de 2009 10:18:00 BRT  
Anonymous RB de Mello disse...

As baratas e algumas outras poucas espécies sobrevivem aos holocaustos. Naturais ou provocados. Possuem habilidades raras para a sobrevivência e sua perpetuação. Nenhuma que lhes valham qualquer notoriedade positiva. Na fauna política alguns têm capacidade idêntica; se dúvida há quanto a quem será o/a novo ocupante do Planalto, nenhuma existe sobre suas lideranças no Congresso. Muito menos sobre a tal “base de sustentação”. De qualquer governo. Mais fácil ficará sua negociação a partir das listas fechadas. Se já se lixam agora para o eleitorado, depois das listas então.... Não serviremos mais nem para cúmplices.

terça-feira, 19 de maio de 2009 11:15:00 BRT  

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