quarta-feira, 13 de maio de 2009

Minha cota anual de ingenuidade (13/05)

Ouço aqui e ali que a próxima eleição presidencial será talvez a mais enfadonha de todos os tempos. Tomara. Significará que os eleitores chegamos a maioridade

O noticiário de ontem me trouxe um certo otimismo. A coordenação de governo, com a presença da ministra Dilma Rousseff, concluiu que é hora de debater o tamanho do Estado, a proporção entre custeio e investimento nos gastos governamentais e a política de contratação de servidores. No Nordeste, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, participou de um evento tucano cujo mote foi falar bem do Bolsa Família. Para complementar o dia, o governador de São Paulo, José Serra, expôs em detalhes as já conhecidas críticas dele à condução da política monetária.

Por que o otimismo? Porque não é sempre que os principais políticos do país, candidatos a nos liderar, dão sinais de que o debate eleitoral pode -quem sabe?- pelo menos resvalar nos grandes problemas nacionais. Imaginem como será bom se na eleição do ano que vem tivermos uma disputa programática, para valer. Nem me lembro da última vez em que pudemos saborear algo assim. Talvez em 1994, com o Plano Real, ainda que ele contivesse boa carga de messianismo.

Collor? Elegeu-se prometendo caçar os marajás. Lula? Quem ainda se lembra do Primeiro Emprego, da Farmácia Popular e do Fome Zero? Graças também à legislação restritiva, as eleições entre nós convertem-se cada vez mais em torneios de marquetagem. Talvez seja hora de acabar com isso. De fazer uma eleição mais “americana”. Com marquetagem, mas pelo menos disfarçada de algo útil ao eleitor que busca formar opinião.

Seria razoável oferecer aos candidatos ano que vem um bom ambiente para discutirem, por exemplo, o futuro dos programas sociais. Ou então, como combinar Estado e capital privado para alcançar uma eficiência ótima. Ou como fazer para o brasileiro pagar um spread bancário civilizado. E que tal a política de ocupação da Amazônia, sua defesa ambiental e estratégica? Não acham um bom tema? Pois é, assuntos há aos montes, e todos relevantes. Daí meu otimismo repentino. Não que a eleição corra o risco de se transformar numa chatice conteudística. Ninguém é maluco de achar isso. Mas que está na hora de os políticos pararem de tratar o eleitor como simples massa de manobra, isso está.

Vamos dar valor ao que tem valor. O que os candidatos propõem para enfrentar o mais grave problema nacional, o “genocídio de cérebros”, como bem define o ex-ministro da Educação e hoje senador Cristovam Buarque (PDT-DF)? Como garantir ao filho do pobre uma escola tão boa quanto a oferecida aos meninos e meninas da classe média, ou alta? Sabe-se que a solução não se resume a construir prédios e contratar professores.

Eleição após eleição, o sujeito vai à tevê com números para mostrar que “fez mais pela educação” do que os outros. Mas a maioria das crianças e jovens brasileiros continuam saindo da escola sem saber o mínimo, sem saber ler, escrever ou fazer contas como deveriam. E sem que essa tragédia silenciosa desencadeie um sentimento nacional de urgência comparável, por exemplo, ao que emerge, com razão, em episódios como o descontrole no uso das cotas de passagens aéreas de senadores e deputados.

Colunas políticas escritas sob a influência do otimismo correm o risco de parecer ridículas, em tempo real. E o risco cresce conforme o tempo vai carregando para trás o que você escreveu. Você olha retrospectivamente e vê que esteve tomado por uma ingenuidade inaceitável, ainda mais em quem tem por ofício tentar explicar ao leitor por que as coisas na política são como são.

Mas eu resolvi correr o risco. Ouço aqui e ali que a próxima eleição talvez seja a mais enfadonha de todos os tempos. Tomara. Se acontecer, significará que os eleitores finalmente chegamos à maioridade. E que as eleições brasileiras deixaram de ser apenas torneios de mistificação, em que os bandos se digladiam para, ao final, um deles saborear a delícia de poder ajudar os amigos, com a estabilidade de um emprego público ou com o acesso privilegiado ao orçamento.

Acho que hoje esgotei minha cota de ingenuidade por pelo menos um ano.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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6 Comentários:

Blogger Briguilino disse...

