terça-feira, 5 de maio de 2009

O pior já passou? (05/05)

Já se vão quase oito meses de crise, de economia capenga, de paralisia na geração de empregos

O governo adotou uma linha de comunicação eficaz para enfrentar a crise. A cada número problemático, autoridades vêm a público para dizer que ele reflete o passado, e que o pior já passou. Com isso, tudo que é ruim deixa ter ter relevância política, por pertencer ao tempo pretérito. Relevante mesmo, só o futuro. E, como não há estatísticas sobre o futuro, torna-se impossível checar se o que o governo projeta corresponde ou não aos fatos.

O método possivelmente repetir-se-á quando soubermos, daqui a algumas semanas, o PIB do primeiro trimestre de 2009. Se for ruim, será descartado para efeitos analíticos, por supostamente refletir uma realidade que não mais existe. Se for menos ruim, vai ser apresentado como a prova de que o pior já passou mesmo. Vai ser a demonstração de que os críticos estiveram sempre errados. E de que o governo está se saindo bem na empreitada.

Será? Já se vão quase oito meses de crise, de economia capenga, de paralisia na geração de empregos. É verdade que graças à demanda chinesa por commodities o quadro não está tão feio quanto poderia. Mas não tenho certeza de que o governo brasileiro está de fato fazendo o melhor que pode. Nos juros, por exemplo, atacou-se parcialmente um dos vetores mais problemáticos, a Selic. Ela está 3,5 pontos percentuais mais baixa. De 13,75% fomos a 10,25%. Só que a inflação também caiu. Aliás, expurgados os preços administrados, não há como falar em inflação “de mercado” hoje no Brasil.

Ou seja, em termos reais avançou-se pouco na tarefa de baixar o juro básico. A prova está no dólar. Temos hoje o “menor juro de todos os tempos” (aqui o passado serve como referência...), mas o dólar embicou para baixo. A moeda americana fechou abril com a mais aguda queda mensal em dois anos e meio. Só no mês passado a moeda americana recuou 6%. E ontem caiu mais 2,34%.

Por que o dólar cai, apesar da queda do juro? Ora, porque este continua excessivamente alto, para as circunstâncias (ainda que possa parecer baixo nas planilhas dos historiadores). E o grave é que talvez estejamos a perder uma oportunidade única para cortar radicalmente a taxa sem risco de estourar a inflação. Com o real a caminho da revalorização, quando surgirá outra ocasião como esta? Quando teremos outro cenário em que a Selic poderá ser amputada quase inelasticamente na relação com a variação dos preços?

E não é só. Há, ainda, o preocupante efeito colateral da perda de competitividade que um real artificialmente alto trará aos nossos produtos e serviços de maior valor agregado, num mundo em que as nações afiam as garras protecionistas e o comércio está na UTI. Mas, infelizmente, o problema não tem merecido do governo tratamento à altura da urgência e da relevância.

Já se vão quase oito meses de crise, e o Palácio do Planalto ainda estuda uma fórmula para impedir que a remuneração da poupança funcione como piso para a Selic. Oito meses. É evidente que o governo estava completamente despreparado para a eventualidade de ter que reduzir radicalmente os juros. O atraso fala por si.

E o “spread”? No que deu a grita da sociedade diante da espoliação que os bancos promovem contra o patrimônio das empresas e das pessoas? Em rigorosamente nada. Ainda que os políticos nos prometam que o “spread” (diferença entre o juro que o banco cobra do tomador de empréstimo e o que paga ao poupador) agora vai cair, depois que o Congresso Nacional aprovar o assim chamado cadastro positivo, o dos bons pagadores. Lembro de outras vezes em que isso foi prometido, como, por exemplo, na tramitação da nova Lei de Falências. Mas não custa ser otimista. Vamos aguardar.

