quinta-feira, 21 de maio de 2009

Conversa vazia para assustar tucano (21/05)

O PT no poder não moveu uma palha para rever as privatizações que denunciava no passado. E que continua denunciando hoje, enquanto convive confortavelmente com o cenário empresarial criado pela venda das estatais na administração FHC

O PT tem uma arma eficiente quando precisa colocar o PSDB na defensiva. Põe na mesa o tema das privatizações e pronto: faz mais de seis anos que terminou o governo Fernando Henrique Cardoso e os tucanos ainda não descobriram a maneira de enfrentar o debate com alguma eficácia. É verdade que as reações agora, na polêmica em torno da CPI da Petrobras, soam mais aguerridas do que a capitulação protagonizada por Geraldo Alckmin em 2006. Mas nada que signifique uma virada no jogo, uma mudança qualitativa na disputa de ideias.

Não estou aqui a acusar o PSDB de incompetência. Seria presunçoso. É que a missão dos defensores da tese é espinhosa mesmo. Por uma razão simples: toda pesquisa de opinião mostra que, uma década depois, a percepção do público sobre as privatizações é mais negativa do que positiva. O vento dos anos 90 virou ao contrário. O cidadão quer mais Estado, e não menos. Hoje em dia, até o mais liberal dos candidatos, quando luta para conquistar um cargo executivo, passa o tempo todo da campanha discorrendo sobre as maravilhas que o governo dele vai fazer pela população, lógico que gastando o dinheiro do contribuinte.

O quadro se consolidou desde a eclosão da crise econômica, em setembro do ano passado. Desceu pelo bueiro o sonho de um mercado que se regula por si. Os Estados nacionais apareceram como a boia de salvação de um mundo em pânico, um planeta revoltado diante da irresponsabilidade dos financistas. Daí que dia sim dia não Luiz Inácio Lula da Silva coloque um pouco mais de pressão sobre os adversários, lembrando que ele, Lula, defende o Estado. E dizendo que a oposição está no polo oposto.

Curioso, porém, é o PT no poder não ter movido uma palha para rever as privatizações que denunciava no passado. E que continua denunciando hoje, enquanto convive confortavelmente com o cenário empresarial criado pela venda das estatais na administração FHC. Mesmo agora, no processo de consolidação de ramos econômicos acelerado pela crise, a opção do governo não tem sido criar novas estatais, mas estimular o surgimento de oligopólios privados, financiados com o dinheiro do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). Igualzinho como era com FHC.

Na oposição, o PT moveu mundos e fundos contra a privatização da Companhia Vale do Rio Doce (então CVRD, hoje Vale). No governo, engavetou o tema. Dirão que é realismo, para não causar turbulências na economia. Que é uma questão de correlação de forças. Mas a correlação de forças sempre pode mudar. Eis uma boa pergunta para a candidata do PT num debate presidencial em 2010: “Considerando que o seu partido acusou a venda da Vale de ser um ato danoso ao interesse nacional, o que a senhora pretende fazer para revertê-la? Ou a senhora acha que devemos deixar para lá? Neste caso, quais os outros atos danosos ao interesse nacional que o país deveria deixar para lá?”

É claro que isso é só uma provocação. Serve para ilustrar como o debate sobre as privatizações está preso ao terreno da retórica, e dos duelos verbais entre os políticos. Em termos práticos, ninguém conseguirá privatizar a Petrobras, o Banco do Brasil ou a Caixa Econômica Federal nos próximos anos, nem que queira. Não há apoio político para isso. Aliás, já não havia nos anos 90. Se houvesse, as três empresas teriam sido vendidas na onda privatizante do governo do PSDB. Sem dó nem piedade. Motivos operacionais, de caixa, não faltavam.

Em resumo, não se nota no PT qualquer movimento para levar da palavra à ação sua crítica “programática” das privatizações. Tampouco vontade. Por isso, não se vê por aí financiador de campanha que leve essa conversa a sério, nem que esteja preocupado. Só quem se assusta com o discurso petista é o PSDB.