Será sim a mais enfadonha de todos os tempos mas porque a Dilma vai vencer no primeiro turno e com facilidade.
A disputa mesmo será para govenador e para vagas de senadores.

quarta-feira, 13 de maio de 2009 07:54:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Alon, por ora abandono um pouco a minha sensação de enfado previsto para as campanhas que se avizinham. Faço votos que o enfado ocorra por termos tanta coisa boa para ouvir e pensar, motivados pelos discursos e propostas dos candidatos. Coisas que instiguem a pensar o País além dos lugares comuns. Alio-me, aqui, com esta última frase, ao sentimento de pura ingenuidade.

Swamoro Songhay

quarta-feira, 13 de maio de 2009 09:41:00 BRT  
Blogger Maria Helena disse...

Para um romeno você é um ótimo brasileiro. Admiro seu trabalho, considero suas análises as mais completas e lúcidas,de toda essa enxurrada de informações na sua maioria desencontradas e tendenciosas. Parabéns.

quarta-feira, 13 de maio de 2009 11:46:00 BRT  
Blogger ZEPOVO disse...

Fez bem de "correr o risco" precisamos de otimismo na política.
Toda campanha eleitoral começa com os programas de governo, chega ao meio com troca de denúncias e termina em "briga de foice"...

quarta-feira, 13 de maio de 2009 14:54:00 BRT  
Anonymous JOEL PALMA JR. disse...

ALON, acho muito importante que comecemos a discutir os grandes temas para a formação de uma NAÇÃO...porém, porém, é muito importante lembrar que eleição é satisfação de necessidades...é bem mercadológico mesmo, isto é, eu tenho necessidades e você se compromete a supri-las e ganha meu voto...simples escambo...O IMPORTANTE é que o nível geral de necessidades tem sido tão baixo, mas tão baixo, que a grande massa da população queria coisas tão básicas como o acesso à Saúde e à Educação...e querendo ou não, como a necessidade é imensa, nivelamos o debate por baixo, porque não se pode dar a uma massa necessitada um discurso de tom elevado...pois bem, se começamos a discutir temas mais relevantes, deve-se a estarmos entrando, com novas gerações, em outros patamares de necessidade (PURO MASLOW), e assim sempre será, pois não adianta discutirmos com a MÉDIA da população o que eles não querem discutir...quem quer saber de ALTOS TEMAS se nem os TEMAS de interesse geral e imediato são resolvidos? QUE SEJA ASSIM, mas verdade seja dita, independente da opinião sobre Serra, Ciro, Aécio ou Dilma...DEUS DO CÉU, não temos mais Maluf, Collor, Enéas, Quércia, Sarney, na disputa...PODEMOS DIZER O QUE FOR DOS CITADOS possíveis candidatos e candidata a Presidente, mas NUNCA tivemos opções tão marcadamente preparadas para a ação política e pública...GRAÇAS A DEUS! e que o nível se mantenha, e sejamos uma grande nação, como em um texto de Mauro Santayana, que diz que o Brasil será exemplo de uma nova Civilização, baseada na mistura e na diferença...SEJAMOS EXEMPLO...você, como sempre, BRILHANTE! um grande abraço.

quarta-feira, 13 de maio de 2009 15:38:00 BRT  
Anonymous Adriano Matos disse...

Há tempos, o PT propôs a moratória da dívida externa com o FMI por julgar que desenvolver um país atrelado a uma dívida secular corresponde a desviar recursos que deveriam ir para educação, saúde, etc...

Esse entendimento foi envergonhado perante a sociedade, com o aval dos grandes formadores de opinião.

Não duvido que qualquer proposta popular seja assim tão facilmente descartada como populismo, de forma que torne-se difícil sua implantação.

Cito a manifestação do Presidente Lula de destinar parte do lucro proveniente da exploração de petróleo do pré-sal para educação. Quem sabe assim, não podemos colocar em prática o sonho do Senador Cristovão Buarque de fazer a escola federal 'modelo BB'.

Ainda, qualquer proposta que se destine a discutir o latifúndio e o papel do MST será também rechaçado pela sociedade, conduzido como ovelhinhas pelo grande irmão 'a rede blogo'.

(Alon, ontem comentei o post 'Faroeste Caboclo' e o comentário não foi liberado).

quarta-feira, 13 de maio de 2009 16:12:00 BRT  

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