terça-feira, 26 de maio de 2009

Um partido de quadros (26/05)

O futuro governo certamente dependerá dos parlamentares do PMDB. Mas se a oposição ganhar haverá troca de guarda entre os caciques peemedebistas

O advérbio “visivelmente” é um risco no jornalismo. “Visivelmente emocionado”, por exemplo, é expressão complicada de usar. Você nunca tem certeza de que o sujeito está mesmo emocionado. Ainda mais na política, onde se finge muito. Melhor portanto limitar-se a descrever a situação que levou a concluir pela emoção do personagem da notícia. E o receptor da informação que se vire.

Isso foi um nariz de cera, apenas para não passar vergonha com o que vou escrever aqui sobre o PMDB. Descumprindo a regra, arrisco dizer que o partido está visivelmente ansioso diante das variáveis colocadas pelo andar da carruagem. Como agir na sucessão? Apoiar o PT ou o PSDB? Ou ficar fora? E na CPI da Petrobras, alinhar-se ao governismo radical ou fazer jogo duplo e dar um gás à oposição? E nos estados, contar com o apoio do PT em 2010 ou procurar uma beirada em outros ninhos? E o terceiro mandato, vale a pena entrar na barca continuísta?

A ansiedade do PMDB tem explicação. Mesmo para um partido de profissionais, como é o caso, fica difícil administrar os sentimentos quando há tanta coisa em jogo. É como o sujeito que chegou na última pergunta do Show do Milhão. Vai mesmo arriscar tudo num só lance? E se errar? Não seria melhor ficar com o que já conseguiu e ir feliz para casa? Mas na política “ir para casa” com o que se tem não é possível. Para tristeza do PMDB.

O partido etá ansioso porque tudo tem dado tão certo que se melhorar piora. Nesta reta final de governo Lula, a legenda está na situação que tradicionalmente almeja: cheia de poder e sem nenhuma responsabilidade. Está solidamente instalada em importantes artérias da execução orçamentária, mas não pode ser responsabilizada por qualquer das grandes diretrizes da administração. Juros? O PMDB não tem culpa nenhuma. Percalços na política externa? Nada a ver com o PMDB. E por aí vai.

No governo Luiz Inácio Lula da Silva, o PMDB chegou ao ápice, na atividade em que se especializou desde o governo Sarney: ser um partido governamental, mas só nos bônus. O que lhe garante, ao mesmo tempo, ampla liberdade de ação e também os meios materiais para reproduzir sua força nos níveis municipal e estadual. Onde aliás o PMDB constroi uma potência incontrastável, eleição após eleição.

Em teoria o PMDB não deveria estar nervoso. Afinal, reza o senso comum que qualquer governo a partir de 2011 precisará do PMDB. É verdade, mas o diagnóstico precisa ser matizado. A futura gestão dependerá sim dos parlamentares do PMDB. Entretanto, se a oposição ganhar haverá necessariamente troca de guarda. Do mesmo jeito que Lula fez as “viúvas de FHC” comerem o pão que o diabo amassou entre 2003 e 2006, é improvável que um eventual governo tucano prestigie os comandantes da tropa de choque de Lula. Ou pelo menos quem ficar até o fim nela. E certamente haverá candidatos no PMDB para ocupar o lugar dos caídos. O PMDB, como se sabe, é um partido de quadros.

Para a tropa de choque, portanto, é hora de não errar. Tem que saber o tempo certinho de pular do barco ou de decidir ficar firme nele. Por isso o PMDB comparece dia sim outro também ao noticiário exigindo definições. Nos estados, onde quer o apoio do PT aos candidatos peemedebistas. E em Brasília, onde murmura por um “plano B” do campo de Lula, quando não dá curso às conversas sobre mais um mandato consecutivo para o próprio. Haja ansiedade.

À espera de outubro

Os articuladores subterrâneos da proposta de incluir na Constituição a possibilidade de Lula disputar um terceiro mandato consecutivo quebram a cabeça sobre o que fazer com prefeitos e governadores.

Sabem que aprovar no Supremo Tribunal Federal a tese de uma segunda reeleição para a Presidência é tarefa complexa. Que se tornará impossível caso o direito não seja estendido a estados e municípios. Ficaria com cara de casuísmo indisfarçado.