Melhor fazer

O Egito decidiu abater todo o rebanho suíno por causa da gripe ex-suína. A Organização Mundial da Saúde diz que é um exagero. Aqui entre nós, eu prefiro governos que em situações assim errem por fazer. Melhor do que errar por não fazer.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

Acompanhe este blog pelo twitter.com

Assine o canal deste blog no YouTube

Assine este blog no Bloglines

Clique aqui para mandar um email ao editor do blog

Para inserir um comentário, clique sobre a palavra "comentários", abaixo

9 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Quem acertou ,com as soluções,nesta crise? Profusão de palpites, acadêmicos,populares e principalmente midiáticos.Para dividir o complexo, as potências "primeiromundistas",terminaram por sepultar todas as escolas de pensamentos economicos,e suas legiões de sábios consultores.Diáriamente , somos surprendidos,pela gangorra dos números.Como relógio parado, os especuladores também acertam,à cada vinte e quatro horas...

terça-feira, 5 de maio de 2009 10:18:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Wittgenstein manda dizer, lá do "azul aprisco", que concorda com seu post.

terça-feira, 5 de maio de 2009 14:39:00 BRT  
Anonymous Arlindo disse...

Alon, concordo com o que vc falou sobre os juros, mas a sua comparação com as medidas do Governo Egipcio frente a Gripe é difícil de defender!! Sejamos francos, os dados apresentados pela OMS, e outras entidades sérias na área da saúde, demonstram claramente que medida tomada pelos Egipcios contra os porcos além de exagerada...é inócua...não terá efeito nenhum para impedir entrada do virus no País! Ações como estas demonstram acima de tudo desconhecimento e desespero. Confesso, que nesse quesito o Governo Brasileiro vem se saindo bem...mas bem melhor...Alon não seria interessante um post sobre isto???

terça-feira, 5 de maio de 2009 21:32:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Prezado Alon, para seu conhecimento, no Egito, a criação de porcos é basicamente feita pela população cristã, daí, aproveitaram a histeria para golpear a minoria em um ponto sensível, o bolso.

terça-feira, 5 de maio de 2009 22:20:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, Alon,

Sabemos que todos temos um pouco do tal "espírito de porco".
Você está se deixando guiar por ele?

daSilvaEdison

terça-feira, 5 de maio de 2009 22:30:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É porque a população cristã é menos de 10%. Os muçulmanos não comem carne de porco assim como os judeus.

terça-feira, 5 de maio de 2009 22:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É interessante como a maestria, que permite a MAXIMIZAÇÃO, é um privilégio para poucos. Andar no fio do navalha para obter o máximo de vantagens exige perícia, sangue-frio e maturidade institucional.
Às vezes é tentador tomar medidas que têm alto benefício, mas que também têm alto custo, sem enxergar os últimos.
Os exemplos são inúmeros.
Um médico ótimo é aquele que consegue administrar tratamentos não radicais de forma a maximizar o bem-estar do paciente. Um médico menos capaz, por exemplo, amputa a perna para evitar a infecção, mas o paciente fica perneta...
Um banco central ótimo, adminstra uma taxa de juros razoável e compatibiliza inflação e emprego. Um banco central ineficiente mata a inflação mas segura a economia em um nível ineficiente.
Um país despreparado simplesmente mata os porcos... Talvez fosse possível uma solução menos radical e mais eficiente. Mas é preciso SABER FAZER.

quarta-feira, 6 de maio de 2009 15:14:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

O spread caiu sim, nos bancos oficiais e alguns bancos privados.

Faltam os microempresários e pessoas físicas dos bancos que ainda não baixaram (há bancos que cobram o dobro de outros), exercer sua prerrogativa de consumidor: exigir do gerente taxas iguais à da concorrência ou mudar de banco.

Pode estar longe ainda do desejável, mas era tão grande, que uma queda pela metade representa um alívio monumental no bolso de quem depende destes créditos.

quarta-feira, 6 de maio de 2009 17:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

É claro. Esse povo sempre atrapalhando a excelente atuação do governo. O spread caiu. Vivemos no melhor dos mundos possíveis, não é mesmo, Dr. Pangloss?

quarta-feira, 6 de maio de 2009 19:20:00 BRT  

Postar um comentário

<< Home