Na Amazônia
A convite do Centro de Comunicação Social do Exército, estou na Amazônia para conhecer in loco algumas iniciativas das Forças Armadas na defesa de nossa soberania na região. O assunto será tema de uma das próximas colunas.

Coluna (Nas entrelinhas) publicada hoje no Correio Braziliense.

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10 Comentários:

Anonymous J.Augusto disse...

Na época da privatização da Vale eu ouvi essa mesma conversa que o Alon está falando, que a Vale era lucrativa, estava fora do Programa de privatização, e deu no que deu.

É possível que um hipotético governo do PSDB e do DEM não privatize ela inteira, mas que podem fatiar a empresa e vender partes, subsidiárias, uma parcela maior de ações, isso pode.

Além disso, no bojo dessa conversa, está em questão o percentual da riqueza do petróleo do pré-sal que ficará com o tesouro brasileiro.

quinta-feira, 21 de maio de 2009 02:26:00 BRT  
Anonymous J.Augusto disse...

Para que não paire dúvidas sobre o processo da Vale, a autora é Clair da Flora Martins (ex-PT, atualmente no PSOL).
O precesso é: 1999.39.00.007303-9 no TRF1

quinta-feira, 21 de maio de 2009 02:42:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Claro que existe muita retórica dos dois lados sobre a privatização (ou privataria), mas achar que isto é mero discurso vazio, sem consequências, é um erro.

Defender participação maior ou menor do Estado na economia é um ponto importante de diferenciação de PT x PSDB. É isso que os petistas querem deixar claro.

Quanto ao comentário que o debate sobre a privatização da Petrobrás é irrelevante, já que não haverá ambiente politíco para tal proposta, não consigo concordar com esta forma de ver. O cenário político muda constantemente e algo que parecia impossível num dia, passa a ser aceito no outro. A arte da política é justamente viabilizar aquilo tido como delírio.

quinta-feira, 21 de maio de 2009 05:56:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Desprivatizar ou discutir nacionalmente a desprivatização ,seria um assunto para final de expediente nos botequins ou sindicatos.Nunca,seriamente ,como matéria legislativa." Transitou em julgado".Acabou!

quinta-feira, 21 de maio de 2009 10:45:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Se a privatização é um negócio tão ruim assim e a estatização é a panacéia, não seria o caso do partido governista ir mais fundo? Que tal reestatizar a petroquímica e a siderurgia? Por que não fazer o mesmo na Educação, estatizando todas as escolas privadas? O mesmo com hospitais e fundações? Ou melhor ainda, aproveitar o Art. 219 da CF, onde lá diz que o mercado interno integra o patrimônio da União e estatizá-lo todo - Bancos, Bolsas, Corretoras, Pequenas, Médias e Grandes Empresas, Concessionárias de Serviços Públicos. E de quebra, que tal deixar de honrar a Dívida Pública que, segundo discursos, só favorece rentistas? Ou baixar a Selic para zero? Não dá para entender porque a oposição fica acuada quando argumentos atrasados e fora da realidade são colocados contra ela, quando sabe que não haverá nenhum movimento em tal sentido, exceto furibundos discursos esquecidos até a próxima MP. E sabe também que trata-se apenas de armadilha político-eleitoral. Por que não caminhar-se-á para tanto? Por um motivo bem claro: o Governo hoje é, alardeamente, elogiado e considerado confiável para investimentos externos e internos, fiador da livre iniciativa. Se partisse para tais aventuras seria um retrocesso maior do que o ocorrido nos anos 80. Ou para quando o M4 foi congelado no início dos anos 90. Ficar no corner numa situação dessas é no mínimo querer perder de novo.

Swamoro Songhay

quinta-feira, 21 de maio de 2009 11:52:00 BRT  
Anonymous Felipe disse...

Se o pouco que o Lula faz, como o Bolsa Familia por exemplo já gera muita gritaria e histeria pela nossa mídia, pela nossa elite ignorante e predadora, imagina então se o Lula resolvesse mexer uma palhinha sequer para nacionalizar a Vale por exemplo. A nossa elite ia ser pior que a elite boliviana e a venezuelana. Sua critica em relação ao PT tá fora da realidade. Tú não conhece a elite que temos ou ao menos tá fingindo que não conhece.

