quarta-feira, 27 de maio de 2009

Enquanto a Mãe China não vem (27/05)

Após quase nove meses de debate, já sabemos que os bancos culpam o BC pelo spread, e sabemos também que o BC culpa os bancos. Mas, e a solução?

A celeuma da Comissão Parlamentar de Inquérito da Petrobras ajuda o governo em pelo menos um aspecto. Serve momentaneamente para deixar em segundo plano o debate sobre a economia. Nos próximos dias deve sair o PIB do primeiro trimestre. Foi ruim, segundo todas as previsões. O consumo interno vem resistindo até certo ponto, mas não o suficiente para compensar o declínio nas exportações. Que agora, além de tudo, enfrentam a revalorização do real.

Nossa moeda vem sendo empurrada para cima pelos juros reais altíssimos do Banco Central. Uma política sem motivo aparente, pois a inflação continua morta. As âncoras monetária e cambial um dia serviram para segurar os preços, mas agora viraram um fim em si mesmas. Um ótimo negócio para o universo financeiro, mas péssimo para a produção brasileira. Coisa que por sinal parece incomodar pouco o governo, já que as reações têm se limitado a manifestações de preocupação e à retórica.

As autoridades agem como se pudessem segurar no gogó a onda da crise. E com base em medidas setoriais, que agradam aos amigos mas não atacam a essência do nosso problema: a escassez e o alto preço do crédito. O Planalto espera de dedos cruzados pela recuperação das economias chinesa e americana. Torcendo para que nossas exportações de commodities funcionem como a fagulha que vai incendiar a pradaria. É pouco para um país que se pretende soberano.

A boa técnica administrativa recomenda buscar as soluções antes de fazer a caça aos culpados. Pelo menos neste caso dos juros, entre nós acontece o contrário. A crise fez emergir o debate sobre o indecente spread bancário brasileiro (a diferença entre o juro que o banco cobra do tomador de empréstimo e o que paga ao investidor). Após quase nove meses de polêmica, já sabemos que os bancos culpam o BC, e sabemos também que o BC culpa os bancos.

Mas, e a solução? Quem está encarregado de procurá-la? Pelo jeito, ninguém. Os empresários e trabalhadores que se virem. A oposição parece não ter maior apetite pelo assunto. Já o governo acredita, de novo, na sua capacidade de vender o peixe, contando justamente com a vista grossa da oposição. Infeliz com o spread? Pois saiba que nunca o juro básico foi nominalmente tão baixo no Brasil. Mas, ora bolas, o que uma coisa tem a ver a com a outra? Nada. O problema do cidadão continua do mesmo tamanho, enquanto a tese, bovinamente reproduzida, serve para preencher o noticiário. E para ganhar tempo enquanto a Mãe China não vem.

Maneira esperta

Todas as pesquisas mostram que só três partidos aparecem com alguma expressão na preferência do eleitor: PT, PMDB e PSDB. E os petistas batem os peemedebistas e tucanos numa proporção quase três para um. Eis um bom motivo para a preferência da trinca pela lista fechada (o eleitor vota na legenda e as vagas no legislativo são preenchidas pelos nomes que a direção partidária indicou para a cabeça da chapa).

O raciocínio é simples. Se os sem-partido representarem, numa hipótese, 40% do eleitorado, uma agremiação que consiga 20% do total de sufrágios vai obter 33% das cadeiras, pois esses 20% representarão um terço dos votos dados aos partidos. É uma maneira esperta de transformar a minoria em maioria. É a prima-irmã do voto facultativo.

Pode-se argumentar que hoje já é assim, pois cada legenda conquista cadeiras proporcionalmente à soma dos votos dados ao partido e aos candidatos. Mas há uma diferença. As siglas não tão expressivas podem apresentar nomes que atraiam a simpatia do eleitor. E esses nomes vão ajudar a engordar o cacife da legenda.

Entende-se que PT, PMDB e PSDB queiram “limpar a área” e adquirir o monopólio da política, sem ter que brigar com partidos menores por cargos, verbas e espaço. Estranho é o Democratas assinar em baixo uma proposta que o enfraquece, e pode condená-lo a perder ainda mais relevância.

UNE

Foi ontem na Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul o reencontro de membros da primeira diretoria eleita para a União Nacional dos Estudantes na reconstrução da entidade, em 1979. A iniciativa foi do deputado Adão Villaverde (PT). Da chapa Mutirão, estavam lá para receber a homenagem Marcelo Barbieri, Aldo Rebelo, Juarez Amorim, Fredo Ebling e este colunista.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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10 Comentários:

Blogger Cesar Cardoso disse...

"A celeuma da Comissão Parlamentar de Inquérito da Petrobras ajuda o governo em pelo menos um aspecto. Serve momentaneamente para deixar em segundo plano o debate sobre a economia."