Sobre a ideia de prorrogar mandatos, sabe-se no Congresso que a chance de o STF concordar com isso é menor que zero. Mas o assunto servirá para preencher o tempo enquanto outubro, prazo máximo para mudar as regras eleitorais, não chega.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Mais dois pesos pesados que engrossam os contrários à emenda que possibilitaria mais de uma reeleição: os Senadores Pedro Simon e Cristovam Buarque. Ontem, 25 de Maio, o Senador Simon lembrou um fato sobre o qual ninguém falava mais. Num certo período, antes da redemocratização, houve proposta de autodissolução do PMDB. Sendo repetitivo, parece que o partido só não fica visivelmente emocionado com as agruras do estorvo cidadão, contribuinte compulsório e eleitor.

Swamoro Songhay

terça-feira, 26 de maio de 2009 09:40:00 BRT  
Anonymous Too Loose Lautrec disse...

Permita discordar pelo menos em parte. Afora raríssimas exceções (basicamente Sarney et entourage) as atuais lideranças do PMDB foram partícipes bastante próximas do governo tucano. A exemplo de Jucá e Renan dentre muitíssimos mais.
Até os que ocuparam a linha de frente anti-Lula nos idos de 2003 posteriormente, alçaram altos cargos no governo ou com sua parceria, como Geddel e Temer e por aí afora.
Cumprem seu papel hoje como ontem. E não hostilizam o PSDB. É mesmo bem mais crível identidade maior entre essas lideranças com o PSDB do que com o PT. No entanto, como desde sempre, a visão pragmática da gestão orçamentária, por assim dizer, constituirá a peça-chave na (in) decisão do PMDB.
Há, no entanto, novidade ainda não bem dimensionada, representada pela candidatura da Ministra Dilma, aguçando sobremodo alguns apetites.
O que não existe é receio de que ganhando A ou B, sejam quaisquer das alas do PMDB prejudicadas politicamente. Sobreviverão, como desde sempre. Exceto no caso de Terceiro (ou Quarto ou Quinto ou...) Mandato(s), quando, então, não valeriam tanto diante de governante tão poderoso.

terça-feira, 26 de maio de 2009 11:06:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

Eu não dou tanta atenção ao que diz gente do STF. Tem tanto direito de opinar quanto eu, você ou qualquer cidadão. Mas quem legisla e tem mandato popular para mudar a constituição é o Congresso Nacional. Satisfeita a maioria de 3/5 o Congresso pode fazer reformas constitucionais, não há qualquer impedimento.
Ao judiciário cabe fazer cumprir as leis existentes e não criá-las, nem impedir isto.

terça-feira, 26 de maio de 2009 16:39:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

O jogo do PMDB é o velho de sempre: uma parte aposta as fichas num lado, outra no outro. Ansiedade houve em 98 na convenção contra Itamar. Agora há bem menos. São as velhas e cotidianas catimbas políticas normais, que sempre existiram, e que hoje despertam mais atenção do que antigamente (será a internet?).

O PMDB faz seu jogo, valorizando o passe. E o governo Lula também faz o seu, moderando o apetite (como no caso recente da diretoria de Petrobras), sempre lembrando que se quiserem ir vestidos de oposição em 2010, enfrentarão a popularidade dele em outros palanques.

terça-feira, 26 de maio de 2009 16:47:00 BRT  
Anonymous Luca disse...

Sugiro ao Presidente Lula que, se quer mesmo, tenha a coragem de defender sua continuidade no poder.
Sem isto, nao vejo nenhuma chance concreta para esta proposta prosperar.

terça-feira, 26 de maio de 2009 21:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Não seria continuidade no poder, pois, não há garantia ou certeza de que seria reeleito pela segunda vez. Trata-se da tentativa de edição de uma Emenda que permitiria candidatura em 2010 para quem já teve a oportunidade de concorrer e ser eleito para um segundo mandato. Outros penduricalhos objetivam prorrogar mandatos executivos e legislativos e reduzir o prazo para mudança de partido. Caso passe tal Emenda, isto não demonstraria a força do executivo reeleito. Representaria, ao contrário, a comprovação da força do PMDB, pois, sem ele tal intuito não tem como prosperar e muito menos de vencer.

Swamoro Songhay

quarta-feira, 27 de maio de 2009 09:06:00 BRT  

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