Outra coisa, retórica e prática não é um dualismo, não é uma oposição binária. Isso é influencia do pós modernismo que cria varios dualismos como mente-corpo, consciencia-inconsciencia, presença-ausencia, e por ai vai. Ajudou muito porque é um excelente pensamento para classificar, organizar objetos. Mas também influencou a nossa forma de pensar, temos a tendencia de pensar assim negando o todo que é a real relação entre um e outro, não são pares opostos, que se confrontam,se comparam, querendo dizer que um é bom e o outro é ruim. Pelo contrário, são pares complementares, mutuamente constitutivos, que se combinam. A retórica é prática, é ação também. Os posmodernistas por exemplo dizem que conhecimento é somente uma construção discursiva, que não tem relação com a realidade. É um equivoco,o discurso, a retórica é uma coisa real, influencia, muda, denota ação e reação aponta incoerencias da realidade para que esta mude. Que o debate está no plano da retórica não significa que esteja em oposição a prática. Abre o olho para o discurso do PSDB e não para o do PT, que já ousou demais num páis em que as raízes conservadoras são muito profundas. Se o Lula seguisse teu pensamento já tava fora do jogo político.

quinta-feira, 21 de maio de 2009 23:11:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Todos os cidadãos, contribuintes e eleitores, têm todo o interesse em poder analisar com clareza, pois, exercem o direito democrático de escolha, com os olhos mais abertos ainda. Clareza que, infelizmente, não exala dos discursos. A percepção é a de que os eleitores são um estorvo ou mera massa de manobra para mistificações. Como se os eleitores precisassem que alguém se arvore no direito, não concedido de, exceto por presunção, tentar lograr nomear o inimigo da vez, toda vez. Quanto ao pensamento explicitado, não seguiu e nem precisaria segui-lo. Bastou não seguir o que preceituavam aqueles que o apoiavam. Permaneceu no jogo político, pois, nunca esteve fora do jogo político.

Swamoro Songhay

sexta-feira, 22 de maio de 2009 10:00:00 BRT  
Anonymous adriano matos disse...

quantas empresas concorrentes de telefonia fixa existem em sua cidade? A telefonia movel tb, tornou-se acessivel devido ao amadurecimento da tecnologia. Vcs nao lembram dos precos das tarifas anos atras?
Resumindo: a privatizacao foi muito mal feita e o modelo anterior tb era ruim.

domingo, 24 de maio de 2009 12:27:00 BRT  
Anonymous adriano matos disse...

quantas empresas concorrentes de telefonia fixa existem em sua cidade? A telefonia movel tb, tornou-se acessivel devido ao amadurecimento da tecnologia. Vcs nao lembram dos precos das tarifas anos atras?
Resumindo: a privatizacao foi muito mal feita e o modelo anterior tb era ruim.

domingo, 24 de maio de 2009 12:27:00 BRT  
Anonymous Anônimo disse...

Para variar, sua lógica para a crítica ao discurso anti-privatização é canhestra. O PT (e não só ele) diz que a privatização da Vale foi danosa para o país. Sua alegação está baseada no fato de que o preço de venda foi muito abaixo do preço real de mercado. Há maneiras de verificar isto. Vc é jornalista, faça seu trabalho! Ou foi, ou não foi. Ao invés de fazer o seu trabalho, você fica querendo dar lição de moral, dizendo que para ser coerente o PT no governo deveria reverter a privatização da Vale. Nada mais ignóbil. Critica-se um prejuizo - pela venda abaixo do preço - e a solução é a estatização: agora que a subida dos preços dos minérios fez o valor da Vale explodir, recompramos jogando o dinheiro do contribuinte fora, ou simplesmente cancelamos, jogando no lixo o dinheiro dos atuais acionistas e criando uma baita insegurança no mercado. Isto é, sua sugestão é que para reparar um prejuizo ao contribuinte, tenhamos outro enorme prejuizo ao contribuinte. O pessoal do PT pode não ser coerente, mas burro também não é!

domingo, 24 de maio de 2009 18:05:00 BRT  

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