Mas isso também não é bom para a oposição, já que aparentemente a coligação PSDB-DEM não consegue formular uma proposta econômica alternativa que seja?

quarta-feira, 27 de maio de 2009 07:51:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Dado a atual trajetória do câmbio, a China já chegou. Alcançou o primeiro lugar como parceiro comercial do Brasil. Poderá comprar mais quantidades de commodities a preços mais baixos e ampliar a venda de manufaturados e produtos de tecnologia a preços mais altos. Fecha investimentos na exploração do pré-sal com acordos de fornecimento do óleo retirado. Vota contra o Brasil na Corte de Apelações da OMC, onde a candidatura do Brasil foi derrotada e parece, não é voto garantido ao Brasil que deseja assento permanente no CS da ONU. Será que quem deseja uma segunda reeleição apoia também tais aspectos?

Swamoro Songhay

quarta-feira, 27 de maio de 2009 09:29:00 BRT  
Anonymous Moses disse...

Alon,
impressão minha ou a expressão "prima-irmã do voto facultativo" revela reserva quanto ao imprescindível fim da barbárie que é o voto obrigatório?
Caso positiva tua resposta, fico chocado, hehehe.
Grande abraço!

quarta-feira, 27 de maio de 2009 11:16:00 BRT  
Blogger Dourivan Lima disse...

Caro Alon,

Sobre a questão dos partidos, acho que se deveria começar testando uma versão mais light, uma espécie de regra de transição.

Ficaria disposto na lei eleitoral que os partidos obrigatoriamente destinariam um percentual do tempo da propaganda eleitoral, no caso dos cargos proporcionais, para incentivar o voto em legenda. Seria mais fácil e prático para o eleitor, especialmente no caso das eleições regionais/federais, quando ele tem que votar para cinco cargos.

Ficaria estabelecido ainda, já na primeira eleição com a nova regra, que os votos da legenda iriam apenas para os candidatos da lista elaborada pelos partidos.

A partir daí teríamos condições de aferir a legitimidade ou não dessa mudança - e quem sabe a regra de transição poderia até mesmo tornar-se definitiva.

Claro que isso iria causar problemas para as coligações proporcionais. Mas não há entre os reformistas justamente quem advogue o fim dessas coligações?

quarta-feira, 27 de maio de 2009 11:18:00 BRT  
Anonymous fscosta disse...

"Estranho é o Democratas assinar em baixo uma proposta que o enfraquece, e pode condená-lo a perder ainda mais relevância."

Oras, está cada vez mais claro que uma fusão entre PSDB e DEM vai acontecer em algum momento futuro. Eles estao disputando o mesmo "market share", principalmente com a chegada do PT ao poder e com a guinada ao centro do Lula. Tomou de assalto a fatia de mercado que o PT nao tinha com politicas conservadores (das indicações ao STF, passando pelo BC e chegando até na politica agraria).

Ruim ou não, quem vai dizer é a historia, não adianta nos debater ou fazer comentarios irados. Só no futuro teremos uma visão plena do qual importante ou desastroso foi essa escolha.

Mas voltando, PSDB e DEM lutam pelo mesmo espaço, mas na politica essa luta pode significar o fim dos dois, e acho que existe gente inteligente nos 2 partidos que já perceberam isso, so aguardam o "momentum". PPS tb entra nesse calculo, mas o PPS esta tao acabado ideologicamente que nao vai haver dificuldade alguma. Hj ainda é util ao PSDB ter o PPS como braço de apoio pra fazer o jogo sujo sem sujar as proprias maos (eg.: propaganda da poupança).

Pra mim o momento vai ser apos 2010 se o candidato for o Serra e ele perder as eleições (DISCLOSURE :: esse paragrafo é pura futurologia, nao há base cientifica, é achismo mesmo, cada um acha o que quiser).

Abçs,

quarta-feira, 27 de maio de 2009 11:57:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Mas seriam PMDB e DEM a dever formular proposta econômica alternativa se a que está em execução é a que foi implantada por eles e seus seguidores?
Se alguém tem a dívida de implantar uma política alternativa, é quem criticava esta aí: o PT.

quarta-feira, 27 de maio de 2009 15:34:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Acho que solução não haverá. Pelo menos em futuro previsível. A menos que os financiados, se assim se possa definir, passem a mandar nos financiadores, se assim se poderá chamá-los. Tipo assim: o rabo abana o cachorro.
Ou, quem dera, no dia em que a populacha pare de achar legal estar menos quebrado, mas menos que os outros ou que roubar todos roubam ou ainda que a gasolina pode cair no mundo inteiro, menos aqui, para o bem da Petrobrás, acionistas, credores e especialmente fornecedores e favorecidos.

quarta-feira, 27 de maio de 2009 15:34:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

Esse argumento não se sustenta, Alon:

"As siglas não tão expressivas podem apresentar nomes que atraiam a simpatia do eleitor. E esses nomes vão ajudar a engordar o cacife da legenda."

Pra isso basta um partido pequeno colocar a "celebridade" ou "cacareco" na cabeça da lista.

Além disso, "nomes que atraiam a simpatia do eleitor" em vez de idéias e programas, me parece uma escolha pela despolitização.

quarta-feira, 27 de maio de 2009 22:27:00 BRT  
Anonymous curtidas instagram disse...

Cara belo post bem interessante !!

sábado, 22 de março de 2014 00:34:00 BRT  
Anonymous comprar curtidas no instagram disse...

excelente post !!

sábado, 22 de março de 2014 00:35:00 BRT  

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