domingo, 10 de maio de 2009

Dispensados de mistificar (10/05)

Os políticos talvez acreditem que não precisam mais disfarçar quando estão empenhados em algo que nada tem a ver com o interesse coletivo

Um detalhe chama a atenção nas idas e vindas em torno dos cargos da Infraero. Os protegidos dos políticos foram demitidos, criou-se um movimento para readmiti-los e existe uma ameaça de crise. Mas quem protesta contra as demissões não toca num aspecto do problema. Para que mesmo esse pessoal estava na Infraero? Por que os desligados deveriam voltar às funções? Havia algum projeto essencial tocado por eles -ou por algum deles? Algum dos demitidos tem qualificações que o tornam indispensável à missão do órgão?

Não é possível governar na democracia sem dividir poder, e a ocupação de espaços de governo é uma ambição legítima dos partidos. Mas essa repartição deveria, teoricamente, estar subordinada a algum critério de eficiência, ou ao interesse público. Pelo menos nas aparências. Não deveria ser só na base do “nomeie meu cara para aquele cargo, ou então eu assino o requerimento da CPI e você vai ver”.

Infelizmente, hoje em dia nossos políticos nem tentam mais disfarçar. É uma característica recente da vida brasileira. Eles parecem acreditar que ninguém tem nada a ver com isso quando estão empenhados em capturar poder. A política é também a arte de apresentar como essenciais para o bem comum os movimentos que atendem em primeiro lugar às ambições do político. Mas os nossos, pelo visto, consideram-se dispensados até de tentar mistificar.

Por que chegamos a essa situação? A oposição dirá que é culpa do governo, e este responderá que precisa ceder às pressões, para não ficar nas mãos de uma oposição que tenta inviabilizá-lo. A discussão é interminável. O resultado prático, porém, é um divórcio progressivo entre os representados e a representação. A historiografia apelidou o fenômeno de “cretinismo parlamentar”.

A solução não é fácil. Fernando Collor, por exemplo, tentou governar afrontando a lógica. Depois, quando a inflação recrudesceu e se avolumaram as nuvens negras da crise política, precisou ceder nacos da máquina. O sonho do presidente era atrair o PSDB, mas a operação esbarrou na resistência da facção tucana do então senador Mário Covas (SP). Collor teve que se contentar com o PFL, que aliás lhe foi de pouca ou nenhuma utilidade quando o isolamento presidencial precipitou o processo de impeachment.

Collor comprovou que governar em minoria num país como o Brasil é ideia de gente imprudente ou sonhadora. No começo do seu primeiro quadriênio, Luiz Inácio Lula da Silva chegou a namorar a hipótese de o PSDB garantir a ele uma governabilidade que dispensaria a cessão de cargos, ao PMDB e outros. Uma linha também bastante conveniente para legitimar e saciar o apetite da miríade de grupos petistas. Por pouco, muito pouco, o equívoco não custou ao presidente um processo de perda de mandato em 2005.

Agora estamos escorregando para o outro extremo. Um ambiente em que os políticos se juntam, separam-se, repartem entre si as benesses e se consideram dispensados de dar explicações ou satisfações sobre os seus movimentos. A degeneração dos hábitos desenha um quadro perigoso. Em primeiro lugar, para suas excelências. O eleitor não é cego, nem surdo.

Talvez os políticos estejam a fazer uma leitura equivocada da opinião pública. Tomam a nuvem por Juno. É verdade que a palavra impressa (ou espalhada eletronicamente) não tem poderes absolutos. Onde está o limite da força da imprensa? Está na checagem que cada receptor de informação faz, todo o tempo, confrontando as ideias que recebe e a realidade que o cerca. E isso fica cada vez mais fácil e prático, graças ao crescimento exponencial do número de emissores de informação capazes de distribuí-la eficazmente. O poder da comunicação encontra seu limite quando tenta se contrapor aos fatos da vida. E hoje em dia isso acontece em tempo quase real.

É um equívoco imenso deduzir daí que ninguém acredita mais em nada do que a imprensa publica, e que qualquer um pode fazer o que bem entender. Um bom exemplo é o caso do descontrole com as passagens aéreas da cota gratuita de deputados e senadores. Houve a crítica e o Congresso teve que recuar. Aliás, quando a crítica é razoável, equilibrada e conectada à realidade, pode ter um efeito devastador.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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